Embrapa, IAC, RIDESA e o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária
*escrito por José Gustavo Pauro
A frase que atravessou séculos — “em se plantando, tudo dá” — carrega em si um dos equívocos mais persistentes da narrativa nacional sobre o Brasil. Atribuída popularmente à carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel I (1500), a expressão nunca foi grafada naqueles termos pelo escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral. O que Caminha, de fato, registrou foi: “dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem” — referência explícita à abundância hídrica, não à fertilidade intrínseca dos solos (GRAZIANO NETO, 2020). A versão deformada consolidou, ao longo de gerações, o mito da terra fácil: um paraíso tropical em que a natureza supriria, por si mesma, qualquer esforço agrícola.
A realidade edafológica, no entanto, contraria frontalmente essa narrativa. Os solos tropicais brasileiros — os latossolos que cobrem grande parte do Cerrado, do Centro-Oeste e dos planaltos do Norte — são, em sua condição natural, ácidos, pobres em fósforo e sujeitos a processos de lixiviação intensa. Transformar esse substrato em uma das maiores potências agroalimentares do planeta não foi obra da generosidade da natureza: foi resultado de décadas de investimento público em ciência, tecnologia e inovação, conduzidas por um sistema de instituições de pesquisa agropecuária sem paralelo no mundo tropical.
O presente trabalho reconstrói a trajetória dessa transformação, com ênfase nas principais instituições responsáveis por ela: o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), fundado em 1887 durante o Segundo Reinado; a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973 no contexto do milagre econômico; e a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (RIDESA), constituída em 1990 a partir da extinção do PLANALSUCAR. Examina-se ainda a arquitetura do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), que articula essas e outras instituições em escala nacional.
A argumentação central é que a pujança da agricultura brasileira contemporânea não se explica por dotações naturais excepcionais, mas por uma escolha deliberada de política científica: a decisão de construir capacidade endógena de pesquisa adaptada às condições tropicais, recusando a dependência de tecnologias desenvolvidas para climas temperados. É, portanto, uma história de Estado desenvolvimentista aplicado à ciência agrária.
- O MITO DA FERTILIDADE NATURAL E A REALIDADE DOS SOLOS TROPICAIS
A persistência do mito da fertilidade natural tem consequências analíticas concretas: ela obscurece o papel do Estado e da ciência na construção da competitividade agrícola brasileira, e substitui uma narrativa de esforço coletivo por uma de privilégio geográfico. Para desfazê-lo, é necessário compreender as características físico-químicas dos solos tropicais brasileiros antes das intervenções tecnológicas do século XX.
Os latossolos, predominantes no Cerrado, apresentam em condições naturais pH entre 4,0 e 5,0 — significativamente abaixo do intervalo de 5,5 a 6,5 considerado adequado para a maioria das culturas comerciais. A acidez elevada induz toxidez por alumínio e manganês, inibe a disponibilidade de fósforo e prejudica a atividade microbiana no solo. Somada a esses fatores, a baixa fertilidade natural dos solos do Cerrado — com teores de fósforo disponível frequentemente inferiores a 1 mg/kg — tornava virtualmente inviável a exploração agrícola comercial sem intervenção tecnológica.
Como registra a própria Embrapa, a agricultura brasileira moderna foi construída sobre a transformação de “solos ácidos e pobres” em solos férteis, por meio de pesquisa, calagem e adubação fosfatada. A fórmula simplificada de Caminha, assim entendida, só se tornou verdadeira depois — e por obra da ciência, não da natureza.
O paradoxo brasileiro é, portanto, preciso: o país que o imaginário ocidental associava à fertilidade natural era, na maior parte de seu território agricultável, um desafio agronômico de primeira ordem. A superação desse desafio demandou a construção de instituições de pesquisa capazes de gerar conhecimento adaptado às condições locais.
- ANTECEDENTES INSTITUCIONAIS: O IAC E A PESQUISA AGRÍCOLA IMPERIAL
3.1 Fundação e Contexto Histórico
A história da pesquisa agropecuária institucionalizada no Brasil antecede em quase um século a criação da Embrapa. Em 27 de junho de 1887, foi fundada a Imperial Estação Agronômica de Campinas — atual Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O primeiro diretor-geral foi o cientista austríaco Franz Wilhelm Dafert, revelando desde o início a busca por conhecimento técnico internacional.
