Complexidade produtiva na Estônia, Lituânia e Letônia: liberalismo?

*escrito com Janis Berzins

Ultimamente a Estōnia tem sido citada com uma certa freqüência como um exemplo de Neoliberalismo que deu certo. A narrativa é simplória. A Estônia durante a União Soviética era um país paupérrimo, com baixa expectativa de vida e inflação que ultrapassava 1000%. Com o colapso da União Soviética, o neoliberal Mart Laar aplicou as idéias de Milton Friedman do livro “Free to Choose”, fez as reformas fiscal, monetária e bancária e promoveu a abertura comercial. Como resultado, a renda da população foi multiplicada de US$ 5.000,00 para US$ 35.000,00. Essa narrativa faz meio que um samba do crioulo doido com a história econômica da Estônia para tentar provar que liberalismo por si só é suficiente para promover o desenvolvimento. Para parafrasear o Vinicius de Moraes, como se dizia antigamente o buraco é mais embaixo. Durante a União Soviética não havia inflação pois os preços eram controlados pelo governo. Podia não haver o que comer, mas inflação não era um problema.

Durante a fase da USSR, a Letônia era a república mais desenvolvida da regiao graças ao seu alto nível relativo de industrialização e complexidade econômica. Assim como seus vizinhos Letônia e Lituânia, a Estônia adotou logo após a independência o que foi chamado de Terapia de Choque (Shock Therapy), tal qual prescrito por Jeffrey Sachs. O pessoal responsável pela política econômica fez cursos rápidos de introdução à economia nos Estados Unidos. Havia muita falta de competência. Um ex-presidente do Banco Central da Letônia uma vez disse fazendo bravata que “isso é tudo que precisei saber sobre economia”, enquanto mostrava um livro de introdução à macroeconomia. A inflação de 1000% ao ano e uma forte crise economica foram resultado da implementação rápida dessa terapia de choque após o colapso da URSS.

Nesse período, o rationale nos três Países Bálticos era de que a adoção de políticas neoliberais iria agradar o setor financeiro, os juros seriam baixos garantindo investimentos e o desenvolvimento ocorreria automaticamente. A economia deveria se desindustrializar para dar lugar ao setor de serviços. O consenso era que o Báltico iria se transformar em um centro financeiro ultra liberal, com os três países concorrendo entre si para servir como ponte entre os países da ex-URSS e o ocidente, iria desenvolver os setores de transporte, para escoar as exportações também da ex-URSS, e imobiliário. As políticas liberais dos anos 1990 nos três Países Bálticos resultaram num processo profundo de desindustrialização e instabilidade econômica que diminui a complexidade produtiva da região, quem seguiu mais a risca a estrategia foi a Letonia (ou Latvia).

Em 1994, graças às políticas mais liberais, um país como Estonia com uma população de 1.5 milhão de habitantes tinha 42 bancos e quase nenhuma indústria. Com a crise da Rússia em 1998, as economias dos Países Bálticos foram ararstados e entraram e profunda crise tambem. É nesse período de estagnacao que os Países Bálticos começam a adotar o modelo regulatório da União Européia com o objetivo de se tornarem membros, o que ocorre em 2004. A partir de 1999, a Estônia foi o primeiro país báltico a perceber a importância de se estabelecer uma economia complexa e industrializada para diminuir a instabilidade econômica e promover o desenvolvimento sustentável no longo prazo. Foi no segundo governo de Mart Laar (e não no primeiro) que a Estônia adotou uma política pragmática de suporte ao desenvolvimento tecnológico de sua economia, sobretudo inovações, passando a procurar aumentar o nível de sua complexidade produtiva. Dois exemplos de sucesso são o Skype e o Transfewise.

A Letonia dos tres era o mais rico e mais desenvolvido na epoca da URSS por ter a economia mais complexa da regiao. Os tres paises adotaram as mesmas politicas liberais. Hoje a Lituania e a Estonia estao bem acima da Letonia em termos de valor adicionado manufatureiro e voltaram a se industrializar. A Letonia (ou Latvia) saiu na frente como economia mais complexa na epoca da URSS e agora perde espaco com desindustrilizacao e perde a corrida da renda per capita. As politicas liberais adotadas nos tres paises hoje sao praticamente as mesmas, sendo a principal diferenca o foco na industria e desenvolvimento tecnologico na Estonia e Lituania. A plataforma na Letonia nos ultimos anos foi o desenvolvimento de financas, transporte e setor imobiliario, servindo como ponte entre ocidente e Russia; tendo como resultado a perda de complexidade da economia (lembrando que a Letonia era quem produzia todos os produtos eletro-eletronicos para a antiga URSS: televisores, radios, etc e industria militar, que hoje sumiu). A Estonia e Lituania fortaleceram sua industraia nos ultimos anos, avancaram muito mais. Dentro das tres estrategias a de aumento de complexidade foi a que resultou melhor.

A experiência da Estônia (e também da Letônia e da Lituânia) mostra que liberalizar a economia sem pensar na questão da complexidade econômica e na industrialização resulta em instabilidade e em crescimento anêmico. O que importa é um sistema regulatório que seja favorável aos negócios, mas que ao mesmo tempo estimule o desenvolvimento tecnlógico, de competências e inovação. O objetivo tem que ser o aumento qualitativo da complexidade da economia. A experiência mostra que o papel de pesquisa e desenvolvimento em parceria com universidades e centros de pesquisa é fundamental. Também, que o agronegócio e atividades extrativistas, por terem baixa complexidade, não são suficientes para promover desenvolvimento. Esse setores têm que ser parte de uma cadeia complexa, que resulte na produção de bens de consumo finais de alto valor agregado.

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