A Indústria ‘Robin Hood’ do Brasil: Como a Boa Intenção de Desconcentrar Pode Ter Prejudicado a Economia

  1. Introdução: Uma Surpresa no Coração da Indústria Brasileira

A ideia de que espalhar a indústria pelo vasto território brasileiro é uma estratégia positiva para diminuir a desigualdade regional é quase um consenso. Afinal, levar empregos e desenvolvimento para além do eixo Rio-São Paulo parece uma meta nobre e necessária. No entanto, um novo estudo sobre as últimas quatro décadas revela um lado surpreendente e problemático desse processo. Isso aconteceu em um contexto desafiador: uma desindustrialização prematura mais ampla que já estava enfraquecendo o motor econômico do país. O que parecia ser um movimento virtuoso de distribuição de riqueza pode ter, na verdade, enfraquecido a competitividade do país. O conceito central dessa descoberta é a “Desconcentração Robin Hood”, um fenômeno que merece ser compreendido em detalhes.

  1. O Efeito “Robin Hood”: Tirando dos Ricos para Dar… Migalhas aos Pobres

O estudo cunhou o termo “Desconcentração Robin Hood” para descrever uma dinâmica paradoxal. A metáfora é simples: pouquíssimas cidades industriais, grandes e consolidadas, perderam fatias enormes do mercado. Em contrapartida, os ganhos foram distribuídos de forma totalmente “pulverizada” entre milhares de municípios menores, que receberam apenas migalhas.

Os números são impressionantes: enquanto 755 cidades perderam participação no emprego industrial nacional (com as perdas altamente concentradas no topo), outras 4.815 cidades ganharam. O problema é que esses ganhos foram tão atomizados que nenhuma cidade conseguiu, individualmente, ganhar sequer 0,5 ponto percentual de participação no mercado. Para colocar isso em perspectiva, 77% de toda a participação de mercado redistribuída foi para 4.761 cidades que ganharam, cada uma, menos de 0,1 p.p. — o equivalente a meros 8.000 empregos industriais em 2022. Isso não foi construção de nação; foi uma névoa fina de presença industrial. O resultado é um paradoxo: a distribuição não foi capaz de criar novos polos industriais relevantes para substituir aqueles que foram enfraquecidos. Como o próprio estudo conclui:

O processo resultou mais na destruição de bases industriais consolidadas do que na criação de novos polos regionais relevantes.

  1. O Colapso dos Gigantes: O Encolhimento Drástico de São Paulo e Rio de Janeiro

Para entender a escala do fenômeno, basta olhar para os antigos motores da indústria brasileira. Em 1985, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentravam, juntos, 57,8% de todo o emprego industrial do Brasil. Em 2022, essa participação despencou para 36,4%, uma perda colossal de 21,4 pontos percentuais.

Não foi apenas um declínio relativo. Entre 1985 e 2022, a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) eliminou mais de 650.000 empregos industriais, enquanto a Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) perdeu quase 187.000. O epicentro desse encolhimento foram as regiões metropolitanas, com a RMSP, sozinha, perdendo 18,32 pontos percentuais de participação no emprego industrial do país. O declínio foi tão severo que a RMRJ, antes o segundo maior polo industrial do país, caiu para a quinta posição, ultrapassada pelas regiões metropolitanas de Campinas, Porto Alegre e Belo Horizonte. O enfraquecimento desses polos, que eram a locomotiva da economia, tem consequências diretas para a competitividade e o crescimento de todo o Brasil.

  1. A Surpresa Tecnológica: A Fuga Não Foi Apenas das Indústrias “Básicas”

Poderíamos imaginar que apenas indústrias de baixa tecnologia, como têxtil e calçados, migraram em busca de mão de obra mais barata. A realidade, no entanto, é bem mais preocupante. A pesquisa revela uma descoberta contraintuitiva: a desconcentração foi ainda mais intensa nos setores de maior intensidade tecnológica.

Os dados comprovam: em 1985, São Paulo e Rio de Janeiro detinham 75,1% dos empregos em setores de alta e média-alta tecnologia (como veículos, máquinas e equipamentos, e eletrônicos). Em 2022, essa fatia caiu drasticamente para 47,6%. Essa diluição de clusters de alta tecnologia é particularmente prejudicial, pois enfraquece os próprios “sistemas regionais de inovação” — os ecossistemas regionais de inovação — que são essenciais para promover a difusão de conhecimento e o avanço tecnológico.

  1. O Paradoxo Final: Menos Desigual, Mas Menos Competitivo?

Aqui reside o paradoxo central do fenômeno “Robin Hood”: embora o objetivo político de reduzir a desigualdade interestadual tenha sido tecnicamente alcançado, o método dessa redistribuição — a pulverização extrema — pode ter paralisado a competitividade industrial geral do país. A forma como isso aconteceu gerou uma série de consequências negativas para a economia como um todo. Entre os principais problemas estão:

  • Perda de economias de escala e aglomeração, que acontece quando empresas e talentos se concentram, reduzindo custos e aumentando a produtividade.
  • Enfraquecimento dos sistemas regionais de inovação, pois a dispersão geográfica dificulta a troca de conhecimento e a colaboração.
  • Perda de eficiência logística e aumento de custos de infraestrutura, já que é mais caro e complexo manter uma rede industrial fragmentada.

Além do impacto econômico, o declínio dos antigos centros industriais gera um fenômeno social e político real. Esse cenário de abandono tem alimentado “um ressentimento político contribuindo para discursos separatistas e abalando a coesão nacional, como visto na polarização eleitoral recente entre Nordeste e Sul.”

