A influência de Dostoiévski nas ideias de Sigmund Freud é bastante profunda, especialmente no que diz respeito à compreensão das complexidades da psique humana, do crime e da culpa. Freud admirava Dostoiévski por sua exploração das profundezas da mente humana e do sofrimento psicológico. Em seu ensaio “Dostoiévski e o parricídio” (1928), Freud vê em personagens como Raskólnikov (de Crime e Castigo) e o próprio Dostoiévski uma luta intensa entre desejos reprimidos, culpa e moralidade. Freud acreditava que Dostoiévski tinha uma compreensão instintiva das forças inconscientes que moldam o comportamento humano, e que suas obras tratavam de questões fundamentais para a psicanálise, como o complexo de Édipo, o parricídio (assassinato do pai), e a neurose. Dostoiévski, por exemplo, em Os Irmãos Karamazov, explora de forma intensa a dinâmica familiar, o conflito de gerações, e a figura do pai, elementos que ressoam diretamente com a teoria freudiana sobre o papel do pai na formação do ego e das tensões psíquicas. A luta moral e psicológica que os personagens de Dostoiévski enfrentam, especialmente com sentimentos de culpa e desejo de punição, reflete o conceito freudiano de superego, onde os impulsos inconscientes são confrontados pela moralidade interna. Freud via o próprio sofrimento epiléptico de Dostoiévski como uma expressão física dos conflitos internos reprimidos, possivelmente ligados à culpa inconsciente em relação à morte de seu pai, um tema central para Freud. Assim, podemos dizer que Dostoiévski influenciou Freud ao proporcionar exemplos literários vivos e profundos de processos psíquicos que a psicanálise se propôs a estudar, como a culpa, o desejo reprimido e a violência interna, especialmente no contexto familiar e em relação à autoridade.
Memórias do Subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski, é uma obra profundamente psicológica que antecipa muitas das ideias exploradas por Freud. O protagonista, conhecido como “Homem do Subsolo”, é um narrador introspectivo e atormentado, cuja confissão revela uma luta constante entre seu desejo de autoafirmação e sua inclinação à autodestruição, marcada por sentimentos de culpa, vergonha e inadequação. Sob uma perspectiva freudiana, o “Homem do Subsolo” exemplifica os conflitos entre o id (impulsos instintivos e desejos), o ego (a consciência de si e das limitações impostas pela realidade), e o superego (as normas morais internalizadas que geram culpa e arrependimento). O narrador é dominado por desejos inconscientes que ele não consegue satisfazer, o que o leva a uma vida de reclusão, amargura e ressentimento. Sua racionalização dos fracassos e sua auto-humilhação podem ser vistas como uma defesa psíquica contra seus impulsos reprimidos e a incapacidade de confrontá-los diretamente. Além disso, o tema do masoquismo moral abordado por Freud é central na obra. O narrador busca prazer no sofrimento e na humilhação, acreditando que sua dor o diferencia dos outros e lhe confere um senso de superioridade moral. Esse comportamento pode ser entendido como uma manifestação da neurose, onde o sofrimento psicológico é uma forma de punição autoinfligida para lidar com a culpa reprimida. Freud também pode interpretar o comportamento do “Homem do Subsolo” como uma ilustração do comprazer-se na fraqueza. O personagem exibe um desejo de se sentir subjugado pela sociedade, oscilando entre impulsos de se afirmar contra o mundo e a busca de autoaniquilação. Essa luta entre os impulsos de vida (Eros) e os impulsos de morte (Thanatos) é uma tensão fundamental que Dostoiévski explora no personagem, e que Freud consideraria central na constituição da neurose e da patologia psíquica. Assim, “Memórias do Subsolo” serve como uma antecipação literária de muitos dos conceitos freudianos, oferecendo um retrato vívido de um indivíduo em luta com seus desejos inconscientes, a repressão e o peso da culpa, temas que Freud viria a explorar profundamente na psicanálise.


Excelente reflexão sobre a influência (e a convergência) das abordagens destes dois grandes intelectuais.