Na década de 1970, a Coreia do Sul vivia um período de intensa transformação econômica sob o comando do presidente Park Chung-hee, um general que liderou o país com mão firme após o golpe militar de 1961. Determinado a industrializar rapidamente a Coreia, Park identificou na indústria automotiva um setor estratégico para o desenvolvimento nacional. Para isso, decidiu enfrentar diretamente as montadoras estrangeiras que dominavam o mercado sul-coreano, impondo barreiras para forçar o crescimento das empresas locais.
Nesse contexto, a Hyundai, fundada por Chung Ju-yung, foi escolhida por Park como a principal candidata a se tornar a montadora nacional. Enquanto empresas japonesas e americanas tentavam ampliar sua presença no país, o governo Park impôs restrições severas à importação de peças e veículos, exigindo que as montadoras estrangeiras produzissem localmente — algo que poucas estavam dispostas a fazer. Ao mesmo tempo, ofereceu subsídios, crédito estatal e proteção de mercado à Hyundai, permitindo-lhe ganhar espaço num ambiente protegido.
Park também interveio diretamente nas decisões técnicas e estratégicas. Quando a Hyundai lançou seu primeiro carro nacional, o Hyundai Pony, em 1975, o governo facilitou acordos com engenheiros estrangeiros, especialmente da Mitsubishi, e encorajou o desenvolvimento de uma cadeia local de fornecedores. O objetivo não era apenas montar carros, mas criar uma indústria automotiva completa, incluindo design, engenharia e fabricação de componentes.
Durante esse período, Park enfrentou duras críticas internacionais por seu protecionismo e autoritarismo econômico. No entanto, sua política de substituição de importações teve resultados concretos: a Hyundai começou a exportar veículos já no final da década de 1970, algo impensável poucos anos antes. A postura agressiva de Park forçou a Coreia a deixar de ser um mercado dependente das multinacionais e transformou-a em uma potência produtora.
Hoje, os efeitos dessa estratégia são visíveis: a Hyundai é uma das maiores montadoras do mundo, e a Coreia do Sul possui uma das indústrias automotivas mais avançadas do planeta. A aposta ousada de Park Chung-hee nos anos 1970, ao enfrentar as gigantes estrangeiras e apostar em empresas nacionais, foi crucial para o sucesso industrial coreano — mesmo que à custa de políticas autoritárias e forte intervenção estatal.
Quando a Hyundai lançou seu primeiro carro totalmente nacional, o Hyundai Pony, em 1975, o evento marcou um divisor de águas na história da indústria automotiva sul-coreana. Até então, a Coreia do Sul dependia quase inteiramente de veículos importados ou montagens locais de modelos estrangeiros. O Pony foi o primeiro automóvel projetado, desenvolvido e fabricado majoritariamente com controle coreano, algo que só foi possível graças a uma combinação de ousadia empresarial e apoio estatal direto e estratégico.
O governo do presidente Park Chung-hee teve um papel central nesse processo. Convencido de que o país precisava de uma indústria automotiva independente para seu projeto de industrialização acelerada, Park intermediou acordos com empresas e engenheiros estrangeiros — principalmente da Mitsubishi Motors, do Japão — para apoiar o desenvolvimento técnico da Hyundai. A Mitsubishi forneceu motores, transmissões e assistência em engenharia, enquanto o design do Pony foi confiado ao renomado estilista italiano Giorgetto Giugiaro, criador de diversos modelos icônicos na Europa.
Ao mesmo tempo, o governo incentivou o crescimento de uma cadeia local de fornecedores. Isso envolveu financiamento estatal, isenções fiscais, garantias de compras e acesso preferencial ao mercado doméstico. Empresas sul-coreanas foram encorajadas a produzir componentes automotivos que antes eram totalmente importados, criando assim um ecossistema industrial que, além de apoiar a Hyundai, formou a base para futuras fabricantes como Kia e Daewoo. Esse modelo de “industrialização dirigida pelo Estado” foi essencial para construir rapidamente capacidades industriais complexas.
O lançamento do Pony, inicialmente disponível como hatchback e posteriormente em versões sedan e perua, foi um sucesso nacional e também abriu as portas para a primeira exportação de carros da Coreia do Sul, em 1976, para o Equador. Mais tarde, o modelo chegou a mercados como América do Sul, Europa e Canadá, estabelecendo a Hyundai como uma marca internacional.
Esse episódio ilustra como a colaboração entre governo e iniciativa privada — com proteção estratégica e transferência de conhecimento — pode gerar transformações estruturais profundas. O Hyundai Pony não foi apenas um carro: foi o símbolo de uma Coreia do Sul que deixava para trás o rótulo de país agrícola pobre e assumia seu lugar como potência industrial emergente.

