A escalada tarifária — estrutura em que alíquotas de importação aumentam conforme o grau de processamento e valor agregado dos produtos — é uma estratégia clássica de política industrial que visa proteger e fomentar setores mais complexos da economia. Seu fundamento técnico está na constatação empírica de que países ricos concentram sua produção e exportação em setores intensivos em tecnologia e inovação, enquanto países pobres permanecem presos à produção de bens primários ou de baixo valor agregado. Isso não é um acaso: trata-se do reflexo direto da estrutura produtiva e do grau de sofisticação tecnológica de cada economia.
Países desenvolvidos, como Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos, construíram suas fortunas com base em sistemas industriais inovadores, capazes de gerar conhecimento, valor e produtividade crescentes. Já os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, quando expostos prematuramente à competição internacional sem a devida proteção estratégica, têm dificuldade de desenvolver esses setores mais sofisticados, pois enfrentam concorrência assimétrica de empresas estrangeiras consolidadas, com escalas maiores e maior domínio tecnológico.
É nesse ponto que a escalada tarifária desempenha papel fundamental. Ao aplicar tarifas mais baixas para insumos e matérias-primas, mas tarifas mais altas para bens manufaturados e produtos de alta tecnologia, o país cria um ambiente mais favorável à produção doméstica desses bens finais. Essa proteção temporária permite que empresas locais ganhem escala, aprendam, invistam em P&D e construam capacidades tecnológicas — o que os economistas chamam de learning by doing. Trata-se de proteger setores com potencial de se tornarem catapultas de inovação.
Historicamente, essa lógica foi central na trajetória de transição de países pobres para ricos. A Inglaterra, no século XIX, os Estados Unidos no final do século XIX e a Coreia do Sul no século XX recorreram a barreiras tarifárias seletivas para proteger indústrias nascente até que pudessem competir globalmente. A partir desse momento, deixaram de ser importadores de tecnologia e passaram a produzi-la, acumulando capital intelectual e produtivo que alicerça sua renda elevada.
Em resumo, a escalada tarifária não é um instrumento protecionista irracional, mas sim um mecanismo racional de construção de complexidade econômica. Ao proteger setores de maior valor adicionado, o país estimula a inovação, diversifica sua base produtiva e dá um salto qualitativo rumo ao desenvolvimento. Afinal, como mostram os dados e a história econômica, os ricos são ricos porque dominam setores inovadores — e os pobres só deixarão de ser pobres quando fizerem o mesmo.

A lógica da escalada tarifária como ferramenta de desenvolvimento econômico e promoção da inovação tem respaldo em diversas escolas do pensamento econômico, particularmente na tradição do desenvolvimentismo, da economia política da inovação e da economia institucional histórica. Abaixo estão alguns dos principais economistas e teorias que fundamentam e defendem essa abordagem:
1. Friedrich List (1789–1846)
Obra principal: The National System of Political Economy (1841) Ideia central: List foi um dos primeiros a defender que países em desenvolvimento deveriam proteger suas “indústrias nascentes” até que fossem suficientemente competitivas. Ele argumentava que o livre-comércio só beneficiava os países já industrializados. Contribuição: Criou a base teórica do argumento de que tarifas seletivas podem ser usadas para construir uma base industrial nacional inovadora.
2. Alexander Hamilton (1755–1804)
Obra principal: Report on Manufactures (1791) Ideia central: Um dos “pais fundadores” da economia americana, Hamilton propôs tarifas protecionistas para incentivar a industrialização dos EUA no século XVIII. Contribuição: Influenciou diretamente o sistema econômico americano baseado em escalada tarifária para proteger setores com alto valor agregado.
3. Ha-Joon Chang (n. 1963)
Obra principal: Kicking Away the Ladder (2002) Ideia central: Chang demonstra com dados históricos que os países ricos usaram proteção tarifária para se desenvolver, e só depois passaram a defender o livre-comércio. Contribuição: Crítica da hipocrisia do livre-comércio precoce imposto aos países em desenvolvimento. Defende o uso de tarifas como mecanismo de aprendizado e inovação.
4. Erik Reinert (n. 1949)
Obra principal: How Rich Countries Got Rich… and Why Poor Countries Stay Poor (2007) Ideia central: A industrialização baseada em setores de crescente retorno é a chave do desenvolvimento. Tarifa seletiva é necessária para alcançar esse estágio. Contribuição: Reabilita teorias pré-clássicas e mercantilistas, com ênfase na escalada produtiva e tecnológica como motor da riqueza.
