Desenvolvimento econômico, valor adicionado e a armadilha dos serviços tradicionais
Desenvolvimento econômico, em seu núcleo, consiste no aumento sustentado do valor adicionado per capita de uma economia. Isso significa que cada trabalhador ou habitante passa a gerar, em média, mais valor por meio de sua atividade produtiva. Esse aumento, por sua vez, está diretamente ligado à capacidade de inovar, incorporar tecnologia, aumentar a produtividade e participar de cadeias produtivas mais sofisticadas. Contudo, há um importante senão nessa equação: nem todo crescimento do valor adicionado per capita reflete um verdadeiro avanço produtivo.
Em países ricos, muitos serviços tradicionais e não transacionáveis — como cabeleireiros, garçons, professores de ensino básico ou cuidadores — apresentam elevação significativa de seus salários e preços ao longo do tempo. Isso gera a impressão de que o valor adicionado por essas atividades aumentou, inflando o PIB per capita. No entanto, esse fenômeno é explicado por dois efeitos bem conhecidos na economia: o efeito Balassa-Samuelson e o efeito Baumol. O primeiro mostra que, à medida que a produtividade cresce em setores transacionáveis (como indústria e serviços exportáveis), os salários aumentam em toda a economia, inclusive em setores de baixa produtividade. Já o segundo destaca que, em setores nos quais a produtividade cresce pouco ou nada, os salários sobem em função da concorrência com setores mais produtivos, o que encarece os serviços sem necessariamente aumentar sua eficiência.
Assim, em economias desenvolvidas, o cabeleireiro em Nova York pode ganhar dez vezes mais que um em Bogotá, mas isso não significa que sua produtividade seja dez vezes maior. O valor adicionado parece maior porque o salário é maior, mas não houve real transformação na natureza do serviço. Por isso, usar o crescimento do valor adicionado em serviços tradicionais como métrica de desenvolvimento pode ser enganoso.
O verdadeiro motor do desenvolvimento econômico é o aumento do valor adicionado em setores capazes de gerar economias de escala, aprendizado e inovação. A manufatura e os serviços complexos e transacionáveis (como software, engenharia, design industrial, logística integrada e serviços financeiros sofisticados) são os pilares dessa transformação. São nesses setores que a produtividade cresce de forma sustentada, permitindo aumentos reais de renda. É por isso que países que enriqueceram — como Alemanha, Coreia do Sul ou China recente — o fizeram fortalecendo sua base industrial e tecnológica, e não pela expansão de serviços tradicionais. O desafio do desenvolvimento está, portanto, em construir uma estrutura produtiva que eleve de fato o valor que cada cidadão é capaz de gerar, indo além das ilusões estatísticas dos efeitos de preços relativos.

