A Lei de Terras de 1850 e as duas portas de entrada na economia brasileira (colonos no sul e escravos no nordeste)

Em 1850 o Brasil aprovou duas leis que costumam aparecer em capítulos separados dos livros escolares, mas que só fazem sentido juntas. A Lei Eusébio de Queirós reprimiu o tráfico transatlântico de escravizados. A Lei de Terras mudou a forma de acesso à terra pública. Uma fechou a torneira da mão de obra cativa, a outra organizou quem poderia virar proprietário. A coincidência de datas não é coincidência.

O que a lei fez

Antes de 1850, a ocupação de terras públicas era um emaranhado de sesmarias antigas, posses informais e áreas sem delimitação clara. Alguém ocupava, cultivava e depois tentava legitimar. A Lei de Terras restringiu esse mecanismo: as terras devolutas passariam a ser alienadas principalmente por venda. Aparentemente até a terra precisava de burocracia imperial.

A lógica econômica é direta. Se terra fosse abundante e acessível pela simples ocupação, o trabalhador livre poderia preferir produzir por conta própria a se empregar numa grande fazenda. Imagine um imigrante chegando ao interior paulista em 1880. Com 20 ou 30 hectares ocupáveis, ele trabalha para si. Sem capital para comprar terra, ele vai para o cafezal. A lei criava uma barreira de entrada à propriedade e, com isso, ampliava a oferta de trabalhadores para o café.

A lei também prometia regularizar posses anteriores e estabelecer procedimentos de medição e registro. Na prática, medir, documentar e defender terra exigia dinheiro, advogado e influência política. O resultado foi reforço da concentração fundiária. A Lei de Terras não inventou o latifúndio brasileiro, que já vinha das sesmarias coloniais, mas institucionalizou um regime em que propriedade dependia de patrimônio prévio.

Só que o Sul funcionou diferente

Aqui a história fica mais interessante do que a versão simplificada de “depois de 1850 toda terra tinha de ser comprada”.

A própria lei abria, no artigo 1º, exceção para uma faixa de dez léguas nas fronteiras internacionais, onde cabiam concessões gratuitas. E os artigos 17 a 21 criaram mecanismos explícitos de promoção da imigração e da colonização, inclusive autorizando o governo a trazer colonos livres com recursos públicos e a destinar receitas da venda de terras ao financiamento dessa imigração.

O projeto de colonização do Sul tinha objetivos que iam muito além de arranjar trabalhadores para grandes fazendas. O Estado queria ocupar territórios pouco povoados, consolidar fronteiras, aumentar a produção de alimentos, criar núcleos populacionais e formar pequenas propriedades agrícolas. Isso explica por que emergiu ali uma estrutura fundiária bastante distinta da paulista.

No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, muitas colônias foram organizadas em torno de pequenos lotes familiares, frequentemente de algumas dezenas de hectares. Estudo publicado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário mostra que a colonização europeia foi deliberadamente associada à pequena propriedade trabalhada pela família, em contraste com a grande propriedade escravista, tomando lotes de cerca de 25 hectares como referência.

Os casos são conhecidos. Em 1824, antes mesmo da Lei de Terras, D. Pedro I promoveu a instalação de imigrantes alemães em São Leopoldo, com concessão de lotes e benefícios aos colonos. Em 1850, Hermann Blumenau recebeu do governo provincial uma área de duas léguas para organizar uma colônia agrícola. Em Dona Francisca, origem de Joinville, houve parceria com a Sociedade Colonizadora de Hamburgo, com ocupação distribuída em pequenos lotes.

Um documento de 1873 da direção da Colônia Dona Francisca afirmava que era essencial entregar rapidamente aos recém-chegados um terreno adequado à agricultura e, ao mesmo tempo, oferecer-lhes emprego em obras públicas enquanto a propriedade ainda não gerasse renda. É quase um programa moderno de assentamento: terra, imigração, infraestrutura e emprego temporário.

Mas era tudo de graça?

