Em 2023, a participação do setor de manufatura no Produto Interno Bruto (PIB) da Suíça foi de 18,11%, enquanto o setor de serviços representou 71,89% do PIB .
No entanto, ao considerar o efeito Balassa-Samuelson, que sugere que os preços dos serviços são relativamente mais altos em países desenvolvidos devido a maiores salários e produtividade, é possível ajustar essas participações para refletir uma perspectiva mais equilibrada.
Ajuste considerando o efeito Balassa-Samuelson
Supondo que os preços dos serviços na Suíça sejam cinco vezes mais altos do que em países com menor renda, devido ao efeito Balassa-Samuelson, podemos ajustar a participação dos serviços no PIB.
Valor ajustado dos serviços: Dividimos a participação dos serviços por 5: 71,89% ÷ 5 = 14,378% Recalculando o PIB total ajustado: Somamos as participações ajustadas: Manufatura: 18,11% Serviços ajustados: 14,378% Outros setores (como agricultura e construção): Suponhamos 10% Total ajustado = 18,11% + 14,378% + 10% = 42,488% Calculando a nova participação da manufatura: Dividimos a participação da manufatura pelo total ajustado: (18,11% ÷ 42,488%) × 100 ≈ 42,63%
Conclusão
Após ajustar os preços dos serviços para refletir o efeito Balassa-Samuelson, a participação da manufatura no PIB suíço aumentaria de 18,11% para aproximadamente 42,63%. Esse exercício destaca como os preços relativos podem influenciar a percepção da estrutura econômica de um país.
Vamos aprofundar a explicação e apresentar como a estrutura produtiva da Suíça, mesmo com um PIB dominado aparentemente por serviços, está fortemente ancorada na manufatura e em serviços que orbitam e complementam a produção industrial sofisticada.
1. A Ilusão Estatística no PIB: O Efeito Balassa-Samuelson
Países ricos, como a Suíça, apresentam uma elevada participação dos serviços no PIB em dólares correntes. No caso suíço, os serviços representam cerca de 72% do PIB, enquanto a manufatura representa 18%. No entanto, essa composição está inflacionada por um fenômeno conhecido como efeito Balassa-Samuelson.
Esse efeito explica que, em países desenvolvidos, os serviços não transacionáveis (como saúde, educação, hotelaria e serviços pessoais) são muito mais caros do que em países pobres, porque os salários são altos mesmo em setores de baixa produtividade. Isso eleva artificialmente o peso desses serviços no PIB medido em dólares.
Se ajustarmos o valor dos serviços para refletir uma paridade de poder de compra — por exemplo, supondo que eles custariam cinco vezes menos se fossem precificados a taxas internacionais — a participação dos serviços no PIB cairia drasticamente. Nesse cenário, a manufatura passa a representar mais de 40% do PIB ajustado, revelando seu verdadeiro peso na economia real da Suíça.
2. A Economia Produtiva da Suíça: Manufatura de Alta Complexidade
Mesmo com um território pequeno e recursos naturais limitados, a Suíça construiu uma das manufaturas mais sofisticadas do mundo. Destacam-se:
Indústria farmacêutica e biotecnológica: Sede de gigantes como Roche e Novartis. Equipamentos médicos de precisão: Um dos maiores exportadores mundiais em valor per capita. Relógios de alto valor agregado: Como Patek Philippe, Rolex e Swatch. Máquinas industriais e instrumentos de medição de precisão.
Esses setores exigem investimento intensivo em pesquisa e desenvolvimento (P&D), engenharia de produto, design industrial, automação de processos e padrões rigorosos de qualidade. O valor adicionado per capita na manufatura suíça está entre os mais altos do mundo.
3. Serviços Avançados: Extensões da Manufatura
Boa parte dos serviços na Suíça não são tradicionais (como cabeleireiro ou restaurante), mas sim serviços intensivos em conhecimento, que são complementares à produção manufatureira. Exemplos:
Serviços de engenharia e design industrial para projetos de equipamentos médicos. Serviços de pesquisa e testes clínicos que integram o desenvolvimento farmacêutico. Serviços financeiros especializados (hedge cambial, seguros industriais) que viabilizam as exportações. Consultoria regulatória e jurídica internacional, fundamental para empresas exportadoras.
Esses serviços orbitam os núcleos manufatureiros, ampliando o valor adicionado total e sustentando um ecossistema produtivo altamente complexo. Trata-se de uma economia de manufatura embutida em serviços de alta densidade tecnológica.
4. Conclusão: O PIB Engana — a Economia Suíça é Industrial
A Suíça é frequentemente classificada como uma economia de serviços. Mas, ao remover os efeitos estatísticos causados pela inflação dos serviços domésticos, vemos que o núcleo produtivo real da Suíça é industrial e tecnológico.
