*escrito com Carlos Alberto Lopes – ChemVision Consultoria
A indústria química europeia atravessa um processo profundo de erosão estrutural, marcado por uma perda contínua de competitividade que se traduz num movimento acelerado de desindustrialização. O principal vetor desse fenómeno é o custo elevado de energia e de matérias-primas, significativamente superior ao observado em outras regiões industriais do mundo. Como resultado direto, cerca de 37 milhões de toneladas de capacidade produtiva já foram encerradas, o que corresponde a aproximadamente 9% da capacidade total do setor** no continente.
Esse encarecimento estrutural dos insumos compromete a viabilidade económica de unidades produtivas integradas, levando ao fechamento de plantas e à interrupção de investimentos em modernização e expansão. A indústria química, que historicamente operou como base energética e material da industrialização europeia, passa a perder densidade produtiva, escala e previsibilidade, criando um ambiente de incerteza que afasta novos projetos industriais de longo prazo.
Um efeito particularmente crítico desse processo é a **desarticulação das cadeias de valor químicas**, tradicionalmente integradas e altamente interdependentes. O encerramento de unidades-chave rompe sinergias entre segmentos como petroquímica básica, químicos intermediários e especialidades, tornando a produção menos eficiente e mais fragmentada. Esse esvaziamento interno amplia a dependência externa de insumos estratégicos, muitas vezes provenientes de regiões com menor custo energético e menor rigor regulatório.
Essa dependência externa crescente coloca em risco a **segurança de suprimento** da economia europeia, especialmente em contextos de choques geopolíticos, crises energéticas ou disrupções logísticas globais. A perda de capacidade produtiva doméstica reduz a autonomia industrial do continente e limita sua capacidade de resposta a emergências, ao mesmo tempo em que expõe setores críticos a volatilidades de preço e disponibilidade.
As consequências ultrapassam o próprio setor químico e afetam diretamente indústrias que funcionam como motores da matriz produtiva europeia. Segmentos como o **automotivo**, a **construção civil**, a **agricultura** e as **tecnologias associadas à transição energética** enfrentam um aumento estrutural de custos, já que dependem intensamente de insumos químicos para materiais, fertilizantes, polímeros, baterias, isolantes e componentes avançados.
Nesse contexto, a fragilização da indústria química compromete não apenas a competitividade desses setores a jusante, mas também a própria estratégia europeia de crescimento sustentável e transição verde. Sem uma base química robusta, acessível e integrada, a ambição de liderar cadeias industriais de baixo carbono torna-se contraditória. A química, como pilar fundacional da indústria moderna, deixa de ser apenas um setor em crise e passa a representar um **risco sistémico** para o futuro industrial da Europa.

