A ponte que Pequim atravessou — e que agora queima

O modelo chinês não é gênio estratégico: é uma contradição estrutural vestida de slogan nacionalista

Existe uma leitura confortável sobre a ascensão chinesa que circula tanto na direita quanto na esquerda ocidental: Pequim teria vencido por planejamento superior, por visão de longo prazo, por uma capacidade de coordenação que as democracias perderam. É uma explicação elegante e substancialmente errada. A China não subiu por mágica nem por engenharia central genial. Ela subiu porque foi plugada diretamente nos mercados, nas transferências de tecnologia e nos fluxos de capital que a ordem liberal manteve escancarados por três décadas.

O ponto incômodo é que esse mesmo sistema está sendo hoje usado como arma contra quem o construiu. E a conta está chegando mais rápido do que Bruxelas gostaria de admitir.

A armadilha do subconsumo

O núcleo do problema é conhecido por qualquer economista que já olhou a composição do PIB chinês com atenção. O modelo de crescimento roda com consumo doméstico reprimido e sobreinvestimento maciço em capacidade produtiva. As famílias chinesas capturam uma fatia pequena demais da renda nacional, enquanto o parque industrial produz muito mais do que o mercado interno consegue absorver.

O excedente precisa ir para algum lugar. E vai para fora, subsidiado pelo Estado — veículos elétricos, painéis solares, máquinas, aço, químicos. Isso não é livre comércio. É mercantilismo com características chinesas: manipulação de preços relativos, crédito dirigido, câmbio administrado e capacidade instalada financiada por um sistema bancário que não opera sob restrição orçamentária real.

A reação é previsível e já está em curso: tarifas, investigações antidumping, friend-shoring e esforços discretos de reconstruir cadeias de suprimento que não passem por Guangzhou.

A Europa dormindo no ponto

A Europa está entrando na pior versão dessa armadilha, e entrando de olhos fechados. Importação chinesa barata parece uma vitória do consumidor no curto prazo. No médio prazo, ela corrói competência industrial, empregos qualificados e a capacidade de produzir bens críticos em casa.

E aqui está o ponto que os defensores da abertura irrestrita nunca enfrentam de frente: quando você perde sua base manufatureira, você não fica apenas dependente de Pequim para bugigangas. Você fica dependente dos meios estratégicos para se defender. Isso deixou de ser um problema econômico. Virou um problema de segurança — especialmente quando se lembra que Pequim, Moscou, Teerã e Pyongyang vêm apertando seu eixo enquanto o Ocidente finge que acordos bilaterais separados vão conter o conjunto.

Capacidade produtiva é capacidade estratégica. Quem não fabrica, não decide.

A ironia brutal

A contradição é a parte mais interessante da história. A própria abertura que permitiu à China se industrializar em velocidade recorde está sendo destruída pelo comportamento chinês.

Quanto mais agressivamente Pequim inunda mercados e desloca concorrentes, mais rápido esses concorrentes erguem barreiras e duplicam produção em outros lugares. A China está queimando a ponte que usou para atravessar o rio — e ainda precisa dos consumidores ocidentais para manter suas fábricas rodando.

Isso não é estratégia magistral. É uma contradição estrutural fantasiada de slogan nacionalista e cerimônia com bandeiras vermelhas. Um modelo que depende simultaneamente de reprimir o consumo interno e de manter mercados externos abertos está apostando contra a própria aritmética.

A lição ucraniana

A Ucrânia entendeu isso na carne. O país está construindo sua indústria de defesa em velocidade de guerra precisamente porque não pode se dar ao luxo de dependência estratégica de fornecedor nenhum — muito menos de atores alinhados à cadeia Moscou-Teerã-Pyongyang que alimenta o inimigo.

A Europa deveria estar fazendo o mesmo, em vez de debater quantos veículos elétricos chineses subsidiados ainda consegue absorver antes que sua base industrial ceda. A escolha deixou de ser abstrata: ou se subsidia capacidade produtiva própria e se protege setores críticos, ou se aceita virar o maior mercado cativo do mundo para uma potência rival que enxerga sua abertura como fraqueza a explorar.

E o Brasil nessa história?

Aqui o alerta é ainda mais urgente, porque nossa posição é estruturalmente pior. A Europa discute como preservar uma base industrial sofisticada que ainda existe. Nós discutimos como impedir que o resto da nossa desapareça.

O padrão de comércio Brasil-China é o retrato acabado da especialização regressiva: exportamos soja, minério e petróleo — produtos de baixíssima complexidade, poucos elos de cadeia, pouco conhecimento produtivo incorporado — e importamos manufaturas de alta densidade tecnológica. Cada rodada desse arranjo nos empurra para as bordas do espaço-produto, onde as oportunidades de diversificação são mais escassas e o aprendizado tecnológico é mais raro.

É doença holandesa em versão asiática: o boom de commodities aprecia o câmbio real, comprime a rentabilidade da manufatura e acelera a desindustrialização precoce. Enquanto isso, celebramos superávits comerciais que são, na verdade, o termômetro do nosso empobrecimento produtivo.

A discussão sobre defesa comercial no Brasil não é protecionismo saudosista. É a pergunta elementar sobre quais capacidades produtivas queremos manter vivas — porque capacidade que se perde não volta por decreto. Conhecimento produtivo é tácito, coletivo e acumulado em pessoas e organizações. Fábrica que fecha leva embora uma década de aprendizado que nenhuma política industrial recupera em dois anos.

