A complexidade produtiva da Noruega

Por Banvasten Noronha e Tércio William

A economia norueguesa, guiada pela exploração de petróleo e gás natural, é um exemplo reconhecido de solidez. No entanto, o país enfrenta desafios importantes no que diz respeito à diversificação de sua produção e à complexificação de sua estrutura econômica. Por um lado, a Noruega tem um dos maiores PIB per capita do mundo (89.000 dólares americanos em 2023); por outro, o crescimento de seu índice de complexidade econômica (ECI) é considerado baixo em comparação a outros países desenvolvidos. Apesar de ser classificada como uma economia relativamente complexa, com um amplo setor primário, a dependência excessiva do petróleo e gás natural torna o país vulnerável a choques externos de mercado e a pressões ambientais decorrentes da transição energética global para uma matriz mais limpa.

Segundo o Harvard Growth Lab, o índice de complexidade econômica avalia o acúmulo de conhecimento produtivo em áreas capazes de produzir bens diversificados e sofisticados, promovendo um crescimento econômico mais sustentável e resiliente. A Noruega, embora desenvolvida e com alto padrão de vida, ocupava a 44ª posição no Índice de Complexidade Econômica em 2021. Em 2022, subiu apenas para a 43ª posição, segundo o Observatório de Complexidade Econômica. Em pouco mais de 20 anos, o país caiu 31 posições nesse ranking. A causa disso é a concentração excessiva da economia em setores de baixa complexidade, como petróleo, gás e pesca.

Embora tenha havido uma queda de 31 posições no ranking entre 2002 e 2021, o PIB per capita do país mais que dobrou no período. Esse aparente paradoxo reflete a incapacidade da Noruega de converter seus ganhos financeiros em investimentos que ampliem a diversidade e a complexidade econômica, reduzindo sua dependência do setor energético. Projeta-se um crescimento de apenas 2,53% na complexidade econômica até 2031, colocando o país na 82ª posição entre 133 economias avaliadas pelo Atlas of Economic Complexity. Como resultado, espera-se um crescimento econômico relativamente baixo nos próximos anos.

A falta de uma base manufatureira sólida e diversificada é um grande obstáculo para a economia norueguesa. Em comparação com outros países de bem-estar social, como Suécia e Dinamarca, a participação do setor manufatureiro no PIB da Noruega (7%-8%) e nas exportações é significativamente menor, o que dificulta o crescimento sustentável a longo prazo e aumenta a vulnerabilidade do país às variações no mercado de commodities.

A Noruega também enfrenta vulnerabilidades relacionadas ao setor cambial. O país criou altos impostos sobre a exportação de petróleo para constituir o maior fundo soberano do mundo em termos de ativos geridos, que busca mitigar os efeitos da valorização cambial sobre o restante da economia, evitando a “doença holandesa”. Contudo, menos de 1% dos recursos do fundo é destinado a investimentos em energia renovável. Em comparação, o Brasil tem direcionado parte considerável de seus recursos de petróleo para áreas como educação, saúde e meio ambiente.

O fundo soberano norueguês não tem sido capaz de tornar a economia mais complexa e resiliente. A balança comercial reflete essa falta de diversificação: as exportações do país são concentradas em setores de baixa complexidade, como gás, petróleo e pesca, enquanto suas importações provêm de setores de alta complexidade. Diante disso, o Harvard Growth Lab recomenda a adoção de “apostas estratégicas” em áreas com alto potencial de diversificação futura. Um exemplo é o aumento dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), uma área que a Noruega precisa reformular. Embora o país invista cerca de 2% de seu PIB em P&D, enfrenta dificuldades para gerar patentes e inovação, especialmente em setores capazes de gerar efeitos positivos em outras áreas da economia.

De acordo com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a Noruega ocupa apenas a 29ª posição no ranking global de pedidos de patentes, com uma taxa de crescimento considerada baixa. O foco excessivo nas indústrias petrolíferas dificulta a diversificação para setores de maior complexidade. A recomendação é investir em inovação e registro de patentes em áreas estratégicas, como maquinário industrial e produtos químicos orgânicos, que possam ter efeitos positivos em outros setores.

Outro caminho seria ampliar os investimentos em energias renováveis, especialmente em tecnologias inovadoras para energia eólica e hidrogênio verde. Com a crise climática, a transição para energias mais limpas representa uma oportunidade para a Noruega. Investimentos em setores diversificados poderiam tornar a economia norueguesa mais resiliente e competitiva, agregando valor às exportações e impulsionando o crescimento econômico.

Além disso, uma economia mais complexa poderia reduzir a desigualdade social no país. Embora a Noruega já apresente um baixo índice de Gini, há espaço para melhorias, especialmente em comparação com outros países nórdicos, como Suécia e Dinamarca, que possuem índices de desigualdade menores devido à sua maior complexidade econômica.

Em suma, a diversificação da economia norueguesa, com foco em inovação em setores estratégicos como energia renovável e produtos químicos, tem o potencial de torná-la mais resiliente, dinâmica e menos dependente do setor de petróleo e gás. Isso poderia melhorar tanto o crescimento econômico quanto a igualdade social no país.

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