*escrito com Gustavo Pauro
Existe uma conversa que acontece com regularidade perturbadora nas mesas de jantar brasileiras, nos grupos de mensagem de família, nos corredores de empresa: a sensação difusa de que o dinheiro não fecha, de que o padrão de vida que parecia ao alcance da mão há dez ou quinze anos se distanciou sem aviso, de que se trabalha tanto quanto antes — ou mais — e se compra menos. Essa sensação não é paranoia coletiva nem produto exclusivo de má gestão doméstica. Ela tem nome técnico, tem mecanismo documentado e tem uma literatura econômica robusta que a explica com precisão desconfortável. Chama-se armadilha da renda média, e o Brasil está dentro dela há pelo menos duas décadas.
Barry Eichengreen, Donghyun Park e Kwanho Shin, em trabalho publicado pelo National Bureau of Economic Research em 2012, identificaram que economias em desenvolvimento tendem a desacelerar de forma pronunciada quando atingem determinados patamares de renda per capita — aproximadamente 10.000 e 16.000 dólares em paridade de poder de compra. A razão é estrutural: os motores que impulsionaram o crescimento inicial, sobretudo mão de obra barata e absorção de tecnologia importada, perdem força antes que o país desenvolva a capacidade de inovar de forma autônoma e sistemática. O resultado é uma espécie de limbo econômico — já não se compete com países de salário muito baixo, ainda não se compete com países de alta sofisticação tecnológica. O Brasil entrou nessa zona de risco no início dos anos 2000 e, segundo os dados do Banco Mundial e do Penn World Tables, seu PIB per capita a preços constantes oscilou em torno de um platô entre 2014 e 2023, sem crescimento real consistente.
Jesus Felipe, Utsav Kumar e Arnelyn Abdon, em estudo do Asian Development Bank Institute, refinaram o argumento mostrando que a armadilha não é um destino geográfico nem cultural, mas o produto de falhas específicas de transformação estrutural: diversificação produtiva insuficiente, incapacidade de migrar para setores de maior intensidade tecnológica e ausência de políticas que sustentem ganhos de produtividade ao longo do tempo. O Brasil se enquadra nesse perfil com precisão desconcertante. A ferramenta analítica mais poderosa para compreender por que isso se traduz em salários estagnados é o conceito de complexidade econômica, desenvolvido por Ricardo Hausmann e César Hidalgo no Atlas of Economic Complexity. A ideia central é que economias que produzem e exportam bens complexos — aqueles que poucos países conseguem fabricar, que requerem combinações sofisticadas de conhecimento tácito, infraestrutura tecnológica e capacidade institucional — pagam salários sistematicamente mais elevados porque a raridade dessas competências cria poder de barganha para os trabalhadores envolvidos. O teto salarial é determinado, em última instância, pela sofisticação do que se produz.
O Brasil ocupava, nos dados atualizados do Observatory of Economic Complexity para a segunda metade dos anos 2010, uma posição medíocre no índice de complexidade econômica para seu nível de renda. Sua pauta exportadora era dominada por commodities agrícolas e minerais, e mesmo os produtos manufaturados exportados concentravam-se em segmentos de tecnologia média ou baixa. A produtividade total dos fatores cresceu menos de 0,5% ao ano em média entre 2000 e 2020, segundo estimativas do IBRE-FGV. Salário real só cresce de forma sustentada quando a produtividade cresce — tudo o mais é redistribuição de uma torta que não aumenta. O trabalhador brasileiro que sente o salário insuficiente não está apenas comparando preços com os de dez anos atrás. Está, sem saber, sentindo o peso de uma estrutura produtiva que gera pouco valor por hora trabalhada.
O período entre 2003 e 2013 criou a ilusão de que o Brasil havia escapado dessa lógica. Os salários reais subiram, o emprego formal expandiu e dezenas de milhões de pessoas experimentaram pela primeira vez acesso a bens duráveis. Mas o mecanismo por trás dessa melhora era frágil: termos de troca excepcionalmente favoráveis pelas commodities valorizadas, expansão acelerada de crédito ao consumidor e valorização real do salário mínimo financiada por receitas fiscais extraordinárias. Nenhum desses fatores transforma a estrutura produtiva. Quando os termos de troca se deterioraram a partir de 2012 e o ciclo de crédito se esgotou, a fragilidade da base tornou-se visível. Entender isso não é consolo — é pré-requisito para qualquer debate honesto sobre o que fazer.
