A política industrial salvou a Europa na produção de vacinas

No inicio da pandemia a compra de vacinas na Europa foi motivo de chacota mundial. Os europeus estavam muito atrás dos americanos, britânicos e israelenses na obtenção de vacinas e na administração delas aos cidadãos. Depois os críticos estã se calaram. Os países europeus vacinaram em números recordes, todos mais ou menos no mesmo ritmo. A Europa se recuperou rapidamente porque mudou completamente a forma como faz negócios no setor da saúde. Costumava ser um sistema aberto onde bens e serviços fluiam livremente para dentro e para fora; agora é mais controlado e mais europeu. Com a implantação de uma verdadeira política industrial os europeus conseguiram garantir um abastecimento estável de vacinas. A ideia de que uma política industrial ajuda, há muito tabu na Europa, veio para ficar – e não apenas para as vacinas. Quando a AstraZeneca anunciou em que só poderia entregar um terço de suas doses prometidas no primeiro trimestre de 2021, a Comissão Europeia recebeu duras críticas. Foi preciso uma pandemia para aceitar que o escopo de políticas industriais deveria ser mais amplo na Europa. Ninguém havia supervisionado anteriormente a produção de centenas de milhões de vacinas que a comissão havia ordenado. Os legisladores dos EUA estavam fazendo negócios com produtores, pesquisadores e produtores de vacinas, trabalhando para um bom resultado. Na Europa não havia coordenação. Todas as partes da cadeia agiam de forma independente. Doses de vacinas entravam e saíam do mercado interno sem que ninguém as rastreasse. Membros da Comissão europeia passaram a visitar fábricas, mapeando gargalos. Logo descobriram que várias cadeias de suprimentos estavam interrompidas, sem que ninguém fizesse nada para consertar os problemas. A comissão havia sido designada para fazer todas as compras de vacinas em nome dos Estados membros. Bruxelas logo descobriu que o problema não era tanto de contratos ruins ou negociações lentas, mas o fato de que ninguém na Europa supervisionava cadeias de suprimentos. Não que a Europa não tivesse capacidade de produção para atender seus próprios pedidos ou que sua parte da produção estivesse sendo enviada para outro lugar. O problema era que o processo de produção estava falhando dentro da própria Europa. Um problema tipo de coordenação de a política industrial que a União Europeia não sabia mais fazer!

A AstraZeneca produziu uma das primeiras vacinas na Europa. Mas seu sistema da cadeia de suprimentos não conseguia lidar com a produção em massa e sob estresse. Imediatamente, houve obstáculos. O fornecimento era menor do que o planejado pela empresa. Alguns governos começaram a forçá-la a transferir a produção para seu território ou a proibir a exportação para terceiros. Todas as empresas estavam sob pressão semelhante. Thierry Breton, um ex-industrial ativo, foi escalado pela comissão europeia para tentar resolver o grande imbróglio de produção de vacinas no continente. A primeira coisa que Breton fez após o desastre da AstraZeneca foi supervisionar todo o processo de produção da vacina. Todas as exportações, tanto de vacinas prontas quanto de componentes, tiveram que ser examinadas por ele – não para bloqueá-las (ele nunca o fez), mas para obter uma visão geral: O que foi aonde? Foi assim que ele conseguiu evitar um segundo desastre. Desta vez, envolveu vacinas da Johnson & Johnson. Ao insistir que todos os pedidos de exportação passassem por sua mesa, Breton descobriu que as vacinas da J&J, embora produzidas na Europa (pela Janssen, na cidade holandesa de Leiden), tinham que ser engarrafadas nos Estados Unidos antes de retornar à Europa. Mas a Lei de Produção de Defesa dos EUA restringiu severamente as exportações. A chance de as vacinas da J&J voltarem à Europa para serem administradas era pequena. Portanto, a Comissão Europeia interferiu. Uma fábrica alemã de envase de vacinas contra a dengue foi temporariamente reaproveitada para a J&J. Agora as vacinas não precisam mais de desvio para os Estados Unidos. Melhor ainda, eles são entregues mais rapidamente. A comissão europeia passou também a aumentar os investimentos no desenvolvimento e produção de vacinas. Com dinheiro alemão e europeu, a fabricante de vacinas BioNTech comprou outra fábrica na Alemanha, transferindo partes do processo de produção de volta para a Europa. A empresa agora está menos vulnerável a percalços na cadeia produtiva. Também é mais produtivo. Em abril, a comissão garantiu doses extras de BioNTech-Pfizer para o segundo trimestre. Também encomendou mais 1,8 bilhão de doses até 2023.

No final, a Europa desenvolveu um atraso de cinco a seis semanas na vacinação de cidadãos, em comparação com os Estados Unidos, o Reino Unido e Israel. Os europeus, ansiosos por reiniciar suas vidas e negócios, odiavam esses atrasos, colocando seus governos sob pressão. Embora os governos nacionais tenham responsabilidade pela falta de política industrial da Europa no passado, alguns colocaram toda a culpa em Bruxelas e saíram para comprar vacinas eles próprios. A Hungria, por exemplo, comprou vacinas russas, embora ainda não tenham sido aprovadas pela Agência Europeia de Medicamentos – e provavelmente não serão por algum tempo. Depois de várias medidas de coordenação e política industrial como as citadas acima, as taxas de vacinação têm acelerado em todos os lugares. Os Estados membros obtiveram 14 milhões de doses em janeiro, 28 milhões em fevereiro, 60 milhões em março e 105 milhões em abril. A comissão europeia espera 125 milhões de doses em maio e 200 milhões em junho, colocando o bloco no caminho certo para ter uma capacidade anual de 3 bilhões a 4 bilhões de doses. Mesmo quando novas vacinas estiverem disponíveis, disse Breton, a Europa não precisará delas. Existem agora 53 fábricas na Europa, contra apenas uma dúzia em janeiro. De acordo com Breton, “Devemos nos orgulhar da capacidade industrial da Europa”. Seu chefe, von der Leyen, disse que a Europa usou essa crise para se reinventar e se tornar mais forte, como aconteceu várias vezes no passado. Ela chamou a Europa, que ainda exporta quase metade de sua produção de vacinas, de “a farmácia do mundo”. A comissão vê a saga da compra de vacinas como um caso de teste. Na semana passada, propôs mais proteção da UE para outros setores vulneráveis ao armamento (geo) político e para tornar o mercado único mais resistente a restrições de fornecimento, fechamento de fronteiras ou fragmentação no futuro. Esperam-se acirradas discussões com alguns dos mais fortes defensores do mercado livre da Europa, como a Holanda. Mas até Haia já aceitou que a “autonomia estratégica” europeia e a política de industrialização se tornaram conceitos-chave a serem desenvolvidos em um mundo cada vez mais mercantil.

Referencias:

https://foreignpolicy.com/2021/05/10/industrial-policy-saved-europes-vaccine-drive/

https://www.politico.eu/article/europe-coronavirus-vaccine-struggle-pfizer-biontech-astrazeneca/

https://www.bbc.com/news/world-europe-56292087

https://ec.europa.eu/info/live-work-travel-eu/coronavirus-response/public-health/eu-vaccines-strategy_en

https://www.theguardian.com/commentisfree/picture/2021/jan/30/the-covid-vaccination-row-cartoon

 

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