A desindustrialização da indústria química no Brasil

A trajetória da indústria química no Brasil é analisada dentro do contexto mais amplo da desindustrialização prematura que afetou o setor manufatureiro brasileiro nas últimas quatro décadas (1985–2022) [1, 2]. O setor é geralmente agrupado como Química e petroquímica, e esta categoria engloba também produtos farmacêuticos, veterinários e perfumaria [3].

Aqui estão os principais pontos sobre a trajetória da indústria química e petroquímica no Brasil, conforme detalhado nas fontes:

Classificação e Comportamento Setorial

  • Intensidade Tecnológica: O setor de Química e petroquímica é classificado como de alta e média-alta tecnologia [3, 4].
  • Trajetória de Participação no Emprego: O setor de Química e petroquímica, juntamente com Máquinas e equipamentos, sofreu uma retração na sua participação no emprego total até a década de 1990 [5].
    • No entanto, a partir dos anos 2000, o setor estabilizou sua participação [5].
    • A trajetória revelou um padrão de queda seguida de manutenção ou recuperação parcial na química e petroquímica, indicando sensibilidade a ciclos econômicos e políticas setoriais [5].
  • Contribuição para a Desindustrialização Agregada: A contribuição do setor de química e petroquímica para a desindustrialização total do Brasil (entre 1986 e 2022) foi relativamente modesta [6].

Desindustrialização Prematura

Embora o Brasil como um todo tenha vivenciado a desindustrialização prematura [1, 2], o diagnóstico setorial revela que os segmentos de maior intensidade tecnológica, como o químico, apresentaram um nível de prematuridade muito superior ao da desindustrialização agregada [2, 7].

  • Ponto de Inflexão (PIB per capita): A desindustrialização do setor de Química e petroquímica no Brasil começou quando o PIB per capita (PPC, 2021) atingiu US$ 13.078 [8].
  • Contraste com o Padrão Normal: Esse nível é extremamente baixo quando comparado aos valores de PIB per capita esperados para uma desindustrialização normal em setores similares [9]. Dosi, Riccio e Virgillito (2021) estimam que os setores de “Refino de petróleo” e “Químicos” iniciariam o declínio apenas ao atingir, respectivamente, cerca de US$ 72.126 e US$ 39.584 (a preços de 2021) [8].
  • Grau de Prematuridade: O processo de declínio no setor químico começou quando o Brasil tinha apenas cerca de um terço da renda per capita esperada para que a desindustrialização fosse considerada normal [9]. Os setores de maior intensidade tecnológica se desindustrializaram em um grau ainda mais prematuro que a manufatura como um todo [7, 10].

Implicações e Políticas

A desindustrialização extremamente prematura dos setores de maior intensidade tecnológica, como o químico, é altamente preocupante [7].

  • Impacto no Desenvolvimento: Tais setores são cruciais porque garantem maiores remunerações e, mais importante, são geradores e difusores de progresso técnico, comandando o processo de desenvolvimento econômico no longo prazo [7].
  • SNI (Sistema Nacional de Inovação): O enfraquecimento desses setores fragiliza o Sistema Nacional de Inovação (SNI) brasileiro [2, 11]. Ao enfraquecer a base empresarial, a desindustrialização prematura reduz o potencial de transformação de conhecimento em novos produtos e aumenta a dependência de tecnologias importadas, especialmente insumos e componentes tecnológicos [11].
  • Necessidade de Políticas Focalizadas: Para os setores de maior intensidade tecnológica que se desindustrializam prematuramente, a política industrial deve ser específica por segmento e temporalmente consistente [2]. O requisito de uma taxa de câmbio real subvalorizada e estável deve ser complementado, de forma permanente, com políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) e políticas comerciais adequadas (de importação e exportação), que são centrais para a consolidação da competitividade no médio e longo prazo [12].

Em uma analogia utilizada pelos autores para descrever o grau de prematuridade, se o parto normal da indústria ocorre no nono mês de gestação, a desindustrialização dos setores de alta intensidade tecnológica no Brasil ocorreu entre 20% e 40% desse tempo, o que significa que o desenvolvimento do país foi bloqueado [13].

Fonte:

Vídeo sobre o tema:

https://youtu.be/IWyFsAElWKI

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