A inflação não voltará ao Brasil!

Os juros longos subiram, a moeda brasileira se depreciou e a bolsa caiu por conta de temores fiscais em Setembro (em qual período?). O movimento foi exagerado. A âncora da inflação no Brasil está no mercado de trabalho depauperado e nas reservas cambiais. O déficit público primário indo a quase R$ 1 trilhão neste ano não é novidade. Gastamos em um ano praticamente o equivalente à economia de uma reforma da Previdência de uma década. Isso não fez a inflação disparar, o IPCA deve fechar 2020 na casa dos 3%. A aceleração recente dos índices de preço por atacado, com destaques para IGPs e INCC, se deve a uma combinação de desvalorização cambial no Brasil e no mundo emergente com a alta de preços no mercado mundial de commodities. Parte da desvalorização cambial se deve ao movimento de aversão ao risco global, parte a temores fiscais no Brasil. A arroba do boi, a soja, o minério de ferro e tantas outras commodities estão perto de máximas graças, principalmente, à demanda firme da China. A correta coordenação econômica do governo chinês usando regulação e instrumentos de mercado tornou o país o destaque mundial na reposta à Covid-19. A China caminha a passos largos para se tornar a maior e mais relevante economia do mundo e as commodities brasileiras se beneficiam novamente de outra onda de crescimento do país.

A inflação não voltará com força no Brasil, pois a crise no mercado de trabalho dificulta os repasses de preços do atacado ao varejo. Apesar do salto dos IGPs, devemos ver nos próximos meses um arrefecimento. A forte alta de preços já disparou gatilhos de produção que estavam enferrujados. A oferta responderá à alta de demanda e os preços de commodities e insumos da construção civil devem parar de subir já nos próximos meses. Esse mecanismo está em operação tanto no mercado mundial quanto no doméstico. No front cambial, o BC tem muita munição que não está utilizando. O grande boom de preços de commodities trará mais dólares ao país, tanto neste ano quanto no próximo. A moeda brasileira tem uma das piores performances do mundo, tornando todos os preços brasileiros baratos: ativos financeiros, bens e serviços. A trajetória mais provável para esse final de ano é de arrefecimento da pressão inflacionária e volta da Bolsa, câmbio e juros longos para os patamares anteriores. Nesse cenário, o Comitê de Política Monetária deve seguir com taxa Selic na casa dos 2%. Os salários reais seguem deprimidos, o nível da produção industrial em mínimas históricas em termos de volumes, próxima ao patamar de 2007, o consumo e investimento agregados estão ainda muito deprimidos. A inflação irá convergir para a meta de 3,5% uma vez que hoje existe brutal capacidade ociosa na indústria, no setor imobiliário, no varejo em geral e no mercado de trabalho.

1 thought on “A inflação não voltará ao Brasil!”

  1. Show de bola! Obrigado! É muito bom contar com uma opinião confiável em meio a tanto terrorismo economico que se vê nos jornais mainstream…

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