*escrito com Gustavo Pauro
Como uma empresa à beira da falência se tornou rival da Intel — e por que isso só foi possível com ajuda do governo americano
A narrativa oficial (e incompleta)
A história mais conhecida da AMD é a do renascimento heroico: a desafiante que enfrentou o gigante Intel, sobreviveu a crises quase fatais nos anos 2010 e renasceu sob a liderança de Lisa Su com os processadores Ryzen. Um clássico “David contra Golias” do Vale do Silício.
Mas há um detalhe raramente mencionado: a AMD só sobreviveu porque o Estado americano quis que ela sobrevivesse.
Não se trata de ideologia ou teoria conspiratória, mas de fatos documentados — decisões judiciais, regulações antitruste, políticas industriais e contratos públicos que impediram a Intel de monopolizar o mercado e garantiram a existência de uma concorrência real em semicondutores.
1969–1990: Nascimento sob proteção legal
Fundada em 1969 por Jerry Sanders, ex-Fairchild Semiconductor, a AMD começou produzindo cópias licenciadas e depois clones legais dos processadores Intel. Isso só foi possível porque a IBM exigia múltiplos fornecedores de cada componente crítico em seus PCs — política orientada pela lógica da segurança e continuidade de fornecimento.
Nos anos 1980, a Intel tentou restringir o uso de sua arquitetura x86. Seguiu-se uma batalha judicial de mais de dez anos. No fim, os tribunais americanos garantiram o direito da AMD de fabricar processadores compatíveis com a arquitetura x86, a espinha dorsal de toda a computação pessoal moderna.
Sem essa decisão, o mercado teria sido monopolizado pela Intel desde os anos 1990 — e o Vale do Silício seria um império de um só rei.
Anos 2000: O oxigênio invisível dos contratos públicos
Mesmo com inovações como o Athlon 64, primeiro chip x86 de 64 bits, a AMD enfrentava práticas predatórias. A Intel firmava contratos de exclusividade com Dell, HP e outras fabricantes, bloqueando o acesso da rival ao mercado.
A resposta veio do Estado. Em 2009, a Comissão Europeia multou a Intel em €1,06 bilhão por práticas anticompetitivas. A FTC dos EUA também abriu investigações, forçando a Intel a mudar sua conduta.
Ao mesmo tempo, a AMD passou a receber contratos estratégicos de supercomputação de laboratórios nacionais americanos (DOE, DoD). Essas parcerias financiaram P&D e consolidaram a empresa como fornecedora crítica de chips para sistemas como:
Frontier (Oak Ridge): supercomputador mais rápido do mundo em 2022, movido por chips AMD. El Capitan (Livermore): voltado para simulações nucleares e defesa.
Esses contratos não eram filantropia, mas política de segurança nacional: os EUA não podiam depender de uma única fornecedora de processadores.
2014–2017: A quase-morte e o resgate silencioso
A partir de 2011, a AMD mergulhou em crise. A arquitetura Bulldozer fracassou, a empresa perdeu market share e as ações despencaram. Parecia o fim.
Quando Lisa Su assumiu a presidência em 2014, o Estado americano continuou garantindo uma demanda mínima por meio de contratos públicos. Esse “oxigênio invisível” deu tempo para a empresa se reestruturar, desenvolver a nova arquitetura Zen e voltar ao jogo.
Em 2017, o lançamento do Ryzen marcou a virada: desempenho, eficiência e preço reposicionaram a AMD como rival legítima da Intel. O mercado voltou a ter competição real.
2022–hoje: CHIPS Act e o retorno do Estado empreendedor
O CHIPS and Science Act, aprovado em 2022, marcou o retorno explícito da política industrial americana. São US$ 52 bilhões em subsídios e incentivos à produção, P&D e capacitação doméstica em semicondutores.
Embora os grandes beneficiários diretos sejam fabricantes como Intel e TSMC, a AMD se beneficia indiretamente por meio de:
financiamento público de pesquisa em universidades; fortalecimento da infraestrutura de produção nos EUA; acesso prioritário à manufatura doméstica para aplicações críticas.
Hoje, a AMD vale mais de US$ 200 bilhões, fornece chips para PlayStation, Xbox, data centers e supercomputadores, e é tratada como ativo estratégico nacional — tanto quanto Intel ou Nvidia.
O mundo em torno: competição estatal global
China
Adota dirigismo explícito, investindo centenas de bilhões em empresas como a SMIC para alcançar autonomia tecnológica. Já produz chips de 7 nm, mas depende de equipamentos da holandesa ASML — alvo de sanções lideradas pelos EUA.
Europa
Possui a ASML, peça central da cadeia global, mas carece de campeões próprios em CPUs e GPUs. Seu foco está em chips industriais e automotivos, apoiados pelo EU Chips Act.
Taiwan
A TSMC fabrica 90% dos chips avançados do mundo. A vulnerabilidade geopolítica da ilha levou os EUA a subsidiar fábricas da empresa no Arizona, com investimento público superior a US$ 11 bilhões.
Brasil
Chegou a ter a estatal CEITEC, mas abandonou o projeto em 2020. Resultado: dependência total de importações e ausência de soberania tecnológica em um setor-chave para defesa, energia e comunicações.
Três mitos derrubados pela AMD
“O mercado livre resolve tudo.” Falso. Sem decisões judiciais e pressão antitruste, a Intel teria esmagado a AMD. “Empresas privadas inovam sozinhas.” Falso. As tecnologias fundamentais da AMD — compiladores, interconexões e arquitetura — nasceram em pesquisas públicas financiadas pela DARPA e por universidades. “Política industrial é coisa de país atrasado.” Outro mito. Os EUA sempre tiveram política industrial — apenas a chamam de “segurança nacional”. O jogo global é de mercantilismo high-tech.
Conclusão: soberania tecnológica é escolha de Estado
A trajetória da AMD mostra que não existe inovação sem Estado.
O que existe é política industrial inteligente — disfarçada, estratégica e seletiva.
Os chips são o petróleo do século XXI: quem controla sua produção controla a defesa, a inteligência artificial, a infraestrutura e a economia digital.
Nenhum país sério entrega esse poder ao “mercado”.
Os EUA não entregam.
A China não entrega.
A Europa não entrega.
E o Brasil?
Ainda discute se política industrial é comunismo ou capitalismo — enquanto o resto do mundo disputa o tabuleiro do xadrez tecnológico global.
Fontes
CHIPS and Science Act (2022) História corporativa da AMD Top500 Supercomputers EU Chips Act


Ainda discute. Podia ser melhor. Ainda ao menos. Será que consegue prosseguir ou vai assumir o Estado bananeira definitivo.