O valor adicionado per capita vem principalmente de bens complexos e serviços complementares à produção de bens. A aparente dominância dos serviços no PIB esconde a estrutura produtiva sofisticada, voltada à exportação e à inovação.
Assim, a Suíça mostra que desenvolvimento econômico real não se mede apenas por percentuais no PIB, mas sim pela densidade produtiva e tecnológica das atividades econômicas — sejam elas classificadas como indústria ou serviço.
Abaixo está o texto explicativo com os dados ajustados, excluindo Macau, e focando na análise qualitativa e quantitativa dos 9 países mais ricos em termos de PIB nominal per capita com base no efeito Balassa-Samuelson:
Embora os países mais ricos do mundo sejam frequentemente classificados como economias de serviços, essa percepção pode ser distorcida por efeitos estatísticos. Um dos mais importantes é o efeito Balassa-Samuelson, que mostra que, em países de alta renda, os salários são elevados mesmo nos setores de serviços de baixa produtividade. Isso eleva artificialmente os preços dos serviços locais e, por consequência, sua participação no PIB nominal medido em dólares.
Ao corrigirmos essa distorção — assumindo, por exemplo, que os preços dos serviços nesses países são cinco vezes mais caros do que seriam a preços internacionais — a estrutura real da economia muda drasticamente: a manufatura e os serviços produtivos ganham protagonismo, enquanto os serviços domésticos perdem peso.
Abaixo, apresentamos esse exercício para nove das economias mais ricas do mundo:
Suíça, que oficialmente tem cerca de 18% de sua economia ligada à manufatura, salta para 42,9% do PIB ajustado quando se desconta a inflação dos serviços. Isso reflete sua forte base em farmacêutica, equipamentos médicos e relojoaria de precisão. Irlanda e Singapura, ambos centros industriais com forte presença de multinacionais de tecnologia e biotecnologia, veriam sua manufatura representar cerca de 48% e 46,5% do PIB real, respectivamente. Dinamarca, com grande presença de indústria farmacêutica e tecnologia verde, sobe de 14% nominais para 36,5% ajustados. Noruega e Qatar, cujas economias dependem de petróleo e gás (atividades classificadas como indústria extrativa), também veriam aumentos significativos: 32,8% e 27,6%, respectivamente. Estados Unidos, apesar de seu perfil de serviços, teriam 30,2% do PIB real vindo da manufatura, evidenciando a força de seus setores industriais avançados, como semicondutores, aeroespacial e equipamentos médicos. Islândia, embora mais voltada à pesca, energia e turismo, ainda alcançaria 28,2% de participação da indústria ajustada. Luxemburgo é o caso mais extremo de inflação de serviços, já que grande parte de seu PIB vem de serviços financeiros sofisticados e administrativos: sua manufatura representaria apenas 20% do PIB ajustado, mesmo após a correção.
Esse exercício mostra que, ao corrigirmos a superavaliação dos serviços locais em países ricos, a manufatura e os serviços industriais avançados são revelados como os verdadeiros motores do valor adicionado. Mesmo em economias consideradas “pós-industriais”, a infraestrutura produtiva permanece central, com a maior parte do crescimento e inovação ocorrendo em torno de bens transacionáveis, tecnologia e serviços técnicos de apoio à produção. A aparência de “desindustrialização” em países ricos é, em grande medida, uma ilusão estatística.
Quando assumimos que os serviços nesses países são 10 vezes mais caros do que seriam em paridade internacional, o peso dos serviços no PIB ajustado despenca — e, com isso, a manufatura se torna a principal fonte real de valor adicionado.
A Suíça salta para impressionantes 66,2% de peso da manufatura no PIB ajustado, revelando o verdadeiro protagonismo de sua indústria farmacêutica, relojoeira e de equipamentos médicos. Irlanda e Singapura ficam logo atrás, com cerca de 65% e 63% de peso da manufatura, impulsionados por suas exportações de alta tecnologia. Mesmo países tradicionalmente classificados como “ricos em serviços”, como os Estados Unidos e a Dinamarca, têm a manufatura representando 44% a 50% do valor adicionado real. Até Luxemburgo, cuja economia depende quase exclusivamente de serviços financeiros, vê a participação da indústria subir para 37% com esse ajuste extremo. Qatar, Noruega e Islândia, com grande peso de indústrias extrativas ou energéticas, também mostram um protagonismo industrial claro.
Conclusão
Quando o efeito Balassa-Samuelson é ajustado com uma relação extrema de 10x nos preços dos serviços, a estrutura produtiva real dos países ricos se revela ainda mais intensamente industrial e tecnológica. Isso reforça a ideia de que o PIB nominal superestima os serviços em países ricos e subestima a importância econômica estratégica da manufatura e dos serviços produtivos complementares, que são os verdadeiros vetores de produtividade, inovação e valor adicionado.

