*escrito com Gustavo Pauro
O etanol de segunda geração (E2G) surgiu há pouco mais de uma década como promessa de revolução energética sustentável. Com a capacidade de transformar resíduos agrícolas em combustível limpo, parecia a resposta perfeita ao dilema entre energia renovável e segurança alimentar. Bilhões em recursos públicos e privados foram alocados em projetos na Europa, EUA e Brasil, e empresas como Abengoa, GranBio e Beta Renewables se lançaram como pioneiras. Contudo, a narrativa que começou como um “sonho dourado” rapidamente se transformou em uma sequência de decepções, falências e lições amargas sobre os limites da inovação tecnológica.
Casos emblemáticos ilustram essa trajetória. A Abengoa, gigante espanhola com tradição em energia solar e engenharia, entrou em colapso em 2015-2016, acumulando bilhões em dívidas após falhar em tornar viável sua planta de etanol 2G. Já a GranBio, após iniciar em 2014 a primeira produção comercial do Hemisfério Sul, resistiu por 11 anos até admitir em 2025 que não conseguiu viabilizar o modelo, pivotando para combustíveis de aviação sustentáveis (SAF). Mesmo nos EUA, a joint venture POET-DSM enfrentou dificuldades operacionais persistentes, apesar de centenas de milhões de dólares investidos. O saldo global: mais de US$ 2 bilhões em investimentos frustrados.
As razões não estão apenas na gestão ou no mercado, mas sobretudo na complexidade técnica do processo. Escalar uma reação bioquímica que funciona no laboratório para o nível industrial é uma tarefa monumental. Variáveis como temperatura, pH e tempo de fermentação tornam-se incontroláveis em volumes de milhares de litros. O papel das enzimas, essenciais para quebrar a celulose, agrava o desafio: são caras, frágeis e perdem eficiência com pequenas variações ambientais. Isso explica por que os custos de produção permanecem proibitivos e por que mesmo plantas apoiadas por capital robusto não atingiram estabilidade operacional.
Governos não ficaram inertes. O Brasil, por meio do BNDES, direcionou mais de R$ 3 bilhões a projetos como os da Raízen, cuja planta em Piracicaba é a única a operar lucrativamente desde 2019. Nos EUA, mais de US$ 1 bilhão em subsídios foi injetado ao longo de uma década, sem que as metas de produção fossem cumpridas. A União Europeia, por sua vez, endureceu regulações ao proibir gradualmente biocombustíveis de primeira geração e estimular o avanço do E2G. Ainda assim, fica claro que dinheiro público e mandatos regulatórios não são suficientes para dobrar as leis da física e da bioquímica.
Hoje, o setor se divide entre sobreviventes como a Raízen e empresas que redirecionam esforços para novos combustíveis, especialmente os SAF, que oferecem margens mais atrativas e demanda crescente da aviação global. Paralelamente, outras tecnologias competem pelo futuro da transição energética: hidrogênio verde, combustíveis sintéticos e veículos elétricos. O risco é que, quando (ou se) o etanol 2G finalmente se tornar competitivo, o mercado já esteja dominado por alternativas mais viáveis e escaláveis.
A grande lição do etanol de segunda geração é a distância entre prometer e entregar uma inovação industrial. Provar a viabilidade em laboratório não garante sucesso econômico em escala. Persistência, apoio estatal e capital são necessários, mas não suficientes. O E2G ensina que tempo, maturação tecnológica e timing de mercado são determinantes cruciais. Sua história, ainda em curso, pode terminar com relevância limitada ou como etapa de transição para outras rotas energéticas. Seja qual for o desfecho, já representa um caso paradigmático de como a complexidade tecnológica e os ciclos da inovação frequentemente frustram as previsões mais otimistas.