E o que fazer começa por entender como a estrutura industrial que poderia ter elevado permanentemente a produtividade foi perdida antes mesmo de ter sido plenamente construída. A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, que chegou a ultrapassar 35% nos anos 1980, desabou para patamares próximos de 10% nas últimas estimativas disponíveis nas Contas Nacionais do IBGE — um nível comparável ao de economias muito mais ricas que percorreram décadas adicionais de desenvolvimento industrial antes de iniciar sua transição para uma economia de serviços. Dani Rodrik, em seu influente artigo “Premature Deindustrialization” (2016), distingue a desindustrialização dos países ricos — que perderam participação industrial depois de atingir altos níveis de renda e complexidade — da que acomete economias de renda média, onde ela ocorre cedo demais, antes que a indústria tenha cumprido seu papel histórico de absorver mão de obra de baixa qualificação, elevar a produtividade média e transferir capacidades para o restante da economia.
No caso brasileiro, a trajetória de queda acelerou dramaticamente com o ingresso da China na Organização Mundial do Comércio em 2001 e com a explosão da manufatura chinesa a partir de 2004. Para o Brasil, esse choque encontrou uma estrutura produtiva particularmente vulnerável. A abertura comercial dos anos 1990, necessária e em vários aspectos benéfica, não foi acompanhada das políticas complementares — câmbio competitivo, crédito industrial de longo prazo, infraestrutura logística e formação técnica de mão de obra — que teriam permitido às empresas nacionais se reposicionar em segmentos de maior valor agregado antes que a competição asiática eliminasse as margens nos segmentos de baixa tecnologia. O resultado foi uma tripla erosão: a indústria perdeu participação no PIB, perdeu encadeamentos internos e perdeu a capacidade de gerar os empregos de produtividade intermediária que são, em qualquer economia de desenvolvimento bem-sucedido, a principal ponte entre o trabalho de baixa qualificação e a prosperidade de classe média.
Se a perda da indústria brasileira foi acelerada por ventos externos, a arquitetura que permitiu que esses ventos fizessem tanto estrago foi desenhada dentro de casa. Existe um debate ruidoso na economia brasileira que opõe os defensores da responsabilidade fiscal e das metas de inflação aos críticos da desindustrialização e do rentismo. O que essa polarização costuma ocultar é que ambos os lados descrevem partes de um mesmo mecanismo: uma pinça macroeconômica que, ao longo de duas décadas, estabilizou os preços da economia ao custo de asfixiar sistematicamente a capacidade competitiva da produção de maior valor agregado.
O primeiro braço dessa pinça é a doença holandesa. O termo, cunhado pela revista The Economist em 1977 e formalizado por W. Max Corden e J. Peter Neary em artigo clássico de 1982, descreve uma dinâmica perversa: a valorização acentuada de recursos naturais provoca um forte influxo de divisas estrangeiras que valoriza a moeda nacional em termos reais. Para o consumidor, no curto prazo, o efeito é sedutor — produtos importados ficam baratos e a inflação despenca. Para o setor industrial de bens comercializáveis, o efeito é letal: a valorização cambial funciona como um subsídio reverso para as importações e um imposto sobre as exportações industriais. No Brasil, a doença holandesa não operou no vácuo. Ela encontrou o segundo braço da pinça: a engenharia institucional do tripé macroeconômico consolidada a partir de 1999. Não há nada intrinsecamente errado com o tripé — a ancoragem das expectativas de inflação e a sustentabilidade fiscal são pré-requisitos para a estabilidade macroeconômica. O problema brasileiro não foi a escolha das regras, mas as condições estruturais sob as quais elas operaram, gerando o que o economista Edmar Bacha chamou de “equilíbrio de juros altos e câmbio apreciado”.
Para cumprir as metas de inflação em uma economia com forte memória inflacionária e choques frequentes de oferta, o Banco Central foi obrigado a manter a Selic em patamares reais sistematicamente superiores aos de quase qualquer outra economia de mercado no mundo. O efeito colateral desse diferencial de juros foi devastador para a estrutura produtiva: ele atraía volumes massivos de capital externo de curto prazo em busca de arbitragem financeira, o chamado carry trade, que somava-se aos dólares gerados pelo boom de commodities, hipervalorizando o Real. A pinça fechava-se: a doença holandesa empurrava o câmbio para baixo pela conta comercial, enquanto os juros estratosféricos faziam o mesmo pela conta financeira. O empresário industrial brasileiro enfrentava uma escolha racional simples: investir milhões de reais na modernização de uma fábrica para obter uma margem incerta de 8% ao ano, ou aplicar o capital em títulos públicos indexados à Selic com risco zero e receber 12% ao ano de retorno real. A macroeconomia brasileira transformou o rentismo público no investimento mais eficiente do país.
