A revolução do shale gas nos EUA: uma história da sinergia entre estado, universidades e setor privado.

*escrito por Saulo Bertolino dos Santos

Em dezembro de 2015 um importante fato marcou o noticiário global: o então presidente dos EUA, Barack Obama, assinou um projeto de lei banindo as restrições existentes às exportações de petróleo, que haviam sido impostas ao país há 40 anos atrás pelo “Energy Policy and Conservation Act” em 1975 como consequência direta do choque do Petróleo de 1973. O fim destas restrições só foi possível devido ao então recente sucesso na exploração de gás e óleo não convencionais nos chamados shale gas e shale oil nas bacias terrestres norte americanas. Apesar de exaltado pela mídia como “The Shale Gas Revolution” o então recente sucesso tecnológico foi fruto de uma longa jornada envolvendo esforços e investimentos públicos em conjunto com universidades e representantes do setor privado.

O início do processo também foi consequência dos choques do petróleo dos anos 70. Além disso soma-se o fato de que a produção de gás natural havia começado a entrar em declínio nos EUA (Shellenberger, et al.,2012). É neste contexto que é criado – a partir da junção de várias agências menores existentes – o Departamento de Energia dos EUA (em inglês: DOE – Departament of Energy) em 1977 (Soeder, 2018). Uma das missões primárias designadas ao DOE era encontrar soluções tecnológicas para a crise energética, e dentro desta diretriz a pesquisa doméstica por fontes fósseis alternativas, (Schrider & Wise,1980). O começo propriamente dito se deu pelo projeto Eastern Gas Shale Project (EGSP), criado em 1975 por uma destas agências predecessoras ao DOE e envolveu, além das agências e institutos do governo, universidades e empresas do setor de gás dos estados da Pensilvânia e West Virginia (Shellenberger, et al.,2012). As principais frentes do projeto sob responsabilidade do DOE foram: caracterização dos recursos, desenvolvimento de tecnologia de produção e transferência dessa tecnologia para a indústria (Cobb & Wilhelm,1982). Como o principal desafio neste tipo de exploração se deve as características geológicas das rochas portadoras dos hidrocarbonetos – shale (em português folhelho) é uma rocha argilosa de baixíssima permeabilidade, sendo, portanto, difícil a produção econômica dos hidrocarbonetos neste tipo de rocha – foi constatado já nos anos 80 que para se produzir comercialmente a partir destes reservatórios era necessário o fraturamento destas rochas para aumentar a permeabilidade (Soeder, 1988).

Um dos pioneiros e entusiastas do setor privado no desenvolvimento do shale gas nas bacias terrestres norte americanas foi George Mitchell, co-fundador da Mitchell Energy (Soeder 2017). Mitchell se envolveu na iniciativa desde os primeiros dias do EGSP cooperando com o DOE na perfuração de poços na Bacia dos Apalaches. Inclusive deve-se ressaltar que ele, juntamente com outros representantes da indústria, passou grande parte da década de 80 defendendo o programa de P&D de energia fóssil do DOE, devido às pressões do Congresso Americano com objetivo de encerramento do programa devido ao baixo preço do petróleo no momento (Shellenberger, et al.,2012). Seu maior interesse era a produção de gás a partir do Barnett Shale na bacia de Fort Worth no Texas. A Mitchell Energy investiu ao longo de 18 anos no desenvolvimento de técnicas de perfuração e estimulação de reservatórios, e após todo este tempo, conseguiu desenvolver técnicas de perfuração horizontal, combinadas com fraturamento hidráulico em múltiplos estágios (isto é, fraturamento da formação de shale em várias seções do poço) para obter sucesso econômico e comercial na primeira década do século 21, quando furou seu primeiro poço horizontal de longo alcance em 2003, e assim começar, efetivamente, a “revolução” do shale gas (Martineau, 2007).

Fonte: Shellenberger, M. et al. Where the Shale Gas Revolution Came From. (Oakland, California: Breakthrough Institute, May 2012)

 

Referencias

https://money.cnn.com/2016/01/29/investing/us-oil-exports-begin/

https://money.cnn.com/2015/12/16/investing/oil-prices-export-ban-congress-deal/?iid=EL

 

Cobb, L.B., Wilhelm, M., 1982. Eastern Gas Shales Project: Appalachian, Illinois and Michigan Basin Coring, Logging, and Well Evaluation Program. U.S. Department of Energy, p. 135 report DO E/MC/08382-1247.

Martineau, D.F., 2007. History of the Newark east field and the Barnett shale as a gas reservoir. Am. Assoc. Petrol. Geol. Bull. 91, 399–403.

Schrider, L.A., Wise, R.L., 1980. Potential new sources of natural gas. J. Petrol. Technol.703–716. April 1980.

Shellenberger, M. et al. Where the Shale Gas Revolution Came From. (Oakland, California: Breakthrough Institute, May 2012)

Soeder, D. J. (1988) Porosity and permeability of eastern Devonian gas shale, SPE Formation Evaluation, Vol. 3, No. 2, p. 116-124, DOI 10.2118/15213-PA.

Soeder, D.J., 2017. Unconventional: the Development of Natural Gas from the Marcellus Shale. GSA Special Paper 527. Geological Society of America Books, Boulder, CO, p. 143.

Soeder, D.J., 2018.The successful of development of gas and oil resources from shale in North America. Journal of Petroleum Science and Engineering 163 (2018) 399–420.

 

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