A Economia sem Alma: Como o Ensino da disciplina se Distanciou da Realidade

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O texto de Jostein Houge com esse título faz uma crítica ao ensino e à prática dominante da economia, argumentando que a disciplina perdeu sua conexão com a realidade social e histórica. Um relatório da rede Rethinking Economics avaliou 16 universidades britânicas e concluiu que os cursos de economia enfatizam treinar os alunos para “pensar como economistas” em termos técnicos e matemáticos, mas negligenciam o entendimento do funcionamento real da economia. Temas cruciais como crise climática, desigualdades históricas e coloniais, ética e interdisciplinaridade são em grande parte ignorados, enquanto prevalece o ensino de economia neoclássica, focada em indivíduos racionais e no formalismo quantitativo.

Essa crítica foi reforçada por Ha-Joon Chang, que comparou a economia neoclássica a uma teologia medieval: rígida, doutrinária e intolerante a dissidências. Segundo ele, a disciplina apresenta-se como única verdade, desencorajando pluralismo e reduzindo a educação a uma forma de doutrinação. Chang ironizou esse monopólio intelectual, afirmando que nas universidades só existe uma escolha possível: o “frango neoclássico”. Seu artigo foi amplamente divulgado e até mesmo apoiado por críticos de sua linha política, como o historiador econômico Niall Ferguson.

Apesar das defesas do mainstream por economistas renomados como Olivier Blanchard, há também autocríticas vindas de dentro da corrente dominante. O Nobel Angus Deaton elencou cinco falhas estruturais da economia atual: a falta de análise do papel do poder; o abandono da filosofia e da ética; a ênfase excessiva na eficiência em detrimento da justiça social; o uso restritivo de métodos empíricos que obscurecem processos históricos e de longo prazo; e a arrogância dos economistas diante da complexidade social. Para ele, a disciplina se tornou tecnocrática e perdeu a capacidade de refletir sobre bem-estar, equidade e valores.

O autor do artigo reforça essas críticas a partir de sua própria experiência acadêmica, relatando frustração com um ensino excessivamente abstrato e desconectado da realidade. Professores chegavam a afirmar que não era função do curso ensinar “a economia do mundo real”. Essa obsessão por modelos matemáticos forma estudantes incapazes de responder perguntas simples sobre problemas econômicos cotidianos, ao mesmo tempo em que limita o alcance das questões investigadas dentro da disciplina.

Essa limitação metodológica restringe a economia a análises sobre como variáveis medidas interagem, deixando de lado perguntas mais amplas e normativas: sobre a viabilidade do capitalismo, os impactos da ascensão da China, ou os limites de tratar a mudança climática como mera falha de mercado. Para o autor, essa visão empobrece a disciplina e trai o legado de clássicos como Adam Smith e Karl Marx, que entendiam a economia como inseparável de valores, normas sociais e filosofia.

Por fim, o texto alerta que a crise da economia não é apenas acadêmica, mas social e política. Economistas formados nesse molde tornam-se profissionais altamente técnicos, mas pouco preparados para lidar com desigualdades, crises ambientais e dilemas éticos. O resultado é uma geração de formuladores de políticas e líderes empresariais que priorizam a eficiência de mercado acima de resultados sociais. Para recuperar relevância, a economia precisa revalorizar a pluralidade de ideias, reconectar-se com outras ciências sociais e reassumir sua natureza de disciplina voltada ao bem-estar coletivo e às transformações concretas do mundo.

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