*por Barbara Perrenoud e Emanuel Lins
O “Consenso de Beijing” foi um termo cunhado por Joshua Cooper Ramo em 2004, em referência ao modelo de desenvolvimento chinês, como um contraponto ao “Consenso de Washington”. Nas duas décadas que transcorreram desde então, a economia chinesa cresceu exponencialmente, passando de um PIB de menos de US$ 2 trilhões em 2004 para os atuais US$ 17,8 trilhões. O “modelo chinês” de crescimento foi fortemente impulsionado por exportações e investimentos, com constantes superávits em conta corrente e formação bruta de capital fixo acima de 40% do PIB.
A liberdade de movimento de capitais na China é extremamente restrita, com o país mantendo uma conta de capital significativamente fechada. Outro aspecto distintivo da economia chinesa é o sistema bancário, predominantemente estatal, com mais de 50% dos ativos bancários sob controle de bancos públicos. Essa combinação de baixa mobilidade de capitais, sistema bancário estatal e robustas reservas internacionais permitiu ao país sustentar superávits comerciais, ao mesmo tempo que manteve sua moeda desvalorizada, favorecendo a competitividade das exportações.
O êxodo rural foi um fator crucial, proporcionando mão de obra de baixo custo para as indústrias urbanas. A estrutura produtiva foi definida centralmente pelo governo, com um processo de industrialização “de cima para baixo”, focado na produção de manufaturas para exportação. Além disso, a China atraiu investimentos estrangeiros por meio de um modelo de plataforma exportadora, com a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), implementadas a partir de 1978, durante as reformas econômicas de Deng Xiaoping. Essas zonas permitiram que empresas estrangeiras deslocassem parte de sua produção para a China, aproveitando os custos de produção mais baixos, tornando-se também uma importante fonte de transferência de tecnologia.
Diferentemente de outros países que adotaram estratégias semelhantes, mas ficaram restritos à montagem de produtos com peças produzidas no exterior, a China desenvolveu uma estrutura produtiva na qual empresas nacionais e joint ventures com empresas estrangeiras propiciaram a complexificação da economia.
A estratégia de desenvolvimento do país se manteve com seu ingresso na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001. Graças ao câmbio desvalorizado e ao controle de capitais, a China tem conseguido manter seu superávit comercial. Mantém, também, altos níveis de investimento, dos quais o modelo de crescimento chinês tornou-se cada vez mais dependente ao longo da primeira década dos anos 2000. O investimento contribuiu com cerca de metade do crescimento do PIB da China nesse período.
### 1. Composição do PIB e PIB per capita
O PIB da China cresceu 5,2% em 2023, alcançando US$ 17,8 trilhões — o segundo maior do mundo, atrás apenas dos EUA, com US$ 27,4 trilhões. No entanto, considerando-se a paridade de poder de compra, o PIB chinês é o maior (US$ 34,6 trilhões, contra US$ 27,4 trilhões dos EUA). A China, atualmente, é classificada como um país de renda média-alta. Embora seja a segunda maior economia do mundo em termos agregados, o PIB per capita chinês revela desafios em termos de pobreza e desigualdade. Em 2023, o PIB per capita da China foi de US$ 12.000, abaixo da média mundial de US$ 13.849, e bem distante da média de US$ 58.000 das economias avançadas. Além disso, há grande disparidade regional, com o PIB per capita variando de US$ 28.000 em Pequim a US$ 6.800 em Gansu.
Em 2023, a composição do PIB chinês foi distribuída da seguinte forma: 55% em serviços, 38% em indústria e 7% em agricultura. O peso do setor industrial é significativo, correspondendo a quase 40% do PIB chinês, em contraste com apenas 18% nos EUA. Esse setor impulsionou o crescimento econômico chinês nas últimas décadas, mas gerou uma certa dependência das exportações. A participação do consumo no PIB chinês está pouco acima de 50%, uma queda em relação ao início dos anos 2000, quando superava 60%. Comparativamente, nos EUA e no Reino Unido, o consumo corresponde a mais de 80% do PIB.
Nos últimos anos, a China tem buscado aumentar a participação do consumo doméstico no PIB. Em 2023, o consumo foi responsável por 85,2% do crescimento do PIB.
### 2. Complexidade Econômica
Em 2021, a China ocupou a 18ª posição no ranking dos países mais complexos, segundo o Atlas da Complexidade Econômica. Nos últimos 20 anos, a economia chinesa ganhou em complexidade, passando da 39ª para a 18ª posição. A diversificação de suas exportações foi o principal motor desse avanço. As exportações chinesas cresceram quase 10% ao ano nos últimos cinco anos, superando o ritmo de crescimento do PIB.
As exportações chinesas estão atualmente concentradas em manufaturas de alta complexidade, especialmente eletrônicos. O país completou seu processo de “transformação estrutural” e está presente em todos os principais setores de alta produtividade. O gráfico de exportações chinesas por setor revela que, além do setor têxtil, os setores de eletrônicos e maquinário cresceram substancialmente, passando de menos de 5% para 30% e 25% de participação no mercado mundial, respectivamente. Eletrônicos foram o principal motor das exportações nos últimos cinco anos.
A China se destaca na diversificação de sua pauta exportadora, incorporando 20 novos produtos desde 2006. Para fins de comparação, a Alemanha, o segundo país que mais incorporou novos produtos nesse período, adicionou apenas seis.
### 3. Investimento em P&D e Inovação
A China vem aumentando seu investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de forma constante desde 1998. Em 2021, o país investiu aproximadamente 2,5% do PIB em P&D, sendo o segundo maior investidor global em termos absolutos, atrás apenas dos EUA. Segundo o Índice Global de Inovação (IGI) da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), a China é o 12º país mais inovador entre 132 analisados em 2023, destacando-se nos resultados de tecnologia e conhecimento (6º lugar) e sofisticação de mercado (13º lugar).


