*escrito com Felipe Augusto
A China construiu, ao longo de décadas, uma posição de hegemonia na cadeia produtiva das terras-raras — minerais estratégicos para a indústria moderna, fundamentais em tecnologias que vão de smartphones e carros elétricos a mísseis guiados e turbinas eólicas. Esse domínio não foi acidental: foi resultado de planejamento estatal, regulações específicas, aquisições estratégicas no exterior e políticas industriais consistentes.
Hoje, o país controla cerca de 70% da mineração mundial de terras-raras, 90% da capacidade de separação e processamento e mais de 90% da produção global de ímãs baseados nesses minerais. Esse poder garante à China uma das principais fontes de influência geopolítica e tecnológica contemporânea.
Já nos anos 1990, a liderança chinesa enxergava o caráter estratégico desse recurso. Deng Xiaoping sintetizou a visão em uma frase que se tornou célebre: “O Oriente Médio tem petróleo. A China tem terras-raras”. Para chegar a essa posição, o governo inicialmente aplicou regulações ambientais frouxas, o que permitiu a rápida expansão da mineração — ainda que de forma desordenada — e ajudou a eliminar competidores estrangeiros.
Nos anos seguintes, o país avançou para o controle da cadeia de maior valor agregado. Em 1995, duas estatais chinesas compraram a divisão de ímãs da General Motors em Indiana (EUA), numa operação aprovada pelo Comitê de Investimentos Estrangeiros americano, desde que empregos fossem preservados temporariamente. Poucos anos depois, as fábricas nos EUA foram fechadas, trabalhadores demitidos e o maquinário enviado para a China. Assim, a tecnologia crítica de produção de ímãs migrou para dentro das fronteiras chinesas.
Enquanto isso, o investimento estrangeiro nesse setor foi vetado na China, e o controle ficou restrito a empresas estatais. Esse arranjo assegurou que os ganhos tecnológicos permanecessem sob domínio nacional. Paralelamente, Pequim utilizou incentivos tributários e quotas de exportação para estrangular concorrentes. Quando países como os EUA e a Austrália tentaram reagir, a resposta chinesa foi aumentar a produção e reduzir preços, tornando a competição financeiramente inviável.
O passo seguinte foi blindar o conhecimento tecnológico. A China proibiu a transferência de tecnologia em estágios críticos, como o processamento avançado de terras-raras, consolidando uma liderança que hoje se traduz em vantagem competitiva e poder de barganha geopolítica.
Como observa a experiência chinesa, sem apoio decisivo do Estado, torna-se praticamente impossível competir contra um país que planejou por décadas e opera em escala massiva. O desafio para os EUA e outras economias ocidentais é monumental: recuperar espaço numa indústria em que a China já está consolidada na fronteira tecnológica e industrial.
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