5. Alice Amsden (1943–2012)
Obra principal: Asia’s Next Giant: South Korea and Late Industrialization (1989) Ideia central: Mostrou como a Coreia do Sul utilizou políticas industriais combinadas com proteção seletiva para desenvolver setores intensivos em tecnologia. Contribuição: Integra tarifas a uma lógica mais ampla de desenvolvimento institucional e inovação.
6. Dani Rodrik (n. 1957)
Obra principal: Industrial Policy for the Twenty-First Century (2004) Ideia central: Rodrik argumenta que políticas industriais, incluindo tarifas, devem ser adaptadas à realidade institucional de cada país. Contribuição: Oferece uma visão pragmática sobre o uso de proteção estratégica para fomentar setores promissores.
7. Teoria da Indústria Nascente (“Infant Industry Argument”)
Origem: Associada a economistas como John Stuart Mill e Friedrich List Essência: Justifica a proteção de setores emergentes até que tenham escala, produtividade e inovação suficientes para competir internacionalmente. Aplicação: Utilizada por quase todos os países que hoje são industrializados em alguma fase de sua história.
8. Teoria da Complexidade Econômica
Autores principais: Ricardo Hausmann, César Hidalgo Ideia central: Países desenvolvem-se conforme aumentam sua capacidade de produzir bens complexos. Tarifas podem proteger esse processo inicial. Contribuição: Reforça o argumento de que o aprendizado produtivo ocorre ao longo de trajetórias protegidas por políticas públicas.
Essas teorias e autores oferecem bases técnicas e históricas robustas para a defesa da escalada tarifária como instrumento de transformação estrutural, mostrando que o desenvolvimento raramente ocorre espontaneamente via livre-comércio, e sim por meio de ações coordenadas do Estado para proteger e fomentar setores estratégicos e inovadores.
Paul Krugman tem uma posição mais ambígua e cautelosa em relação ao uso da escalada tarifária e políticas industriais. Embora ele seja um defensor do livre-comércio em geral, Krugman também reconheceu, em seus trabalhos acadêmicos, situações específicas em que tarifas e políticas industriais podem ser justificadas — especialmente com base na nova teoria do comércio internacional, que ele ajudou a desenvolver nos anos 1980.
1. Abertamente favorável ao livre-comércio — com ressalvas
Krugman frequentemente defendeu o livre-comércio como regra geral, criticando políticas protecionistas que não apresentam fundamentos econômicos sólidos. Em seus artigos de opinião e livros voltados ao público geral, como Pop Internationalism (1996), ele ridiculariza argumentos populistas a favor do protecionismo, especialmente quando usados por políticos sem base técnica.
2. Mas admite exceções importantes:
Em sua pesquisa acadêmica, Krugman desenvolveu modelos baseados em:
economias de escala, competição imperfeita, e externalidades de aprendizado.
Esses modelos mostram que, sob certas condições, uma tarifa ou subsídio temporário a um setor estratégico pode aumentar o bem-estar nacional, desde que:
haja retornos crescentes à escala, o país consiga capturar ganhos de aprendizado ou inovação, e os concorrentes estrangeiros estejam em vantagem por fatores históricos e não por eficiência intrínseca.
Essas ideias estão presentes, por exemplo, em seu artigo clássico “Is Free Trade Passé?” (1987), onde ele afirma que, embora o livre-comércio continue sendo a melhor política na maioria dos casos, há cenários plausíveis onde a intervenção estatal — incluindo tarifas — pode melhorar os resultados econômicos de longo prazo.
3. Críticas às políticas industriais mal desenhadas
Krugman alerta, porém, que tentar usar tarifas e políticas industriais sem critérios técnicos claros pode facilmente se degenerar em protecionismo ineficiente, capturado por lobbies e politicamente distorcido. Por isso, mesmo admitindo o valor teórico da escalada tarifária, ele defende grande prudência e institucionalidade na sua aplicação prática.
Resumo da posição de Krugman:
Livre-comércio é geralmente preferível, mas tarifas seletivas podem ser justificadas em situações com economias de escala, aprendizado e falhas de mercado. Políticas industriais podem funcionar, mas requerem boa governança e foco em setores com alto potencial de externalidades positivas. Krugman não é um desenvolvimentista clássico como Ha-Joon Chang ou List, mas oferece uma base teórica moderna para defender a escalada tarifária de forma criteriosa e limitada.
Em resumo, Krugman não se opõe frontalmente à lógica da escalada tarifária, mas vê nela uma ferramenta de uso técnico e excepcional, não um princípio geral de política econômica.
