- Introdução: Uma História Mais Complexa do que Parece
A narrativa dominante sobre a indústria brasileira é sombria e bem conhecida: há décadas, o setor perde relevância, empregos e dinamismo. Um único dado resume a preocupação: a participação da manufatura no emprego total do país despencou de 27,7% em 1986 para apenas 15,1% em 2022. O mesmo colapso se reflete no Produto Interno Bruto (PIB), onde a participação da manufatura caiu de 27,3% para 14,4% no mesmo período. Olhando para esses números, a conclusão parece óbvia: um colapso geral.
Contudo, essa história de declínio uniforme é uma simplificação perigosa. Um novo e aprofundado estudo dos economistas Paulo Morceiro, Milene Tessarin e André Nassif, intitulado “Nem toda desindustrialização é igual”, mergulha nos dados setoriais e revela que a realidade é muito mais complexa. O estudo mostra que diferentes partes da indústria viveram dramas completamente distintos, com diagnósticos e prognósticos radicalmente opostos.
Neste artigo, vamos apresentar os quatro achados mais surpreendentes e impactantes desse estudo. Essas revelações não apenas desafiam o senso comum, mas também mudam a forma como devemos pensar sobre o futuro da política industrial no Brasil.
- Revelação 1: Nem toda desindustrialização do Brasil foi “prematura”
Para entender o primeiro ponto, é preciso conhecer dois conceitos. A desindustrialização “normal” é aquela que acontece em países ricos como parte natural de seu amadurecimento, quando a economia se volta para serviços sofisticados. Já a desindustrialização “prematura” atinge países em desenvolvimento antes da hora, travando seu crescimento e condenando-os a uma economia de serviços de baixa produtividade.
A grande surpresa do estudo é que, embora o Brasil como um todo tenha sofrido uma desindustrialização prematura, isso não se aplica a todos os setores. A análise mostra que alguns segmentos seguiram um padrão “normal”, pois o Brasil iniciou o encolhimento nesses segmentos após atingir o nível de renda per capita que o padrão histórico internacional aponta como o pico de maturidade para eles.
Segundo o estudo, os setores que se desindustrializaram de forma “normal” foram:
- Alimentos e bebidas
- Têxtil e vestuário
- Madeira e móveis
Isso é importante porque significa que parte do encolhimento da indústria não foi um sinal de fracasso, mas um processo esperado e alinhado ao nosso nível de desenvolvimento nesses segmentos específicos.
- Revelação 2: A verdadeira tragédia está nos setores de alta tecnologia
Se os setores tradicionais seguiram um caminho esperado, o mesmo não pode ser dito sobre a indústria mais sofisticada. Aqui, o estudo revela o outro lado da moeda: todos os setores de média-alta e alta tecnologia se desindustrializaram de forma extremamente prematura. A gravidade desse processo é chocante.
Os dados mais impactantes mostram que:
- O setor de veículos e equipamentos de transporte começou a encolher quando o Brasil tinha apenas um terço da renda per capita que seria esperada para o início desse processo em um país típico.
- Os casos mais agudos foram os de maquinaria (mecânico e elétrico) e de informática e eletrônicos, que iniciaram seu declínio quando o país tinha apenas cerca de um quinto da renda esperada.
A perda nesses setores é muito mais danosa do que a retração nos segmentos tradicionais. Como destacam os autores do estudo:
…é preocupante a desindustrialização extremamente prematura dos setores de maior intensidade tecnológica, não apenas porque são eles que asseguram maiores remunerações, mas também porque, por serem geradores e difusores de progresso técnico, comandam o processo de desenvolvimento econômico no longo prazo.
Em outras palavras, o verdadeiro dano ao futuro do Brasil — em termos de inovação, empregos de qualidade e potencial de crescimento — está concentrado na perda precoce dos setores que deveriam ser nosso motor de desenvolvimento.
- Revelação 3: Os setores que mais encolheram não são os mesmos onde o declínio foi mais “grave”
Outra revelação contraintuitiva surge quando se analisa de onde veio a maior parte da perda de empregos industriais. O olhar agregado novamente engana, escondendo a diferença crucial entre a quantidade da perda e a qualidade dela.
Os dados do estudo são claros: cerca de 70% da queda na participação do emprego industrial no Brasil veio dos setores de baixa e média-baixa tecnologia. Apenas dois setores, têxtil e vestuário e metalurgia, foram responsáveis, juntos, por mais de um terço de toda a desindustrialização medida em termos de participação no emprego.
No entanto, como vimos na revelação anterior, embora esses setores de baixa tecnologia tenham encolhido mais em volume, o encolhimento mais prejudicial e prematuro ocorreu nos setores de alta tecnologia. A grande ironia, portanto, é que a maior parte quantitativa da desindustrialização (cerca de 70% dos empregos perdidos) veio de setores de baixa tecnologia, onde o encolhimento era, em grande parte, um processo esperado e normal. Em contraste, o dano mais qualitativo e grave para o futuro do Brasil veio do encolhimento dos setores de alta tecnologia — menor em volume, mas catastroficamente prematuro em sua natureza.
- Revelação 4: Políticas industriais de “tamanho único” estão fadadas ao fracasso
A conclusão lógica de todas essas revelações é um recado direto para os formuladores de políticas públicas. Se a “doença” da desindustrialização tem causas, sintomas e gravidades tão diferentes em cada setor, não faz sentido tratá-la com um “remédio único”.
Políticas industriais que trataram todos os setores como iguais, como o Programa para a Sustentação do Investimento (PSI/BNDES) e a desoneração da folha de pagamentos, que, adotados após 2008, diluíram seus impactos ao beneficiar indiscriminadamente desde um setor têxtil em declínio “normal” até um setor de eletrônicos em declínio “prematuro”. O resultado é o desperdício de recursos e a ineficácia estratégica.
A recomendação do estudo é que as políticas sejam específicas e focadas. Para os setores de alta tecnologia que sofrem um declínio prematuro, por exemplo, o foco não deve ser apenas em medidas de custo, como câmbio e tarifas. O caminho mais promissor é investir em inovação, ciência e tecnologia, fortalecendo o ecossistema que sustenta esses segmentos. Um diagnóstico setorial preciso, como o realizado pelo estudo, é o primeiro e indispensável passo para criar políticas industriais que tenham alguma chance de sucesso.
- Conclusão: Um Novo Olhar para um Velho Problema
A análise setorial detalhada mostra que a história da desindustrialização brasileira é muito mais heterogênea e complexa do que o debate público geralmente assume. Não houve um colapso uniforme, but sim processos distintos, alguns esperados e outros tragicamente precoces.
Para deixar a ideia final mais poderosa, o estudo usa uma analogia marcante: a desindustrialização nos setores de alta tecnologia ocorreu tão cedo que foi como um “parto” que aconteceu com apenas 20% a 40% do tempo de gestação, um evento que, na prática, “bloqueou o desenvolvimento do país”.
Isso nos deixa com uma pergunta fundamental: se o diagnóstico da nossa indústria é tão específico e desigual, por que continuamos a tratá-la com soluções genéricas? O que o Brasil perde ao ignorar a história que os diferentes setores da indústria estão nos contando?
Trabalho aqui:

