*escrito por Gustavo Pauro
Dos subsídios do governo Meiji aos contratos de caças de sexta geração, o maior keiretsu do Japão nunca deixou de ser, também, um instrumento da estratégia industrial do Estado
A Mitsubishi nasceu, em 1870, como uma pequena companhia de navegação fundada por Yataro Iwasaki, e se tornaria, ao lado de Mitsui, Sumitomo e Yasuda, um dos quatro grandes zaibatsu que dominaram a economia japonesa entre o final do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial. Mais do que qualquer outro desses conglomerados familiares, porém, a Mitsubishi construiu sua ascensão em simbiose direta com o Estado japonês, e essa simbiose, reconfigurada por sucessivas rupturas históricas, chega praticamente intacta ao século XXI.
O ponto de partida dessa aliança remonta ao governo Meiji, que via na iniciativa privada um braço de sua própria política industrializante. A companhia recebeu assistência financeira direta do governo para se impor como a maior empresa de navegação do país, expandindo-se em seguida para carvão, construção naval, bancos, seguros, papel, aço, petróleo e imóveis. O episódio fundador dessa relação foi a expedição militar a Formosa, em 1874: a Mitsubishi foi contratada para transportar tropas japonesas e, ao final da campanha, recebeu do governo dezenas de navios como recompensa, consolidando um vínculo que historiadores de negócios descrevem como o alicerce de sua ascensão. Por trás da decisão estava o ministro das Finanças Okuma Shigenobu, amigo pessoal de Iwasaki, que garantiu à empresa contratos e subsídios sucessivos para mantê-la competitiva diante das companhias de navegação estrangeiras.
Essa proximidade só se aprofundou no período de mobilização bélica. Pesquisas sobre a economia de guerra japonesa mostram que a fusão entre zaibatsu e Estado se tornou pessoal e institucional: executivos como Ikeda Shigeaki, do grupo Mitsui, chegaram a ocupar o Ministério das Finanças e a presidência do Banco do Japão, e a filiação a um zaibatsu funcionava, para investidores da época, como sinal de que uma fábrica continuaria recebendo matérias-primas mesmo quando concorrentes fossem paralisados. O Exército e a Marinha dependiam da escala industrial que só esses grupos ofereciam, sobretudo na produção de navios e aeronaves, e o Estado retribuía com ambiente protegido e financiamento privilegiado.
A derrota de 1945 interrompeu, ao menos formalmente, esse arranjo. Documento do Departamento de Estado americano de 1947 registra que o chamado Programa Zaibatsu nasceu da diretiva de Washington ao Comando Supremo das Forças Aliadas para dissolver as grandes concentrações econômicas privadas do Japão. A historiadora Eleanor Hadley, em obra que se tornou referência sobre o tema, documentou como o general MacArthur tentou implementar essa política antitruste e como o governo japonês resistiu discretamente, mantendo redes de propriedade e de pessoal que sobreviveriam à dissolução formal das holdings familiares.
Foi dessa resistência que nasceram os keiretsu do pós-guerra. Já nos anos 1960, consolidaram-se seis grandes grupos empresariais no lugar dos antigos zaibatsu, entre eles Mitsui, Mitsubishi e Sumitomo, considerados os herdeiros mais diretos das antigas casas, agora com grandes bancos, sob supervisão do Ministério das Finanças, ocupando o centro da governança corporativa no lugar da família controladora. Paralelamente, consolidava-se o papel do Estado como arquiteto dessa reconstrução industrial: o cientista político Chalmers Johnson, em obra tornada clássica, mostrou como o Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (MITI) funcionou como o principal ator estatal por trás da forma e da velocidade do crescimento japonês entre 1925 e 1975, em um modelo de colaboração entre burocracia e grande empresa que definiria a economia do país.
Dentro desse novo arranjo, a Mitsubishi manteve uma coesão interna considerada mais forte que a de outros keiretsu, sustentada pelo Kinyokai, o “Clube de Sexta-Feira”, encontro mensal dos presidentes das principais empresas do grupo. Estudos sobre participações cruzadas nos keiretsu mostram que esse mecanismo, embora apresentado como traço cultural japonês, seguia lógica econômica concreta, protegendo investimentos específicos em relações comerciais de longo prazo. Consultorias especializadas descrevem a estrutura atual do grupo em camadas concêntricas de proximidade: um núcleo formado por Mitsubishi Corporation, pelo banco Mitsubishi UFJ Financial Group e pela Mitsubishi Heavy Industries, cercado por empresas como Mitsubishi Chemical, Mitsubishi Electric e Mitsubishi Motors — hoje unidas menos por participação acionária cruzada, cada vez mais rarefeita, e mais pela circulação de executivos entre os conselhos das diferentes companhias.
No século XXI, a aliança com o Estado voltou a se tornar explícita, sob nova roupagem. Na área de defesa, o Ministério da Defesa nomeou a Mitsubishi Heavy Industries, sem concorrência de outra empresa japonesa, como contratante principal do futuro caça de sexta geração do país, o programa F-X, depois fundido ao britânico-italiano Tempest sob a sigla GCAP, orçado em cerca de quarenta bilhões de dólares. Na área de recursos estratégicos, documento oficial do Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI), de 2026, confirma que a Mitsubishi Corporation detém 30% do projeto de cobre Copper World, no Arizona, enquanto o próprio ministério financia diretamente estudos de viabilidade de outros projetos minerais conduzidos por conglomerados japoneses. Analistas descrevem esse movimento como parte de uma guinada da política econômica japonesa, que abandona a confiança irrestrita no mercado em favor de uma mobilização industrial dirigida pelo Estado, na qual as grandes tradings do país recebem apoio financeiro público para adquirir participações em minas de recursos críticos em países aliados.
A trajetória da Mitsubishi permite, assim, ler a história econômica do Japão moderno como uma sucessão de reedições da mesma aliança fundamental: o mecenato do Estado Meiji sobre uma firma privada nascente; a fusão orgânica entre zaibatsu e aparato de guerra durante a mobilização total; a reconstituição, sob supervisão da burocracia do MITI, de um keiretsu horizontal após o fracasso da desconcentração imposta pela ocupação americana; e, agora, sob a bandeira da segurança econômica, o retorno do financiamento estatal direto à expansão internacional da empresa em setores considerados estratégicos.
REFERÊNCIAS
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