A economista Elinor Ostrom, ganhadora do Prêmio Nobel de 2009, mostrou ao mundo que comunidades locais podem administrar seus próprios recursos — como florestas, rios e áreas de pesca — de forma sustentável, sem depender totalmente do Estado. Suas pesquisas comprovaram que, quando há confiança entre as pessoas, regras claras e fiscalização justa, é possível manter o equilíbrio entre o uso econômico e a preservação ambiental. Para ela, a confiança e a reciprocidade são os elementos que mantêm a coesão e a harmonia de uma sociedade.
Em vez de imaginar que apenas o governo pode organizar o uso dos bens coletivos, Ostrom defendeu que as próprias comunidades têm capacidade de criar sistemas de autogestão eficientes. Essa cooperação depende da clareza sobre quem pode usar o quê, da vigilância constante sobre o cumprimento das normas e da aplicação de punições justas a quem as desrespeita. Assim, as relações locais tornam-se baseadas na responsabilidade mútua e no respeito coletivo, e não apenas na autoridade externa.
Exemplos concretos dessas ideias podem ser encontrados nas comunidades extrativistas da Amazônia. Ali, famílias e grupos tradicionais conciliam a exploração econômica da floresta com sua conservação, criando regras próprias para garantir o uso equilibrado dos recursos. O sucesso desses arranjos depende da confiança entre os membros e da percepção de que todos estão comprometidos com o bem comum. Quando há reciprocidade, o equilíbrio se mantém e o desenvolvimento ocorre de forma sustentável.
No entanto, quando essa teia de confiança é rompida, surgem problemas de governança, disputas internas e a exploração excessiva dos bens naturais. Nesses casos, a lógica de cooperação defendida por Ostrom se desfaz, e o cenário descrito pelo filósofo inglês Thomas Hobbes em Leviatã (1651) parece se concretizar: “sem Estado, o homem é o lobo do homem”. Para Hobbes, os seres humanos, movidos pelo egoísmo e pelo medo, tenderiam inevitavelmente ao conflito se não existisse uma autoridade central que impusesse a ordem.
Segundo essa visão, apenas instituições fortes e legítimas seriam capazes de conter os impulsos destrutivos da natureza humana e garantir estabilidade social. O Estado, portanto, teria a função de arbitrar conflitos, proteger os mais vulneráveis e punir quem viola as regras do convívio coletivo. A ausência dessa estrutura levaria à anarquia e à opressão dos mais fracos pelos mais poderosos.
O grande desafio contemporâneo é equilibrar essas duas visões. De um lado, a proposta de Ostrom, que aposta na força da cooperação comunitária e na construção de confiança social. De outro, a advertência de Hobbes, que destaca a importância de instituições sólidas e justas para garantir a estabilidade e a paz. O futuro da governança dos bens comuns depende justamente dessa combinação: comunidades engajadas e solidárias, apoiadas por um Estado que fortaleça — e não substitua — a capacidade das pessoas de cuidar, juntas, do que é de todos.

