Durante a Grande Depressão dos anos 1930, o presidente Franklin D. Roosevelt implementou um conjunto de políticas públicas conhecido como New Deal, voltado à recuperação da economia americana por meio da ação direta do Estado. Essas medidas incluíram grandes investimentos públicos em infraestrutura, programas de emprego, subsídios e expansão da liquidez. A estratégia combinava política fiscal expansionista — com obras públicas e aumento do gasto governamental — e política monetária expansionista, com taxas de juros próximas de zero e aumento da oferta de crédito.
Embora essas ações tenham sido inicialmente tomadas com base no pragmatismo político e nas urgências da crise, elas foram posteriormente sistematizadas e justificadas teoricamente por John Maynard Keynes em sua obra seminal A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada em 1936. Nesse livro, Keynes rompe com o pensamento econômico clássico ao argumentar que a economia pode permanecer indefinidamente em um estado de desemprego elevado se a demanda agregada — composta por consumo, investimento e gasto público — for insuficiente. Nesses casos, o Estado deve intervir de forma ativa para estimular a atividade econômica.
Keynes defendeu que, diante da retração do investimento privado em momentos de crise, o governo deve ocupar esse espaço com investimento público. Ele também argumentou que políticas monetárias — como a redução da taxa de juros — nem sempre são eficazes sozinhas, especialmente em situações de “armadilha da liquidez”, quando os agentes preferem manter dinheiro parado por falta de confiança no futuro. Nesses casos, apenas a política fiscal ativa, com aumento deliberado do gasto público, seria capaz de restaurar o pleno emprego e a retomada do crescimento.
Assim, enquanto Roosevelt aplicou empiricamente os instrumentos de intervenção estatal para combater a depressão, Keynes ofereceu a base teórica que legitimou essa nova forma de pensar a economia. A partir da Teoria Geral, a atuação do Estado deixou de ser vista como uma interferência indesejada no mercado e passou a ser compreendida como um instrumento essencial para garantir estabilidade econômica e social.
Os ecos dessa revolução keynesiana ressurgiram com força nas crises mais recentes. Em 2008, diante do colapso do sistema financeiro global, os Estados voltaram a intervir maciçamente na economia. Governos implementaram pacotes de estímulo fiscal, nacionalizaram bancos em dificuldade e reduziram drasticamente as taxas de juros — ações em consonância com a doutrina keynesiana. Mais uma vez, revelou-se que, em momentos de retração severa, apenas o setor público tem capacidade de resposta rápida e abrangente para evitar o colapso do sistema.
Durante a crise provocada pela pandemia da COVID-19, o papel do Estado foi ainda mais evidente. Políticas fiscais expansionistas — como subsídios diretos à população, moratórias de crédito e programas de apoio ao emprego — foram adotadas em escala global. Bancos centrais também adotaram medidas extraordinárias, como programas de compra de ativos e taxas de juro negativas. A urgência em proteger vidas e preservar o tecido econômico-social reforçou o papel central do Estado como garantidor de última instância.
Portanto, tanto em 2008 quanto em 2020, os fundamentos keynesianos mostraram-se mais atuais do que nunca. As ideias de Keynes continuam a servir como bússola teórica para enfrentar choques sistémicos, mostrando que, em tempos de crise, a presença forte e coordenada do Estado é não só desejável, mas essencial para restaurar a confiança, proteger os mais vulneráveis e assegurar a recuperação económica.

