A situação de contas externas do Brasil continua sólida

A situação brasileira de contas externas hoje é muito melhor do que nas crises dos anos 1970, 1980 e 1990. Temos reservas internacionais robustas e nossa dívida externa pública é muito baixa. O déficit externo em conta corrente de 2021 fechou próximo de 1,75% do PIB, abaixo do volume que entrou de investimento direto externo. O superávit da balança comercial do último ano foi de US$ 61 bilhões muito beneficiado pela explosão do preço de commodities que continua em 2022. Nossas reservas cambiais subiram de US$ 355 bilhões em 2020 para US$ 362 bilhões em 2021. A alta foi registrada depois de o FMI depositar US$ 15 bilhões nas reservas brasileiras graças a um pacote de ajuda do FMI aos países-membros do fundo na pandemia de covid-19. O estoque de swaps cambiais do BC (posição vendida em dólar) terminou o ano em U$60 bilhões, levando nossa conta de reservas líquidas para U$300 bilhões, um número ainda robusto. A grande acumulação de reservas cambiais entre 2004 a 2013 acabou aumentando a potência de intervenção do BC no mercado de câmbio via swaps ou leilões reversos para domar a trajetória do real. Essa posição robusta de reservas e a utilização de um regime de câmbio flutuante administrado provou-se muito mais eficiente para nos proteger de crises.

Quando quebramos em 1982, por exemplo, nossas reservas estavam praticamente zeradas. No colapso do plano cruzado tínhamos uma dívida externa que era quase 50% do PIB. No choque do petróleo dos anos 70, nosso déficit em conta corrente foi quase a 7% do PIB. Por esse prisma estamos bem tranquilos ainda. Em uma comparação internacional, nossa situação também não é má. Nossa taxa de câmbio ainda está na posição mais desvalorizada dos últimos 20 anos quando levamos em consideração o que aconteceu com as outras moedas e com a inflação no Brasil e no mundo; aquilo que os economistas chamam de “câmbio real efetivo”. Se isso for verdade, pelo padrão histórico, a tendência é que a moeda brasileira ganhe valor ao longo dos próximos anos. O Brasil está bem melhor do que países emergentes frágeis. Nos últimos 10 anos os governos brasileiros trocaram o passivo externo público de dólares para reais; trocaram a dívida externa por dívida interna. O custo da dívida interna hoje subiu muito e deve chegar aos 10%, mas ainda assim será sempre financiada em reais e não em dólares. O problema de ter muita dívida externa pública é que sem reservas e com fuga de capitais o dólar dispara e leva junto a inflação. Exatamente o que ocorre hoje na Argentina e Turquia.

O grande risco de déficits em conta corrente está, como sabemos, na necessidade de financiamento externo para fechar a conta de dólares. Se nosso comércio externo não é capaz de gerar dólares para pagar as contas de rendas, sobra para a conta capital fazer o financiamento do balanço de pagamentos. Ou seja, passamos a depender de fluxos de capitais estrangeiros que vem para Bolsa e para títulos brasileiros para ajudar a fechar esse gap externo. O problema dessa estratégia é que são dólares emprestados que vêm, e não genuínos, fruto de exportações de bens e serviços bem maiores do que importações. A atração de capitais aumenta nosso passivo externo e passamos a dever mais para os estrangeiros. Enquanto estão otimistas, há financiamento farto. Mas, no caso de uma reversão de humor, o estrago é grande. Foi o que vimos no Brasil em 1999, 2002, 2008 e 2015 e 2021. Foi também o que ocorreu com Argentina e Turquia recentemente, para não mencionar o México em 1995 e a Ásia em 1997. Os países do leste asiático, Tailândia, Malásia, Indonésia, Coréia do Sul quebraram em 1997 com déficits em conta corrente que variavam entre 5% e 10% do PIB.

Na rota clássica de uma crise de balanço de pagamentos, o déficit em conta corrente vai aumentando até o ponto em que os estrangeiros deixam de financiar o país com fluxos de capitas. Foi assim com México, Brasil, Argentina, Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia na década de 1990, com consequências dramáticas para esses países em termos de queda do PIB, desvalorização do câmbio e queda da Bolsa. Em todas essas rotas, especialmente na Ásia, quatro vetores foram fundamentais: o aumento explosivo dos déficits em conta corrente, o crescimento forte do crédito, a bolha nos preços dos imóveis e a bolha nos preços acionários. O motor dessas bolhas macroeconômicas foi, principalmente, a liquidez farta, a forte expansão do crédito doméstico e a queda dos juros reais. Eventualmente, o déficit externo atingiu níveis insuportáveis, de 5% do PIB ou mais, e quando o fluxo de capital externo secou, todos caminharam para uma crise externa: o México em 1995, o Brasil em 1999, a Argentina em 2001, a Tailândia, a Coreia, a Malásia e a Indonésia em 1997. O Brasil de 2008 a 2014 preencheu alguns dos requisitos. O déficit em conta corrente subiu para mais de 4% do PIB e o crédito mais do que dobrou, de 25% para quase 60% do PIB. Os preços imobiliários subiram de forma impressionante. Em 2015 a crise veio com força em um contexto de aceleração inflacionária, incertezas políticas e grande deterioração das contas públicas e externas. Hoje nossa situação é bem diferente. A situação de contas externas do Brasil continua bastante sólida e tende a melhorar ainda mais graças ao novo boom de preços de commodities resultante da pandemia de Covid e mais recentemente do conflito entre Rússia e Ucrânia. Ademais a entrada de capitais estrangeiros no país em 2022 está impressionante. Estamos hoje numa situação mais próxima de sobra e não falta de dólares.

 

Ideias chave:

1)A situação brasileira de contas externas hoje é muito melhor do que nas crises dos anos 1970, 1980 e 1990

 2)Temos reservas internacionais robustas e nossa dívida externa pública é muito baixa

 3)O superávit da balança comercial do ultimo ano foi de US$ 61 bilhões muito beneficiado pela explosão do preço de commodities que continua em 2022

 4)Estamos hoje numa situação mais próxima de sobra e não falta de dólares.

 5)Pelo padrão histórico a tendência é que a moeda brasileira ganhe valor ao longo dos próximos anos

link:

https://valor.globo.com/patrocinado/banco-master/noticia/2022/03/15/a-situacao-de-contas-externas-do-brasil-continua-solida.ghtml

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