A comparação entre Paul Krugman e Erik Reinert revela duas visões distintas sobre o papel das tarifas e das políticas industriais no desenvolvimento econômico — ambas fundamentadas, mas com diferenças profundas em abordagem teórica, ênfase histórica e prescrição de política pública:
1. Abordagem teórica e epistemológica
Paul Krugman trabalha dentro da tradição da economia neoclássica e da modelagem matemática, particularmente com a nova teoria do comércio internacional, que introduz elementos como economias de escala e competição imperfeita. Ele busca identificar casos específicos em que o livre-comércio pode não ser ótimo, mas mantém o livre-comércio como norma geral. Erik Reinert, por outro lado, opera fora da ortodoxia. Ele adota uma abordagem histórico-estruturalista, fortemente influenciada por Friedrich List e a tradição do mercantilismo europeu. Em vez de depender de modelos formais, Reinert usa análise histórica empírica para mostrar como países se industrializaram e enriqueceram. Para ele, a proteção tarifária é parte essencial e recorrente do processo de desenvolvimento.
2. Papel das tarifas
Krugman aceita tarifas em casos muito específicos, como em setores com externalidades de aprendizado ou monopólios naturais. Ele vê a escalada tarifária como uma exceção técnica, que exige cálculo cuidadoso e risco de distorção política. Sua preocupação central é com a eficiência alocativa e os efeitos de bem-estar. Reinert, por sua vez, vê as tarifas como condição necessária para o desenvolvimento. Ele argumenta que todos os países ricos usaram protecionismo seletivo para sair da armadilha dos produtos primários. Sua visão é de que a proteção não é um desvio da norma, mas parte estrutural da industrialização bem-sucedida.
3. Papel do Estado
Krugman defende um Estado técnico, moderador, que pode corrigir falhas de mercado com intervenções pontuais, mas deve evitar favoritismos ou políticas industriais mal desenhadas. Reinert defende um Estado desenvolvimentista forte, estrategicamente envolvido na construção de capacidades produtivas, com políticas de longo prazo voltadas à transformação estrutural da economia — especialmente protegendo setores de retornos crescentes e alto valor agregado.
4. Visão sobre o desenvolvimento econômico
Para Krugman, o desenvolvimento pode, em muitos casos, ocorrer com abertura ao comércio, desde que complementado por investimentos em educação e estabilidade macroeconômica. Para Reinert, o desenvolvimento depende fundamentalmente da mudança na estrutura produtiva, com transição de setores de retornos decrescentes (como commodities) para setores de retornos crescentes (como manufatura e tecnologia). Ele insiste que isso não acontece espontaneamente e requer proteção ativa.
5. Conclusão:
Krugman é um liberal pragmático, que aceita protecionismo em “pequenas doses”, com grande cautela técnica. Reinert é um desenvolvimentista histórico, que vê a escalada tarifária como estratégia central e legitimada pela história do sucesso econômico dos países ricos.
Se Krugman abre exceções à regra, Reinert questiona a própria regra, oferecendo uma crítica sistemática à ortodoxia liberal e um chamado ao retorno de políticas industriais robustas.
Alice Amsden compartilha com Erik Reinert uma visão estruturalista e desenvolvimentista sobre a industrialização, mas com uma abordagem mais institucional e empírica. Sua visão se diferencia tanto da posição cautelosa de Paul Krugman quanto da crítica histórica mais ampla de Reinert, formando um pilar essencial na compreensão de como países em desenvolvimento podem usar escalada tarifária e política industrial para inovar e crescer.
A seguir, uma comparação da visão de Alice Amsden com Krugman e Reinert, com foco na lógica da escalada tarifária:
1. Enfoque teórico e metodológico
Amsden adota uma abordagem institucional e histórica, fortemente baseada em estudos de caso empíricos, especialmente da Coreia do Sul, Taiwan e de países do Leste Asiático. Ela é próxima, em espírito, a Reinert, por criticar a ortodoxia do livre-comércio precoce, mas se diferencia por seu foco nos mecanismos institucionais e políticos usados pelos Estados para construir capacidades industriais. Krugman, por contraste, trabalha com modelos formais e teorias microeconômicas, raramente incorporando o papel das instituições ou da política concreta.
