*escrito com Gustavo Pauro
A indústria sueca de caminhões é um dos maiores símbolos do desenvolvimento industrial europeu. Com raízes que remontam ao século XIX, ela representa não apenas excelência em engenharia, mas também um modelo de política industrial baseada em parcerias entre setor público, empresas e instituições de pesquisa. Scania e Volvo são os principais nomes dessa história — duas marcas globais que ajudaram a redefinir o transporte de carga no mundo.
A Scania teve origem em 1891, com o nome Vabis, em Södertälje. Desde cedo, recebeu apoio do Estado sueco, que encomendou veículos militares ainda em 1916. Ao longo do século XX, a empresa se expandiu com base em políticas públicas de estímulo à indústria, como contratos estatais, investimentos em infraestrutura logística e apoio à pesquisa aplicada. Durante o pós-guerra, a Scania se consolidou como fornecedora de caminhões e ônibus para o mercado sueco e internacional, com produtos reconhecidos pela robustez e eficiência.
Já a Volvo foi fundada em 1927 em Gotemburgo, com um projeto claro de desenvolvimento nacional. Seu crescimento ocorreu em sinergia com a estratégia sueca de fortalecer setores de alta engenharia. O Estado investiu fortemente em infraestrutura, capacitação técnica e institutos de pesquisa, criando um ecossistema industrial propício à inovação. Não se tratava apenas de subsídios ou incentivos fiscais pontuais, mas de uma visão de país que via na engenharia uma ferramenta de soberania econômica e tecnológica.
Com o avanço da globalização e, especialmente, com o surgimento da agenda da descarbonização, ambas as empresas passaram a liderar a transição para o transporte pesado sustentável. A Scania firmou parcerias com a Northvolt para o desenvolvimento de baterias livres de combustíveis fósseis e passou a testar veículos movidos a etanol e biometano em condições reais. A Volvo, por sua vez, tornou-se referência em caminhões elétricos e autônomos, apoiada por financiamentos do Banco Europeu de Investimento e pela Agência Sueca de Energia.
O sucesso da indústria sueca de caminhões mostra que uma política industrial eficaz não se resume a protecionismo. Trata-se de criar um ambiente estável, com objetivos de longo prazo, em que governo, universidades e empresas compartilham o compromisso com produtividade, inovação e sustentabilidade. Scania e Volvo não são apenas empresas de caminhões: são o resultado de um projeto nacional bem-sucedido, que transformou engenharia em liderança global.
A história da Volvo e da Scania, duas gigantes da indústria de caminhões, é também a história da industrialização e da visão estratégica da Suécia. Ambas nasceram de contextos específicos — geográficos, econômicos e políticos — e se beneficiaram do ambiente institucional e do papel proativo do Estado sueco na construção de uma base industrial sólida.
Por que a Suécia? O contexto histórico
No final do século XIX e início do século XX, a Suécia era um país relativamente pobre, mas que vinha investindo pesadamente em educação técnica, infraestrutura ferroviária e indústria pesada — especialmente nos setores de mineração, siderurgia e engenharia mecânica. Além disso, o país desenvolveu uma tradição de neutralidade em conflitos armados, o que lhe permitiu manter e expandir sua base industrial durante períodos de guerra, enquanto outras nações viam suas fábricas destruídas.
Esse ambiente favoreceu o surgimento de empresas de engenharia e transporte, num país com clima rigoroso, geografia extensa e pouca densidade populacional — o que aumentava a demanda por veículos confiáveis, potentes e adaptáveis a longas distâncias e terrenos difíceis.
Scania: das ferrovias aos caminhões (fundada em 1891)
A Scania nasceu como Vabis (Vagnfabriks-Aktiebolaget i Södertälje) em 1891, produzindo vagões ferroviários. Em 1900, outra empresa, chamada Maskinfabriks-aktiebolaget Scania, foi fundada em Malmö com foco em bicicletas e depois automóveis. As duas companhias se fundiram em 1911, formando a Scania-Vabis.
O governo sueco teve papel essencial em seu crescimento inicial. Em 1916, por exemplo, já havia encomendas militares para caminhões — uma fonte fundamental de receita e escala produtiva. Durante e após a Primeira Guerra Mundial, a empresa foi estimulada a investir em veículos pesados. A partir das décadas de 1930 e 1940, a Scania expandiu-se com base em contratos logísticos com o governo, incentivos à exportação e infraestrutura estatal de apoio à engenharia.
Nos anos 1950 e 1960, a Scania passou a exportar seus veículos pesados para toda a Europa e América Latina. Em 1969, fundiu-se com a Saab, formando a Saab-Scania, separando-se novamente em 1995. Nos anos 2000, recebeu importantes investimentos em caminhões híbridos e combustíveis alternativos, sempre em parceria com o governo sueco e instituições de pesquisa. Desde 2014, pertence ao grupo Volkswagen.
Volvo: a engenharia como projeto nacional (fundada em 1927)
A Volvo foi criada em 1927 como uma subsidiária da fabricante de rolamentos SKF, a partir da visão de que a Suécia deveria produzir seus próprios automóveis, adaptados às condições do país. Seus fundadores, Assar Gabrielsson e Gustaf Larson, tinham experiência técnica e empresarial, e contaram com apoio decisivo do setor financeiro e político sueco.
O primeiro carro da Volvo foi produzido em Gotemburgo, mas a empresa rapidamente se voltou também para veículos comerciais — caminhões e ônibus — que respondiam melhor à demanda interna e tinham maior potencial de exportação. Desde cedo, a Volvo se beneficiou de:
Investimentos públicos em infraestrutura rodoviária e industrial. Sistema nacional de educação técnica e engenharia altamente qualificado. Forte institucionalidade e estabilidade jurídica, que incentivavam inovação de longo prazo.
Durante o pós-guerra, a Volvo tornou-se um dos maiores grupos industriais da Escandinávia, com forte presença internacional. Nos anos 1990, separou sua divisão de automóveis (hoje pertencente à Geely) e concentrou-se no setor de veículos comerciais. A divisão de caminhões (Volvo Trucks) é uma das maiores do mundo e detém marcas como Mack, Renault Trucks e UD Trucks.
Hoje, a Volvo lidera o desenvolvimento de caminhões elétricos, autônomos e conectados, com forte apoio do Banco Europeu de Investimento, da Agência Sueca de Energia e de centros tecnológicos europeus.
Lições do modelo sueco
Estado como indutor: Tanto Volvo quanto Scania nasceram e cresceram em um ambiente em que o Estado atuava como cliente, financiador e planejador estratégico. Educação técnica e engenharia: A excelência em engenharia foi construída com investimentos de longo prazo em universidades, institutos técnicos e pesquisa aplicada. Neutralidade e estabilidade institucional: A posição geopolítica da Suécia e seu modelo de governança interna criaram um ambiente propício para a inovação contínua e a exportação.
Volvo e Scania não são frutos apenas da iniciativa empresarial, mas de um projeto nacional de industrialização, voltado à construção de soberania tecnológica, capacidade exportadora e compromisso com sustentabilidade. A história das duas empresas é, portanto, a história de como o planejamento público e a competência privada podem se unir para produzir excelência global.


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