Não. Essa distinção importa. Houve concessões gratuitas, sobretudo em certos períodos e em regiões de fronteira, mas houve também terras vendidas a preço baixo, lotes financiados em condições muito favoráveis, terras entregues por companhias colonizadoras, subsídio à viagem, ajuda de instalação, emprego em obras públicas e infraestrutura fornecida pelo governo. Depois de 1850 a legislação formalmente privilegiou a venda, inclusive para colonização, e o próprio IPHAN descreve as terras devolutas como áreas que o governo podia vender diretamente aos imigrantes ou transferir a empresas colonizadoras.

A formulação mais precisa é esta: o Estado subsidiou fortemente o acesso dos imigrantes à pequena propriedade. Não distribuiu gratuitamente toda a terra do Sul, mas construiu um caminho institucional para que o europeu recém-chegado virasse proprietário.

Duas trajetórias simultâneas

Às vésperas da abolição, o país operava dois trilhos ao mesmo tempo.

Imigrante europeu no Sul: Estado, colonização, lote rural, infraestrutura, pequena propriedade familiar.

Ex-escravizado: abolição, liberdade jurídica, praticamente nenhuma política ampla de acesso à terra.

A diferença institucional é gigantesca, e ela ajuda a explicar por que o fim da escravidão não significou autonomia econômica para os libertos. A estrutura fundiária já estava organizada em torno da propriedade privada e da compra quando 1888 chegou.

Por que isso aparece no mapa industrial até hoje

No Sul surgiram centenas de núcleos formados por pequenos e médios proprietários familiares. Ao longo das gerações, parte deles desenvolveu comércio, artesanato e pequenas manufaturas. A trajetória típica vai de agricultura familiar para oficina, de oficina para pequena indústria, de pequena indústria para cluster e daí para empresa exportadora.

Joinville, Blumenau, Brusque e Caxias do Sul acabaram construindo ecossistemas industriais extremamente densos. Não porque o alemão ou o italiano carregasse algum gene inclinado a fabricar motores, tecidos e máquinas, apesar das explicações folclóricas que às vezes aparecem em jantares. O que havia era uma estrutura social e fundiária diferente, que distribuía renda, mercado interno local, poupança e capacidade de assumir risco produtivo entre muita gente em vez de concentrá-los em poucas mãos.

Capacidades produtivas se acumulam onde há muitos agentes pequenos tentando coisas ao mesmo tempo. Uma região de pequenos proprietários gera mais dessas tentativas do que uma região de grandes propriedades monocultoras. O resultado aparece na complexidade econômica dessas regiões um século depois.

O ponto final

A Lei de Terras de 1850 e a política de colonização não eram contraditórias. Faziam parte de uma reorganização ampla do território e do trabalho. O Estado restringiu a ocupação espontânea das terras devolutas e, ao mesmo tempo, reservou para si a capacidade de organizar deliberadamente a colonização e direcionar imigrantes para onde lhe interessava.

Em uma frase: a Lei de Terras transformou o acesso à terra pública de algo baseado na ocupação em algo baseado na compra, no exato momento em que o Brasil começava a substituir trabalho escravo por trabalho livre. Quem teve o Estado organizando sua entrada nesse novo regime construiu clusters industriais. Quem recebeu apenas a liberdade jurídica em 1888 começou sem ativo nenhum. Essa assimetria está entre as raízes mais persistentes da desigualdade regional e racial brasileira.


O Paraná surgiu como uma região de fronteira da antiga Capitania de São Vicente e, depois, da Província de São Paulo, ganhando autonomia apenas em 1853. A história é interessante porque o estado foi sendo construído por várias economias e ondas populacionais diferentes. Não nasceu exatamente pronto, com fronteiras arrumadinhas e uma placa escrito “Paraná”, como os mapas escolares gentilmente fingem.

Antes da colonização portuguesa, a região era ocupada principalmente por povos indígenas, entre eles Guarani, Kaingang e Xokleng. No século XVI, espanhóis também chegaram à área oeste, pois boa parte do atual Paraná estava, pelo Tratado de Tordesilhas, dentro da zona espanhola. Os jesuítas espanhóis chegaram a estabelecer diversas reduções no território do Guairá, no oeste e norte do atual estado. No século XVII, bandeirantes paulistas atacaram essas missões, escravizaram indígenas e contribuíram para a retirada da presença espanhola.

