Nos anos 1970, o Brasil enfrentava um duplo desafio: a crise internacional do petróleo e a necessidade de reduzir sua dependência energética externa. Foi nesse contexto que nasceu o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, uma das políticas públicas mais ousadas da história do país. Enquanto o governo investia na infraestrutura e nas montadoras para adaptar motores ao etanol, a Embrapa assumia uma missão estratégica: transformar a cana-de-açúcar em um ativo científico e produtivo de escala nacional.
O papel da Embrapa foi decisivo porque a revolução energética do Proálcool exigia antes uma revolução agronômica. A produtividade da cana, até então limitada a regiões tradicionais do Nordeste e do interior paulista, precisava aumentar e se expandir para novas áreas. A empresa investiu pesadamente em melhoramento genético, desenvolvendo variedades mais resistentes a pragas, mais adaptadas a diferentes solos e com maior teor de sacarose. Essa base científica permitiu que o país multiplicasse sua produção de etanol sem ampliar proporcionalmente as áreas cultivadas — um ganho de eficiência e sustentabilidade.
Além do melhoramento da cana, a Embrapa atuou na pesquisa de manejo de solo e mecanização agrícola, fundamentais para reduzir custos e aumentar a competitividade do setor. O desenvolvimento de técnicas de adubação, rotação de culturas e controle biológico de pragas ajudou a consolidar o chamado “cinturão do etanol” no Centro-Sul do país. Ao integrar ciência e prática agrícola, a instituição tornou possível um salto de produtividade que garantiu o sucesso do programa nas décadas seguintes.
Outro ponto crucial foi a cooperação entre a Embrapa e o setor industrial. Os avanços da empresa na integração entre lavoura e usina — do teor de açúcar na cana ao rendimento na destilação — criaram uma base tecnológica sólida que transformou o Brasil em líder mundial em biocombustíveis. O conhecimento acumulado serviu de alicerce para o desenvolvimento posterior do etanol de segunda geração, produzido a partir da celulose do bagaço, e para novas pesquisas em bioenergia e bioplásticos.
O legado do trabalho da Embrapa no Proálcool vai muito além da energia: foi um marco na demonstração de que ciência e política industrial podem caminhar juntas. O programa mostrou que o Brasil, ao investir em pesquisa pública e inovação agrícola, pode criar soluções tecnológicas de alcance global. O Proálcool foi a semente de uma bioeconomia moderna, e a Embrapa foi — e continua sendo — seu principal motor de conhecimento.
Variedade de cana RB72454, desenvolvida em parceria com o IAC — alta produtividade e resistência a doenças. Variedade RB867515, criada pela Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (RIDESA), com base em pesquisas da Embrapa — a mais plantada no Brasil. Uso da vespa Cotesia flavipes no controle biológico da broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Reaproveitamento da vinhaça como fertilizante natural, reduzindo custos e impacto ambiental. Desenvolvimento de técnicas de adubação e correção de solo específicas para o Cerrado. Expansão da cana-de-açúcar para o Centro-Oeste (Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul) graças às variedades adaptadas pela Embrapa. Uso do bagaço de cana para geração de energia elétrica e base do etanol de segunda geração. Integração entre lavoura e usina, com pesquisa sobre teor de sacarose e eficiência industrial. Parceria Embrapa–Petrobras para desenvolvimento de biocombustíveis avançados. Contribuição científica para o motor flex, validando a sustentabilidade do etanol brasileiro.
O cinturão do etanol é o coração produtivo do biocombustível brasileiro, concentrado principalmente no Centro-Sul do país, abrangendo estados como São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná. Essa região reúne condições ideais de solo, clima e infraestrutura para o cultivo intensivo da cana-de-açúcar e abriga a maior parte das usinas sucroalcooleiras do Brasil. O avanço tecnológico promovido pela Embrapa foi essencial para a consolidação desse cinturão: o desenvolvimento de variedades de cana adaptadas ao Cerrado, técnicas modernas de manejo e mecanização e o uso racional de recursos naturais permitiram que o cultivo se expandisse para áreas antes improdutivas, sem pressionar biomas sensíveis como a Amazônia.
Graças a esse polo produtivo, o Brasil se tornou o maior exportador mundial de etanol e referência em energia renovável. O cinturão do etanol gerou milhares de empregos diretos e indiretos, fortaleceu cadeias industriais locais (como de fertilizantes, biotecnologia e máquinas agrícolas) e impulsionou a bioeconomia nacional. Além disso, contribui para a redução de emissões de CO₂, já que o etanol brasileiro emite até 90% menos gases de efeito estufa do que a gasolina. O cinturão do etanol é, portanto, um símbolo de como ciência agrícola, inovação industrial e sustentabilidade podem caminhar juntas para gerar desenvolvimento econômico e ambiental.

