Os dados de capital natural per capita mostram um retrato bem diferente daquele da produtividade agrícola. Aqui não estamos medindo eficiência ou tecnologia no campo, mas sim o estoque de riqueza natural por habitante — isto é, o valor dos ativos naturais de um país dividido pela população. Na metodologia do Changing Wealth of Nations 2024, do Banco Mundial, esse capital natural inclui ativos renováveis e não renováveis, e os valores são apresentados em US$ reais encadeados de 2019, com referência mais recente em 2020.
Com esse critério, o Brasil aparece em 35º lugar no mundo, com cerca de US$ 11,4 mil de capital natural por habitante. Isso coloca o país acima dos Estados Unidos, que aparecem em 47º, e muito acima de Argentina e Índia, mas praticamente lado a lado com a China, que surge em 34º, um pouco à frente do Brasil. Esse resultado já diz muito: o Brasil é um país muito rico em recursos naturais, mas sua população também é grande, o que reduz sua posição quando a conta é feita por habitante.
O caso brasileiro é interessante porque ele combina uma base natural extraordinariamente diversificada: terra agrícola, água, florestas, minérios, energia e biodiversidade. Poucos países têm simultaneamente essa amplitude de ativos. Ainda assim, o ranking per capita mostra que essa abundância, por si só, não coloca o Brasil entre os líderes absolutos. Países com população pequena e recursos muito valiosos, como Qatar, Austrália, Emirados Árabes Unidos e Noruega, acabam muito à frente no ranking mundial.
Isso ajuda a entender por que o Brasil é frequentemente visto como uma potência natural, mas não necessariamente como uma potência de renda alta. Ter recursos naturais per capita relativamente elevados não garante, sozinho, alta produtividade, sofisticação econômica ou riqueza generalizada. O desafio central é transformar essa base natural em valor agregado, tecnologia, indústria, energia competitiva e cadeias produtivas complexas. Em outras palavras: a dotação natural brasileira é forte; o problema histórico está em converter essa vantagem em desenvolvimento sustentado. Essa leitura é consistente com a própria lógica das contas de riqueza do Banco Mundial, que distinguem capital natural de outros pilares da riqueza nacional, como capital produzido e capital humano.
A comparação com outros países reforça esse ponto. A China, mesmo com enorme população, aparece praticamente empatada com o Brasil porque combinou sua base material com industrialização massiva e transformação estrutural. Os Estados Unidos, embora tenham capital natural per capita menor que o Brasil nesse recorte, compensam isso com muito mais capital tecnológico, produtivo e institucional. Já a Índia, que aparece bem abaixo, evidencia o efeito de uma população gigantesca diluindo os recursos por habitante. O caso da Argentina também é instrutivo: apesar de sua força agropecuária, ela fica muito atrás do Brasil nesse ranking específico de capital natural per capita.
No fundo, o dado mais importante sobre o Brasil é este: o país não é pobre em recursos; ao contrário, é relativamente bem dotado em termos internacionais. O ponto decisivo é o uso econômico dessa riqueza. A agenda estratégica brasileira não deveria ser apenas “ter recursos”, mas usar recursos para construir complexidade produtiva, elevar a produtividade e aumentar a renda. Esse é o passo que separa economias com grande patrimônio natural de economias que, além disso, conseguem transformar natureza em prosperidade duradoura.
Qatar — US$ 244.368
Austrália — US$ 132.706
Emirados Árabes Unidos — US$ 96.414
Nova Zelândia — US$ 80.047
Suriname — US$ 52.140
Noruega — US$ 48.786
Omã — US$ 44.782
Guiana — US$ 42.459
Canadá — US$ 32.295
Iraque — US$ 31.382
Islândia — US$ 28.469
Cazaquistão — US$ 25.837
Laos — US$ 24.141
Rússia — US$ 24.103
Chile — US$ 23.952
Suécia — US$ 23.164
Ilhas Salomão — US$ 22.528
Papua-Nova Guiné — US$ 22.207
Mongólia — US$ 20.784
Irã — US$ 18.855
Gabão — US$ 18.679
Kuwait — US$ 18.571
Finlândia — US$ 18.004
Brunei — US$ 17.676
Arábia Saudita — US$ 17.477
Belize — US$ 16.832
Bolívia — US$ 15.107
Mianmar — US$ 14.955
Mauritânia — US$ 14.131
Estados Federados da Micronésia — US$ 13.726
Trinidad e Tobago — US$ 13.383
Equador — US$ 13.190
Uruguai — US$ 12.207
China — US$ 11.497
Brasil — US$ 11.364
Essuatíni — US$ 11.238
Libéria — US$ 11.216
Namíbia — US$ 11.200
Azerbaijão — US$ 10.351
Paraguai — US$ 10.115
Dinamarca — US$ 9.829
Botsuana — US$ 9.644
Estônia — US$ 9.475
Turcomenistão — US$ 9.319
Peru — US$ 9.204
Congo, Rep. — US$ 9.121
Estados Unidos — US$ 8.624
Vietnã — US$ 8.385
Colômbia — US$ 8.111
Coreia do Sul — US$ 7.994