  1. Conclusão: E Agora, Brasil?

A “Desconcentração Robin Hood” revela um Brasil que, na tentativa de se tornar mais justo regionalmente, pode ter se tornado industrialmente menos forte. Esse processo ocorreu em meio a uma desindustrialização prematura que já minava a força do setor. O resultado é um país com uma indústria mais espalhada, mas potencialmente menos produtiva e inovadora. O enfraquecimento de polos consolidados não foi compensado pela criação de novos centros com força equivalente. Diante desse cenário, a pergunta que fica é inevitável: como o Brasil pode redesenhar suas políticas industriais para promover o desenvolvimento regional sem sacrificar a competitividade que nasce da escala e da concentração de talentos?

2 thoughts on “A Indústria ‘Robin Hood’ do Brasil: Como a Boa Intenção de Desconcentrar Pode Ter Prejudicado a Economia”

  1. Paulo Gala,
    Posso estar enganado, mas creio que deve-se trabalhar com dois aspectos distintos e importantes.
    Na verdade são três se colocarmos primeiro a questão chinesa. Embora eu torça para que a China continue adotando o modelo de crescimento que enfatiza a infraestrutura e a industrialização em detrimento do mercado interno (embora meu ponto de vista de leigo seja o oposto do economista Michael Pettis que há mais de vinte anos recomenda que a China se volte para o mercado interno), a produção de baixo custo da China prejudica a industrialização de países como o Brasil. A vantagem é que a China para crescer bem, puxada pelo mercado externo precisa que países pobres como o Brasil cresçam a taxas maiores do que a China. E então para comprar da China é de interesse da China que ela invista no Brasil em infraestrutura e depois até mesmo na industrialização para que o Brasil possa importar cada vez mais da China.
    Em relação aos dois aspectos, o primeiro é em relação a distribuição de receita que favorece aos pequenos municípios. É um favorecimento tão grande que eu tenho argumentado (desde a década de 90 em que se criticou a criação de 33 municípios em Minas Gerais em 1992 e de 97 em 1997, passando o Estado de Minas Gerais de 823 municípios, para 953) que quantos mais distritos de um município se torne município mais recursos a mesma área do município anterior vai receber (Um município de 50 mil habitantes recebe X, se surgirem uns cinco municípios de 5 mil habitantes e o de 50 tornar-se um de 25 mil, talvez a mesma área venha receber 2X ou até mais de recursos de distribuição obrigatória tanto da União como do Estado). Aliás, parece que há um estudo sobre isso. Eu li que estava sendo feito, não sei se pesquisa no Brasil ou no exterior. Algo em que se queria avaliar a alavancagem dos gastos públicos.
    O segundo aspecto é que a descentralização incentivada não foi para pequenas cidades. Parte da Fiat saiu de Minas (Região metropolitana de Belo Horizonte) e foi para Pernambuco (provavelmente para a região metropolitana de Recife).
    O que ocorreu nos pequenos municípios e isso até em razão das verbas de repasse obrigatório do governo federal e do governo estadual foi o surgimento de pequenas indústrias que se viabilizam somente nos pequenos municípios. É indústria em decorrência do crescimento da produção agrícola e também pecuária ao longo de muitos municípios. Sem levar em conta a expansão agrícola no centrooeste, Minas Gerais que possuía o maior rebanho bovino hoje parece-me que é o quarto. E como exemplos de pequenas indústrias que se viabilizam somente nos pequenos municípios nós temos, a produção de telhas e tijolos, a produção de queijo, a produção de café, etc.
    Mencionando exclusivamente a região de Pedra Azul no Nordeste de Minas, localizada a 365 Km de Montes Claros, 255 Km de Teófilo Otoni, 170 km de Vitória da Conquista – BA, a 95 de Almenara e a 70 de Jequitinhonha , A Região de Vitoria da Conquista na Bahia é uma planalto (que nós chamamos chapadão por ser alto e plano) em torno de 1000 metros de fácil mecanização e lá uma produção que aumentou foi a de café. Nas cidades pequenas ao redor, chegando até Minas Gerais, há pequenas produções de café torrado e moído e ensacado.
    Uma vez estava interessado em comprar melaço em pó. Ai fiquei sabendo que havia um produtor em cidade próxima que foi desmembrada ou em 1992 ou 1996 do município de Almenara. Conversando com ele, já durante a pandemia, ele disse que parou a produção que era vendida para uma fábrica de granola em Vitória da Conquista.
    Também para a produção de ração para bovinos pequenas fabricas que atendem a região (De Pedra Azul MG) existem na região. E enquanto um produto vindo de São Paulo custa 150 outro da região custa 130,00)
    Agora não tenho dúvidas que a descentralização industrial é menos eficiente do que a produção industrial das grandes concentrações. Ocorre que o capitalismo deixado à solta leva a concentração absoluta que o inviabiliza. Então a descentralização é mais custosa mas vale a pena.

  2. Paulo Gala,
    Eu fiz um comentário junto ao post há mais tempo.
    Ele ficou um pouco grande. E ao meu modo um pouco confuso, mas trazia muitas informações que apesar de feitas por leigo eram úteis para compreender um pouco o dilema de crescer dividindo o bolo ou deixar o bolo crescer para quando estivermos todos mortos dividir.
    O cerne do meu argumento é que uma economia deixada a solta cresce mais do que uma economia mais controlada buscando garantir mais igualdade distributiva nos frutos do crescimento. Agora deixada a solta a economia é concentradora e no limite a concentração absoluta inviabiliza o sistema capitalista.
    Abraços,
    Clever

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