2. Papel das tarifas e da escalada tarifária
Para Amsden, tarifas elevadas sobre bens industriais foram fundamentais para o sucesso da industrialização tardia dos países asiáticos. Mas o ponto central de sua análise é que as tarifas estavam sempre vinculadas a exigências de performance, como exportações, ganho de produtividade e inovação. Diferente de Krugman, que vê tarifas como exceções justificadas por externalidades específicas, e próximo de Reinert, Amsden vê a proteção como parte da estratégia nacional de construção de competência industrial — uma etapa necessária do catching up. Ela chamava esse modelo de “reciprocal control mechanism”: o Estado oferecia apoio (inclusive tarifário), mas exigia resultados concretos dos empresários.
3. Papel do Estado
Para Amsden, o Estado é protagonista no processo de desenvolvimento, coordenando investimento, fornecendo crédito dirigido, promovendo tecnologia e protegendo setores estratégicos. Assim como Reinert, ela rejeita a ideia de que o mercado sozinho possa criar complexidade produtiva em países atrasados. Mais ainda que Reinert, porém, Amsden foca nas estruturas administrativas e burocracias capacitadas (como o Ministério da Indústria da Coreia do Sul) que conseguem articular políticas industriais eficazes.
4. Crítica ao livre-comércio precoce
Amsden foi uma crítica firme do consenso de Washington e das políticas de ajuste estrutural promovidas por FMI e Banco Mundial nos anos 1980 e 90. Ela defendia que o livre-comércio imposto a países que ainda não desenvolveram indústrias inovadoras aprofunda sua posição periférica na divisão internacional do trabalho. Nesse sentido, ela se alinha claramente a Reinert: não existe caso de industrialização bem-sucedida sem proteção temporária e ação estatal coordenada.
5. Desenvolvimento e inovação
Enquanto Krugman fala de aprendizado por externalidade e admite políticas pontuais, Amsden coloca o aprendizado produtivo e tecnológico como o centro da política econômica. Para ela, o verdadeiro salto do desenvolvimento ocorre quando o país passa a inovar, e isso depende de políticas industriais sustentadas e não apenas de vantagens comparativas.
Conclusão
Alice Amsden está mais próxima de Erik Reinert do que de Paul Krugman. Todos reconhecem, em graus diferentes, o valor da escalada tarifária, mas: Krugman vê como exceção técnica. Reinert como necessidade histórica e estrutural. Amsden como parte de uma estratégia mais ampla e sofisticada de construção institucional, tecnológica e produtiva, com exigências recíprocas entre Estado e setor privado.
Alice Amsden oferece, portanto, uma visão profundamente pragmática e institucional da escalada tarifária: proteger, mas exigir contrapartidas; intervir, mas com metas claras; inovar, mas a partir de um projeto nacional de desenvolvimento.
Entre todos os autores citados, Erik Reinert é o que melhor justifica a ideia da escalada tarifária — e não apenas de tarifas isoladas — como instrumento central do desenvolvimento econômico. Eis por quê:
1. Visão histórica e estrutural da escalada produtiva
Reinert entende o desenvolvimento como uma transição da produção de bens simples para bens complexos, o que exige uma mudança profunda na estrutura produtiva do país. Para ele, a escalada tarifária — isto é, tarifas menores sobre insumos e maiores sobre bens manufaturados de alto valor agregado — é essencial porque:
Cria incentivos para a produção doméstica de bens mais sofisticados; Desestimula a especialização em produtos primários, que têm retornos decrescentes e baixa inovação; Protege o aprendizado industrial ao longo da cadeia, incentivando o movimento em direção a setores de retornos crescentes.
2. Integração da lógica tarifária à teoria dos retornos crescentes
Reinert baseia-se na distinção entre:
Setores de retornos crescentes (indústria, tecnologia) e Setores de retornos decrescentes (commodities, agricultura).
Ele mostra que os países ricos se concentraram historicamente nos primeiros — e usaram escalada tarifária para chegar lá. A tarifa, nesse contexto, não é um instrumento isolado, mas parte de uma estratégia para escalar posições na hierarquia tecnológica global.
3. Crítica ao livre-comércio precoce e especialização regressiva
Reinert critica a ideia ricardiana de vantagens comparativas como receita universal. Para ele, o livre-comércio antes da industrialização leva à especialização regressiva, onde o país fica preso em setores de baixa complexidade. A escalada tarifária atua exatamente contra isso: ela organiza incentivos para a substituição de importações ascendentes, protegendo setores mais avançados, enquanto permite acesso a insumos essenciais.