A literatura do Novo Desenvolvimentismo, liderada por Luiz Carlos Bresser-Pereira, argumenta que a manutenção do câmbio sobrevalorizado a médio e longo prazo atua como um obstáculo intransponível ao desenvolvimento de economias de renda média — quando o câmbio permanece apreciado por muito tempo, indústrias nacionais deixam de produzir componentes locais e passam a importá-los prontos da Ásia, transformando-se em meras montadoras de kits importados até que, eventualmente, fecham as portas de vez. Por outro lado, economistas de matriz ortodoxa, como Samuel Pessoa e Mansueto Almeida, apontam com igual precisão que a tentativa de desvalorizar o câmbio por meio de intervenções artificiais resulta invariavelmente em aceleração inflacionária e descontrole fiscal, como a experiência do segundo governo Dilma Rousseff demonstrou. A tragédia da macroeconomia brasileira é que ambos os diagnósticos estão corretos em suas críticas, mas incompletos em suas soluções. O Brasil construiu um modelo de estabilidade monetária que funciona como uma estufa: protege a moeda contra as geadas da hiperinflação, mas mantém a temperatura interna tão sufocante que nenhuma planta industrial de alto valor agregado consegue crescer.
Esse limite, contudo, não é feito apenas de taxas de juros e de câmbio. Ele é feito, fundamentalmente, de carne, osso e da capacidade cognitiva da força de trabalho. A teoria do crescimento econômico moderno, desde os trabalhos seminais de Robert Lucas (1988) e Paul Romer (1990) sobre crescimento endógeno, estabelece que o acúmulo de capital humano é o principal determinante do crescimento da produtividade a longo prazo. Não se trata apenas de colocar crianças dentro de escolas, mas da eficiência com que essas escolas transformam tempo de aula em competência produtiva. Os dados internacionais contam uma história desoladora sobre o Brasil. No PISA, exame da OCDE que mede a capacidade de estudantes de 15 anos de aplicar conhecimentos em leitura, matemática e ciências, o Brasil ocupa historicamente posições do terço inferior do ranking. Mais alarmante do que a posição relativa é a distribuição interna: mais de metade dos estudantes brasileiros avaliados não atinge o nível básico de proficiência em matemática. O Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) revela, internamente, que apenas uma fração minoritária da população adulta é considerada plenamente alfabetizada para fins práticos e técnicos. Uma força de trabalho em que um terço dos adultos tem dificuldade para compreender um manual técnico simples não é uma força de trabalho que pode operar uma indústria de média-alta tecnologia — independentemente de qual seja o câmbio ou a taxa de juros.
Esse deficit de competências básicas gera um profundo descompasso de qualificações. Ao mesmo tempo em que o país convive com milhões de desempregados ou subutilizados nos serviços de baixa renda, as poucas empresas de alta tecnologia que sobrevivem no Brasil relatam escassez crônica de engenheiros, cientistas de dados, técnicos de manutenção especializada e gestores de projetos. Cria-se uma armadilha de baixo equilíbrio: como a mão de obra disponível tem baixa qualificação média, o tecido empresarial se adapta, desenhando processos produtivos simplificados, de baixa tecnologia, que geram margens estreitas e pagam salários baixos, o que por sua vez desestimula o investimento individual em educação de alta qualidade.
Por que o Brasil não consegue romper esse círculo? A resposta nos leva ao campo da economia política e às teses de Mancur Olson em The Rise and Decline of Nations (1982). Olson argumenta que sociedades estáveis acumulam, ao longo do tempo, coalizões distributivas — grupos de interesse organizados que canalizam suas energias não para aumentar a produtividade agregada, mas para buscar privilégios, subsídios, proteção de mercado e rendas econômicas. No Brasil, o orçamento público e as políticas regulatórias são capturados por esse emaranhado de privilégios cruzados. O sistema tributário, historicamente um dos mais caóticos e regressivos do mundo, sobreviveu por décadas porque cada setor econômico possuía sua própria trincheira de isenções que ninguém aceitava ceder. O gasto público expandiu-se em direção a direitos adquiridos e pensões precoces, comprimindo o investimento em infraestrutura logística e em laboratórios de pesquisa aplicada. O protecionismo comercial, em vez de funcionar como uma rampa temporária de aprendizado tecnológico, tornou-se uma reserva de mercado perpétua que protege empresas ineficientes da necessidade de competir e inovar. As coalizões distributivas transformaram o Estado em um amortecedor de perdas para os grupos organizados, financiados por impostos cobrados sobre a maioria desorganizada.
Foi exatamente sobre essa fundação trincada que o país tentou erguer o maior voo de consumo da sua história recente. Toda história de estagnação econômica tem o seu momento de negação — o período em que os dados subjacentes de desgaste estrutural são abafados pelo barulho das festas. No Brasil, esse momento durou aproximadamente uma década, entre 2003 e 2013. Foi o período em que o país acreditou ter, finalmente, decifrado o código do desenvolvimento econômico com justiça social. As capas de revistas internacionais celebravam o “decolar” brasileiro, os shoppings lotavam com a recém-batizada “nova classe média” e o desemprego caía a mínimos históricos. Mas o que parecia ser a fundação de um novo Brasil era, na verdade, o ápice de um ciclo de consumo que gastava uma riqueza que não estava sendo produzida.
