*escrito com Daniel Bispo de Souza
A resposta curta é: não. A Suécia não enriqueceu com o socialismo — ela enriqueceu com capitalismo, industrialização e um Estado desenvolvimentista, muito antes de se tornar referência em bem-estar social.
Entre 1850 e 1950, a Suécia passou por um verdadeiro salto econômico. Foi nesse período que o país saiu da pobreza agrária para se tornar uma economia industrial moderna. Curiosamente, essa fase de crescimento intenso ocorreu antes da criação do Estado de bem-estar social sueco. Em 1870, o gasto público era de apenas 8% do PIB. Em 1950, havia subido para 22%. Só nas décadas seguintes, especialmente entre os anos 1960 e 1980, o gasto público ultrapassaria os 50% do PIB — patamar em que se encontra hoje.
Durante seu processo de enriquecimento, a Suécia não era socialista, nem liberal no sentido atual, mas adotou uma estratégia de capitalismo soberano, com forte coordenação estatal. O Estado sueco criou grandes estatais, estatizou setores estratégicos como energia e mineração, protegeu sua indústria nascente com tarifas alfandegárias (em torno de 20% entre 1885 e 1940), investiu em infraestrutura e fomentou a inovação tecnológica nacional.
Ao mesmo tempo, surgiu um setor privado pujante, com empresas como Volvo, Ericsson, Saab e SKF, capazes de competir com gigantes estrangeiros. O segredo? Um ambiente protegido no início, com políticas industriais ativas, até que essas empresas ganhassem escala e sofisticação. Desde a década de 1950, com o setor produtivo consolidado, as tarifas foram sendo reduzidas. Hoje, são baixíssimas — entre 1,3% e 1,9%.
Ou seja, a Suécia não cresceu com distribuição de renda via transferências públicas, mas sim com formação de capacidade produtiva doméstica. O Estado sueco naquela época não era um distribuidor de auxílios, mas sim um indutor do desenvolvimento industrial, tecnológico e exportador.
O modelo sueco prova que o capitalismo desenvolvimentista, e não o assistencialismo, é o caminho para o enriquecimento nacional. Criar dependência de auxílios sem antes criar uma base produtiva sólida é inverter a ordem do progresso. E o Brasil infelizmente inverteu essa ordem muitas vezes.
A Suécia de hoje é rica porque construiu riqueza produtiva ontem. O bem-estar veio depois do desenvolvimento, não antes.
Aqui estão exemplos concretos de estatizações e intervenção direta do Estado sueco na economia, especialmente durante a fase de desenvolvimento entre o final do século XIX e meados do século XX — um período marcado por um capitalismo desenvolvimentista, e não por socialismo:
1. LKAB – Mineração estatal
A LKAB (Luossavaara-Kiirunavaara Aktiebolag) é uma das principais mineradoras de ferro do mundo, criada em 1890. O governo sueco passou a controlar a empresa a partir de 1907 e, desde 1957, ela é 100% estatal. Foi estratégica para controlar recursos naturais e abastecer a indústria nacional.
2. Vattenfall – Energia elétrica estatal
Criada em 1909, a Vattenfall (cujo nome significa “cachoeira”) foi uma empresa estatal responsável por desenvolver o setor de energia elétrica da Suécia. A empresa liderou a hidroeletrificação do país e, posteriormente, o desenvolvimento de energia nuclear. É 100% estatal até hoje, sendo um pilar da segurança energética sueca.
3. SJ – Ferrovias estatais
A Statens Järnvägar (SJ), ou Ferrovias do Estado Sueco, foi fundada em 1887 como empresa estatal. Foi responsável pela construção, operação e integração da malha ferroviária. A SJ desempenhou papel essencial na integração territorial, transporte de cargas industriais e mobilidade urbana até os anos 1990, quando foi parcialmente reestruturada.
4. Televerket – Telecomunicações estatais
O Televerket, criado em 1853 e estatal desde o início, foi o órgão responsável por desenvolver a infraestrutura de telefonia na Suécia. A empresa tinha monopólio estatal de telecomunicações até os anos 1990, quando virou a Telia (posteriormente privatizada em parte). Foi decisiva para a digitalização e o avanço tecnológico do país.
5. Saab – Indústria de defesa com apoio estatal
Embora a SAAB tenha sido criada como empresa privada em 1937, o Estado sueco teve participação direta no seu financiamento e desenvolvimento, especialmente no setor aeronáutico e bélico. O Estado comprava quase toda a produção, garantindo demanda estável e fomentando inovação tecnológica estratégica.
6. Universidades e centros de pesquisa
O Estado sueco estatizou o sistema de ensino superior e investiu pesado em pesquisa aplicada, criando centros ligados a indústrias-chave (engenharia, farmacêutica, eletrônica). Exemplos: Instituto Real de Tecnologia (KTH), Universidade de Uppsala, entre outros.
7. Investimentos estatais em empresas privadas
O Estado sueco, via bancos públicos e fundos estatais, injetou capital e forneceu crédito direcionado para empresas como Ericsson, ASEA (hoje ABB), SKF e Volvo em períodos críticos de crescimento. Muitas dessas empresas não eram estatais, mas dependiam de apoio público direto e indireto.
Esses exemplos mostram que a Suécia estatizou setores estratégicos, usou o poder estatal para organizar o desenvolvimento industrial e criou um ambiente favorável à formação de empresas nacionais fortes. Não se tratava de socialismo, mas de um capitalismo coordenado com forte papel do Estado.


Excelente resumo, muito bom, é o que todos esperamos que nosso País alcance um dia “Capitalismo, industrialização e um Estado desenvolvimentista”, esse nosso assistencialismo doentio, extravagante, está destruindo nosso País!
Isso não é verdade, pois, houve emigração, principalmente, para os Estados Unidos e Canadá… Houve sim rearranjos muito fortes para a sobrevivência do mercado da Suécia, com a perda de grande números de agricultores, aliás, gabaritados, que muitos engrandeceram em alguns estados, hoje potências agrícolas, dos Estados Unidos, e dos artesães suecos que fizeram muitas faltas à indústria ainda que muito fez falta com a ausência desses profissionais que se emigraram… A migração para os Estados Unidos foi uma forma de escapar da pobreza e das dificuldades na Suécia, ainda no século XIX e início do século XX… Além do mais, em toda a história da Suécia, mesmo com a intensa migração para as cidades devido à industrialização, contudo, continuava péssimas condições de trabalho, por isso, continuava a grande emigração para os Estados Unidos e Canadá… É tanto que no início do século XX, a Suécia era um dos países com o maior número de greves por ano, devido às péssimas condições de trabalho nas “indústrias” suecas… É isso…
Prof.Paulo Gala, sobre os conceitos de “assistencialismo e benefícios” praticados pelo estado brasileiro:
Se considerarmos que Bolsa Família e demais programas sociais se enquadram no conceito “assistencialismo e benefícios”, quantos % do PIB eles consomem e quais seus impactos e retornos na distribuição de renda, no consumo das família e empresas e custo x beneficio para a nação? Seguindo a mesma lógica, quais os percentuais dos juros e serviços da dívida pública sobre nosso PIB e a comparação de seus efeitos e impactos para a nação brasileira.
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