A escolha de Campinas refletia sua posição como centro dinâmico da cafeicultura paulista. Em 1892, o Instituto passou para o domínio do Estado de São Paulo, garantindo maior estabilidade financeira e alinhamento com as demandas produtivas regionais.
3.2 Contribuições Técnico-Científicas
Ao longo de mais de um século, o IAC acumulou um portfólio científico robusto, com mais de mil cultivares registradas. Sua contribuição para a cafeicultura é estrutural, com variedades presentes na maior parte dos cafezais brasileiros. O mesmo ocorre na citricultura e no melhoramento da cana-de-açúcar.
Hoje, o Instituto segue como referência, vinculado à Secretaria de Agricultura de São Paulo, com centenas de pesquisadores distribuídos em diversos centros especializados.
- A EMBRAPA E A RUPTURA PARADIGMÁTICA (1973)
4.1 O Contexto da Criação
A criação da Embrapa, em 1973, ocorreu em um contexto de forte crescimento econômico, mas com grande dependência tecnológica no campo. O Brasil ainda importava alimentos básicos e utilizava tecnologias inadequadas às condições tropicais.
A decisão de estruturar a Embrapa como empresa pública — com autonomia administrativa e foco em excelência científica — foi determinante para seu sucesso.
4.2 Modelo Institucional e Capital Humano
Desde o início, a Embrapa investiu fortemente na formação de pesquisadores. Em poucos anos, centenas estavam em programas de pós-graduação, inclusive no exterior. Esse esforço resultou em um corpo técnico altamente qualificado, base da transformação agrícola brasileira.
4.3 O Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA)
A Embrapa coordena o SNPA, que integra instituições federais, estaduais, universidades e setor privado, garantindo capilaridade e coerência à pesquisa agropecuária em todo o país.
- A CONQUISTA DO CERRADO
5.1 O Problema Edafológico
O Cerrado era considerado improdutivo até a década de 1970. A correção da acidez dos solos por meio da calagem e da adubação fosfatada foi a chave para sua transformação.
5.2 A Tropicalização da Soja
A adaptação da soja ao clima tropical exigiu inovação genética. O desenvolvimento de variedades adaptadas ao fotoperíodo tropical permitiu a expansão da cultura para o Centro-Oeste, com ganhos expressivos de produtividade.
5.3 Fixação Biológica de Nitrogênio
A tecnologia de fixação biológica de nitrogênio eliminou a necessidade de fertilizantes nitrogenados na soja, gerando enorme economia e ganhos ambientais.
- RIDESA E A CANA-DE-AÇÚCAR
6.1 PLANALSUCAR
Criado em 1971, o programa estruturou o melhoramento genético da cana no Brasil, originando as variedades RB.
6.2 Criação da RIDESA
Após a extinção do IAA em 1990, a RIDESA assumiu o programa, mantendo sua continuidade por meio de uma rede de universidades federais.
6.3 Impacto das Variedades RB
As variedades RB passaram a dominar a produção nacional, com destaque para a RB867515, fundamental para a expansão da cultura em novas regiões.
- O SNPA E A DIMENSÃO FEDERATIVA
O sucesso da agricultura brasileira resulta da articulação institucional do SNPA, que integra pesquisa federal, estadual e universitária. A atuação internacional da Embrapa, por meio de acordos e laboratórios no exterior, reforça sua conexão com a fronteira científica global.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A agricultura tropical brasileira é resultado de um projeto deliberado de construção científica, e não de uma suposta fertilidade natural. Três lições emergem:
A pesquisa agropecuária é um bem público.
O desenho institucional é decisivo.
Ciência e política pública são complementares.
O que se construiu no Brasil foi uma agricultura tropical altamente competitiva, capaz de alimentar centenas de milhões de pessoas. A distância entre o que a natureza ofereceu e o que a ciência realizou define o verdadeiro significado da transformação agrícola brasileira.

