No fim do século XVIII, quando os Estados Unidos ainda consolidavam sua independência, Alexander Hamilton — como secretário do Tesouro — foi o primeiro a propor que o Estado americano tivesse papel central na industrialização. Em seu Report on Manufactures (1791), ele defendia que a segurança e a prosperidade nacional exigiam o domínio da produção técnica e metalúrgica. Foi dessa visão que nasceram as primeiras oficinas e fábricas de armas federais, como Springfield e Harpers Ferry, marcos do que se tornaria o complexo industrial-militar dos Estados Unidos.
Essas armarias federais não foram apenas depósitos de armas, mas verdadeiros laboratórios de inovação. Com capital público, engenheiros e técnicos experimentaram novas formas de padronização e fabricação — como as peças intercambiáveis, fundamentais para a mecanização moderna. Contratos governamentais, como o de Eli Whitney no final do século XVIII, criaram as condições para a difusão dessas inovações. O resultado foi uma base tecnológica e produtiva que, mais tarde, alimentaria indústrias civis de ferramentas, máquinas e transporte. O Estado, portanto, criou o primeiro mercado e o primeiro ambiente de aprendizagem industrial dos EUA.
Ao longo dos séculos XIX e XX, essa lógica de investimento estatal orientado por missões se repetiu e se expandiu. Durante as guerras mundiais e a Guerra Fria, programas de defesa e energia financiaram pesquisas que desembocaram em tecnologias de uso dual — militar e civil — como a energia nuclear, os semicondutores, os satélites e a própria internet. A NASA e a DARPA são herdeiras diretas desse modelo hamiltoniano: instituições públicas que transformam desafios estratégicos em motores de inovação e desenvolvimento econômico.
O processo segue um padrão recorrente: o Estado cria a missão e o mercado; universidades e centros públicos desenvolvem o conhecimento; e, finalmente, o setor privado adapta e comercializa as tecnologias. Esse modelo gera ganhos de produtividade, segurança e soberania, mas também levanta dilemas sobre captura corporativa, retorno público e ética no uso civil de inovações militares. A questão central é como garantir que o investimento público em ciência e tecnologia se converta em valor público — e não apenas em lucro privado.
A “fábrica de armas de Hamilton” simboliza, assim, o embrião do capitalismo de Estado americano — um sistema em que o governo atua como empreendedor e inovador. A lição é clara: o desenvolvimento tecnológico raramente nasce do laissez-faire, mas da ação estratégica do Estado em criar capacidades, missões e mercados. A fronteira entre defesa e desenvolvimento, entre segurança e inovação, é o espaço onde as nações constroem sua verdadeira soberania econômica.