A ocupação portuguesa mais permanente começou pelo litoral, especialmente em Paranaguá, impulsionada pela procura de ouro no século XVII. Paranaguá tornou-se vila em 1648. Pouco depois, a ocupação avançou para o planalto de Curitiba, que se tornou vila em 1693. O ouro paranaense nunca se transformou em algo comparável ao que aconteceria depois em Minas Gerais, mas ajudou a criar os primeiros núcleos coloniais.

No século XVIII, apareceu um elemento decisivo: o tropeirismo. Tropas de mulas e gado vinham do Rio Grande do Sul em direção a São Paulo e Minas Gerais, atravessando o território paranaense pelo chamado Caminho de Viamão. Ao longo dessas rotas nasceram ou cresceram cidades como Lapa, Ponta Grossa e Castro. O Paraná começou assim a funcionar como uma espécie de corredor econômico entre o Sul e o centro do Brasil.

Politicamente, porém, a região continuava subordinada a São Paulo. No século XIX, a economia local ganhou importância com a produção e exportação de erva-mate, madeira e criação de gado. As elites paranaenses passaram então a defender a separação administrativa de São Paulo. Reclamavam da distância do governo provincial e da pequena influência que tinham nas decisões tomadas na capital paulista.

A separação finalmente ocorreu durante o Império. Em 29 de agosto de 1853, o imperador Dom Pedro II sancionou a Lei nº 704, criando a Província do Paraná a partir da porção sul da Província de São Paulo. A instalação oficial aconteceu em 19 de dezembro de 1853, quando Zacarias de Góes e Vasconcelos, primeiro presidente da nova província, tomou posse em Curitiba. Por isso, 19 de dezembro é tradicionalmente considerada a data da emancipação política do Paraná.

A partir daí veio uma segunda transformação profunda. Durante a segunda metade do século XIX e começo do XX, o governo estimulou fortemente a imigração europeia. Chegaram alemães, italianos, poloneses, ucranianos, russos e outros grupos. Em vez de uma única grande agricultura de plantation, formaram-se muitas colônias de pequenos agricultores, especialmente no entorno de Curitiba e em diferentes áreas do interior.

O território paranaense que conhecemos hoje, entretanto, ainda não estava completamente consolidado. Houve longas disputas de fronteira, especialmente com Santa Catarina. A região do Contestado tornou-se palco da Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, conflito que misturou disputa territorial, concentração fundiária, construção ferroviária, expulsão de comunidades rurais e um poderoso movimento religioso popular. O acordo de limites de 1916 ajudou a definir a atual fronteira entre Paraná e Santa Catarina.

No século XX surgiu praticamente um “segundo Paraná”, no norte do estado. Empresas de colonização abriram terras férteis para a agricultura, principalmente café. Cidades como Londrina e Maringá cresceram rapidamente a partir das décadas de 1930 e 1940, recebendo migrantes de São Paulo, Minas Gerais e outras regiões. O oeste também foi ocupado mais intensamente no século XX, sobretudo por famílias vindas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

É por isso que o Paraná acabou tendo uma formação bastante peculiar. Dá para imaginar o estado como a combinação histórica de quatro grandes movimentos: o litoral colonial de Paranaguá; o planalto de Curitiba; os Campos Gerais formados pelo tropeirismo; e, posteriormente, a colonização agrícola do norte e do oeste.

Essa mistura explica muito da estrutura econômica paranaense atual: pequena e média propriedade agrícola, cooperativismo, cidades médias fortes, agroindústria e uma rede urbana relativamente descentralizada. Em boa medida, o Paraná moderno não surgiu apenas da emancipação de São Paulo em 1853. Ele foi sendo construído, economicamente, ao longo de quase três séculos de ocupação de territórios muito diferentes.

Deixe uma resposta