A Coreia do Sul não espera pela vantagem comparativa, quer pousar na Lua

Sete apostas tecnológicas, uma lógica só: criar capacidades que ainda não existem

O governo sul-coreano anunciou uma estratégia tecnológica organizada em torno de sete projetos estratégicos, nas áreas de energia nuclear, computação quântica, espaço e biotecnologia. Segundo a Reuters, o objetivo declarado é construir novos motores de crescimento para o país — além de semicondutores e inteligência artificial, que já são o coração da economia coreana.

As metas têm data marcada: pouso na Lua até 2030; comercialização de reatores modulares de pequeno porte de desenvolvimento próprio até 2035; produtos de interface cérebro-computador até 2035; um computador quântico nacional de 100 qubits até 2029 e liderança global na fabricação de chips quânticos até 2035.

Vale a pena parar na primeira frase do anúncio, porque é ali que está a lição. A Coreia do Sul lidera o mundo em memória, tem a maior densidade de robôs industriais do planeta, exporta reatores nucleares e domina cadeias de eletrônicos que poucos países conseguem sequer copiar. Pela lógica convencional da vantagem comparativa, o país deveria estar defendendo essas posições. Está fazendo o oposto: assumindo que a vantagem que tem hoje é o ponto de partida para construir a que quer ter em 2040.

O espaço-produto em movimento

Quem olha a lista de sete projetos como uma coleção de ambições soltas — Lua, qubits, cérebro, reatores — perde o essencial. Nenhuma dessas apostas é aleatória. Todas são adjacentes a capacidades que a Coreia já acumulou.

Os reatores modulares nascem de trinta anos construindo e exportando usinas de grande porte, incluindo o contrato dos Emirados Árabes. A liderança em chips quânticos é uma extensão natural do parque de fabricação de semicondutores mais avançado do mundo fora de Taiwan. A interface cérebro-computador combina microeletrônica de precisão com uma base biotecnológica construída na última década. E o pouso lunar vem depois do lançador nacional e da sonda que já colocaram em órbita da Lua.

É exatamente isso que a teoria da complexidade econômica descreve. Países não saltam para qualquer lugar do espaço-produto: eles se movem para vizinhanças que exigem capacidades parecidas com as que já dominam. O que a Coreia faz de diferente é escolher deliberadamente as vizinhanças mais complexas disponíveis — e não as mais rentáveis no curto prazo.

Repare no detalhe mais revelador de todos: 100 qubits até 2029 é uma meta modesta diante do que IBM e Google já anunciam. A Coreia não está disputando manchete de contagem de qubits. Está disputando a camada de fabricação dos chips quânticos, que é onde ela pode transformar um ativo que já possui — engenharia de processo em escala nanométrica — em posição dominante numa indústria que ainda não existe. Isso não é ambição difusa. É leitura precisa da própria matriz de capacidades.

O que os anos 1960 ensinam

Em 1960 a Coreia do Sul era mais pobre que o Brasil. Renda por habitante menor, indústria quase inexistente, dependência de ajuda externa americana, alfabetização baixa e um território sem recursos naturais relevantes. Todo economista da época que aplicasse o manual da vantagem comparativa teria recomendado que os coreanos se especializassem em manufatura leve intensiva em trabalho barato e ficassem ali.

Eles fizeram outra coisa. Criaram a POSCO quando não havia minério nem carvão nacional. Entraram em construção naval sem tradição marítima industrial. Financiaram a Samsung na memória DRAM quando os japoneses eram imbatíveis. Cada um desses passos foi, na época, economicamente “irracional” — e cada um deles gerou capacidades que viabilizaram o passo seguinte. O aprendizado se acumula; a renda vem depois.

O anúncio desta quarta é a mesma máquina funcionando sessenta anos depois, com um Estado que continua fazendo o que sempre fez: definir direção, assumir o risco da fase pré-comercial, coordenar empresas, universidades e institutos, e sustentar cerca de 5% do PIB em P&D — uma das maiores intensidades de pesquisa do mundo. É a lógica das missões, no sentido em que Mariana Mazzucato usa o termo: o Estado não escolhe vencedores, escolhe problemas difíceis e organiza quem vai atacá-los.

E o Brasil?

Nossa agenda pública desta semana é juros, arcabouço, reforma tributária e safra recorde. Temas legítimos, todos. Mas nenhum deles muda o lugar do Brasil no espaço-produto.

O mais frustrante é que já provamos ser capazes disso. A Embraer existe porque o Estado brasileiro decidiu, nos anos 1950 e 60, que o país teria engenharia aeronáutica — e sustentou ITA, CTA e depois a empresa durante décadas de prejuízo antes do retorno. A Petrobras dominou águas profundas por um programa tecnológico de longo prazo. A Embrapa reinventou o Cerrado. Butantan e Fiocruz produzem vacinas em escala industrial. São todos filhos de decisões que ninguém justificaria por vantagem comparativa estática.

O que perdemos não foi capacidade técnica. Foi horizonte. Nosso ciclo de política tecnológica dura menos que um mandato, o orçamento de ciência é a primeira vítima de cada contingenciamento e não temos nada que se pareça com metas de capacidade com data marcada — do tipo “chips quânticos em 2035” — em torno das quais empresas, universidades e financiamento público possam se organizar por uma década.

O pouso na Lua em 2030 não é sobre a Lua. É sobre materiais, propulsão, controle, comunicação e sistemas críticos que ficam no país depois que a missão termina. É sobre a próxima geração de engenheiros formada resolvendo problemas que ninguém resolveu antes. A Coreia entendeu, há sessenta anos, que a riqueza é subproduto do aprendizado produtivo — e nunca o contrário.

Continuamos exportando o que a geologia nos deu e importando o que a engenharia dos outros criou. A escolha, como sempre, é nossa.

1 thought on “A Coreia do Sul não espera pela vantagem comparativa, quer pousar na Lua”

  1. Perfeito, excelente trabalho, considero o melhor e mais completo “empurrão” para nos acordar de nosso eterno ” Deitado em Berço Esplêndido”!

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