4. Consistência com a história do desenvolvimento
Reinert demonstra, com ampla evidência histórica, que todos os países que hoje são ricos usaram a escalada tarifária: Inglaterra, EUA, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, entre outros. Eles começaram protegendo indústrias simples e foram subindo a escada da sofisticação, ajudados por tarifas progressivamente maiores em cada etapa de agregação de valor.
5. Lógica de sistema produtivo nacional (não de setores isolados)
Diferentemente de Paul Krugman (que pensa em setores com externalidades pontuais) ou mesmo de Alice Amsden (mais voltada à política industrial e institucional), Reinert vê a escalada tarifária como parte de uma engrenagem sistêmica, onde a política comercial está diretamente conectada à estrutura produtiva do país — do setor primário ao setor de alta tecnologia.
Conclusão
Erik Reinert justifica melhor a escalada tarifária como estratégia de transformação estrutural, por reunir:
Teoria dos retornos crescentes, Análise empírica histórica comparada, Crítica robusta ao livre-comércio precoce, E uma visão sistêmica da economia nacional.
Sua abordagem deixa claro que desenvolvimento não é sobre proteger um setor qualquer, mas sobre escalar na hierarquia tecnológica e produtiva global — degrau por degrau, com políticas comerciais alinhadas à política industrial.
A tradição estruturalista, especialmente a latino-americana liderada por economistas como Raúl Prebisch, Celso Furtado, Ignácio Rangel e Maria da Conceição Tavares, alinha-se fortemente com a defesa da escalada tarifária como ferramenta essencial para o desenvolvimento industrial e tecnológico dos países periféricos. Essa tradição oferece uma justificativa robusta e sistêmica para a utilização de tarifas seletivas — não apenas como instrumento de proteção, mas como mecanismo de transformação estrutural das economias dependentes.
Abaixo, detalho como essa escola se encaixa na discussão sobre tarifas, escalada tarifária e inovação:
1. Crítica à especialização primário-exportadora
Os estruturalistas argumentam que a especialização dos países latino-americanos em bens primários de baixa elasticidade-renda e baixa complexidade tecnológica perpetua uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho.
Como mostrou Prebisch, os termos de troca entre produtos primários e manufaturas tendem a se deteriorar ao longo do tempo. A saída seria a industrialização planejada e protegida, inclusive via escalada tarifária, para estimular setores de maior valor agregado.
2. Papel estratégico das tarifas no processo de catching up
Na tradição estruturalista, tarifas escalonadas (mais baixas para insumos, mais altas para bens finais) são vistas como parte do arcabouço necessário para construir capacidades produtivas endógenas.
A ideia não é proteger indefinidamente, mas criar janelas de oportunidade para o aprendizado produtivo e tecnológico. Isso permite substituição de importações progressiva, rumo à diversificação e sofisticação da estrutura econômica — algo enfatizado por Furtado em Formação Econômica do Brasil.
3. Centralidade da estrutura produtiva no desenvolvimento
Diferente dos modelos neoclássicos que focam em eficiência estática, os estruturalistas colocam o foco na transformação da estrutura produtiva — sair de setores de baixos retornos e baixa produtividade para setores industriais e tecnológicos.
Tarifas escalonadas são, nesse contexto, instrumentos ativos de política econômica, não distorções a serem evitadas. A lógica é similar à de Erik Reinert e Alice Amsden, mas os estruturalistas deram ênfase especial à dependência externa e às condições históricas da periferia.
4. A armadilha da renda média na ótica estruturalista
Os estruturalistas anteciparam o que hoje chamamos de armadilha da renda média: países que conseguiram alguma industrialização inicial, mas não avançaram para setores de maior complexidade.
A explicação está na interrupção precoce das políticas industriais e tarifárias, muitas vezes por pressão de organismos internacionais ou choques externos. A retomada da escalada tarifária estratégica é vista como parte da solução para esse bloqueio histórico ao desenvolvimento pleno.
5. Conclusão: uma visão coerente e sistêmica
A tradição estruturalista justifica profundamente a lógica da escalada tarifária, porque:
Reconhece que o mercado, sozinho, não corrige assimetrias históricas; Defende o uso de tarifas como parte de uma política econômica nacional integrada; Vê o Estado como agente de coordenação da mudança estrutural e do aprendizado tecnológico.
Em suma, os estruturalistas não apenas defendem tarifas seletivas e escalonadas, mas as integram a um projeto nacional de desenvolvimento, centrado na superação da dependência externa e na construção de uma base produtiva e inovadora. Trata-se de uma das tradições mais consistentes em favor da escalada tarifária como alavanca de transformação estrutural.