O Brasil surfou o maior alinhamento de astros externos de sua história republicana: a urbanização acelerada da China elevou o preço das commodities minerais e agrícolas a patamares recordes, enquanto a política monetária expansionista das economias centrais após a crise de 2008 inundou os mercados emergentes com capital estrangeiro barato. O PIB cresceu a taxas que chegaram a 7,5% em 2010, impulsionado por uma expansão maciça do crédito doméstico, por transferências de renda focalizadas e por uma política de valorização real sistemática do salário mínimo. O erro analítico central da época — partilhado por formuladores de políticas e por grande parte da academia — foi confundir esse crescimento cíclico e induzido pela demanda com um aumento da capacidade produtiva estrutural do país. A demanda doméstica expandiu-se a taxas que dobravam o ritmo de crescimento da capacidade produtiva. A diferença entre o que o país queria consumir e o que ele conseguia produzir foi acomodada por dois mecanismos: no setor de bens comercializáveis, por uma explosão de importações baratas facilitada pelo câmbio sobrevalorizado; no setor de serviços locais, por aumentos reais de preços e salários muito acima da produtividade do setor.
O indicador definitivo de que a euforia não tinha sustentação era a trajetória da Produtividade Total dos Fatores. Dados compilados pelo Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do IBRE-FGV, revelam que, mesmo nos anos de maior crescimento do PIB, a contribuição da produtividade para o crescimento foi marginal. O Brasil crescia adicionando mais pessoas ao mercado de trabalho e injetando capital, mas a eficiência com que combinava trabalho e capital estava estagnada. O país estava enriquecendo por acumulação, não por sofisticação.
A partir de 2011, o modelo começou a exibir fadiga severa. O superciclo das commodities desacelerou, os balanços das famílias atingiram o limite do endividamento e a inflação de serviços passou a pressionar o teto das metas. A resposta do governo, materializada na chamada “Nova Matriz Econômica”, foi uma tentativa de forçar a manutenção do crescimento por meio de intervenções artificiais: desonerações tributárias seletivas, controle artificial de preços de energia e combustíveis, juros reais fixados abaixo do equilíbrio por pressão política e expansão desmedida dos subsídios via bancos públicos. Como documentado por Laura Carvalho em Valsa Brasileira (2018) e por Arminio Fraga em seus ensaios sobre a crise fiscal, essas desonerações e subsídios não se transformaram em investimento produtivo — transformaram-se em recomposição de margem de lucro para empresas protegidas que enfrentavam a perda de competitividade sistêmica do país. O investimento privado desabou, a arrecadação fiscal despencou e o Estado brasileiro contraiu uma crise estrutural da qual ainda não se recuperou plenamente.
A recessão de 2014–2016 não foi um acidente de percurso. Foi a correção violenta de um desequilíbrio estrutural acumulado ao longo de uma década. A sociedade brasileira havia pactuado um padrão de consumo de classe média sem construir a base técnica e educacional que sustenta esse padrão. O PIB per capita recuou quase 10% em termos reais em apenas três anos, destruindo parte expressiva dos ganhos distributivos da década anterior.
A sensação de que o salário do brasileiro não rende, de que o país patina no mesmo lugar enquanto o mundo avança, não é o resultado de uma crise isolada ou de um governo específico. É o produto final de uma engrenagem que foi escolhida ao longo de décadas — e que continua, a cada ciclo eleitoral, sendo escolhida não desmontar. Escolhemos manter uma estrutura educacional que entrega diplomas, mas não desenvolve competências cognitivas básicas. Escolhemos uma arquitetura financeira que protege a moeda por meio de juros que punem o investimento produtivo e premiam o rentismo. Escolhemos ceder às pressões de coalizões distributivas que transformaram o orçamento do Estado em um mecanismo de extração de privilégios. Escolhemos assistir à desindustrialização precoce da nossa economia sob a ilusão de que o solo e o subsolo seriam suficientes para garantir o bem-estar de mais de 200 milhões de cidadãos urbanos.
O crescimento sustentado do salário real só virá quando cada hora de trabalho brasileira gerar mais valor — e isso exige infraestrutura moderna, segurança jurídica que atraia capital de longo prazo, abertura comercial disciplinada que exponha as empresas à concorrência global e, antes de tudo, uma revolução na qualidade da educação básica. Até que essas reformas profundas e politicamente custosas sejam enfrentadas com a seriedade que o problema exige, a máquina que o Brasil não construiu continuará cobrando o seu preço diário na carteira e nas expectativas de cada trabalhador. A armadilha está montada; a decisão de desarmá-la é, como sempre foi, uma escolha puramente política.