O fim da era do apaziguamento

Moscou ensinou da forma mais cara possível o que acontece quando se deixa revisionistas imperiais reescreverem as regras enquanto se persegue margem de curto prazo. A China está jogando o mesmo jogo, em escala global e com instrumentos econômicos em vez de tanques.

Está na hora de parar de fingir que as regras ainda favorecem a sociedade aberta que criou o bolo que todos querem fatiar. Ou o Ocidente reconstrói seus tendões industriais e sua autonomia estratégica, ou aprende do jeito caro que gratidão por crescimento passado não compra imunidade contra predação futura.

Para o Brasil, a lição tem um adendo próprio: não basta escolher lado na disputa entre grandes potências. É preciso escolher o que se quer saber produzir. Essa é a única soberania que não se terceiriza.

3 thoughts on “A ponte que Pequim atravessou — e que agora queima”

  1. Paulo Gala,
    Bom texto!
    Há ainda um senão.
    Na década de 90, eu acompanhei alguns artigos ou livros de Paul Krugman em que ele dizia que o saldo na Balança Comercial mostra a pobreza e não a riqueza de um pais. Não era bem essas palavras, mas era essa a ideia. Naquela época, eu, impressionado pelo revertério que ocorrera na economia brasileira com a maxidesvalorização de 1983, via no saldo da Balança Comercial a salvação da lavoura. O déficit comercial dos Estados Unidos era uma prova da riqueza do país.
    Sim, o saldo na Balança Comercial era sinônimo de nossa pobreza (aliás ficamos rico no plano cruzado e o saldo acabou), mas era a forma mais rápida de enriquecermos. O Japão, com a base industrial desenvolvida em muito no início do século XX, a Coreia já bem depois e a China nos dias atuais é a confirmação da relevância das exportações para reforçar o crescimento econômico.
    É claro que nem tudo são flores para os países exportadores. Radicalizando, poderia dizer que é preciso que o povo seja pobre para que se consiga exportar mais do que se importa. Ocorre que o crescimento econômico é gerador de desenvolvimento humano. Há um peso muito grande do PIB no iDH. E não era preciso. O aumento da produção gera moradias, água tratada, esgoto, educação de melhor qualidade, melhor atendimento de saúde, e assim vai de tal forma que se retirasse o PIB, o iDH persistiria como valor elevado.
    Talvez já faça mais de 20 anos que eu acompanho o Michael Pettis predizer o problema do consumo doméstico chinês reduzido. E lembro do Paul Krugman defendendo a riqueza do mercado consumidor americano. Ocorre que nenhum dos dois mencionam uma diferença nos efeitos que os dois mercados causam no mundo, em especial nos países pobres. E esse é também o senão que eu vejo no seu texto.
    A China para continuar aumentando as exportações precisa ajudar os países pobres a enriquecerem. Quanto mais ricos forem os pobres, mais a China terá condições de vender para esses países. Enquanto formos pobres nós devemos desejar que a China precise cada vez mais de aumentar as exportações, pois para isso ela terá que contar que países como o Brasil sejam cada vez menos pobres.
    E isso sem contar que o modelo de crescimento dos Estados Unidos puxado pelo mercado interno, prescinde de os países pobres se tornarem ricos. Aliás ao contrário, quando eles precisam combater qualquer aumento de preço nos Estados Unidos, como fizeram no final da década de 70 e início de 80, que repercutiu na crise do México em 82 e em outros países, em 93, com a crise do México em 1994 e suas repercussões em outros países em especial nos Tigres Asiáticos e depois na Rússia em 1998 e que chegou até 2022 com a crise na Argentina e no Brasil, e depois com a crise invertida de 2008, pois aí, o que se viu foram juros negativos, mas que atrasou o avanço econômico dos países pobres e que culminou com a queda dos preços das commodities em 2014 e a desvalorização em seguida da moedas de vários países pobres diante da ameaça do aumento dos juros nos Estados Unidos.
    Assim o modelo de crescimento dos Estados Unidos a partir do mercado interno é que aparentemente é bom para os países pobres pois fomenta as exportações é ruim na medida em que os países pobres não podem enriquecer muito, pois isso inviabilizaria que os Estados Unidos comprassem mercadorias a preço barato. E o modelo Chinês que aparentemente é ruim para os países pobres, é bom na medida em que os países pobres precisam cada vez mais se tornarem mais ricos para que a China consiga exportar para eles. Nesse sentido é de se esperar que a China invista cada vez mais nos países pobres.
    Abraços,
    Clever Mendes de Olvierai
    BH, 23/07/2026

  2. Excelente artigo. Tenho ranço contra os antigos e novos colonialistas. O nosso Brasil precisa mudar o rumo significativamente. Necessitamos nos guiar por ideias como do autor, recordando ainda Celso Furtado, Romulo de Almeida e Ignacio Rangel e mais recentemente Bresser-Pereira. Vamos à virada, não precisamos “apagar” a fazenda e as minas mas dar prioridade a um verdadeiro desenvolvimentismo que não seja acossado por interesses da Faria Lima.

  3. Paulo Gala,
    Fiz um comentário para este seu post mas não o vi na relação de comentários.
    Abraços,
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 26/07/2026

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