A Suíça Não se Desindustrializou — Ela Ficou 20x Mais Rica que o Brasil em Manufatura per Capita


Existe um argumento recorrente nos debates sobre desindustrialização que merece ser confrontado com dados. O raciocínio vai mais ou menos assim: “países ricos também desindustrializaram — olha a Suíça, a manufatura caiu de 22% para 18% do PIB”. O argumento usa a queda da participação percentual da indústria no produto como evidência de que perder indústria é um processo natural e inevitável do desenvolvimento. Há um equívoco fundamental embutido aí.

O Problema de Medir em % do PIB

Quando um país se torna muito rico, o setor de serviços cresce de forma desproporcional — e parte disso não reflete produtividade real, mas sim inflação de preços de serviços não-comercializáveis. Médico em Zurique cobra 10 vezes mais do que médico em São Paulo não porque seja 10 vezes mais produtivo, mas porque vive numa economia onde todos os preços são altos. Esse fenômeno, conhecido como efeito Balassa-Samuelson, distorce a leitura da participação setorial quando feita em preços correntes nominais.

O gráfico da Suíça (manufatura % PIB: nominal vs. constante, 1970–2024) mostra exatamente isso. Em preços nominais correntes em Franco Suíço, a participação da manufatura caiu de cerca de 22–23% nos anos 1970 para aproximadamente 18% em 2024. Parece uma queda relevante. Mas quando se olha para preços constantes em USD 2020 — ou seja, o que a indústria suíça realmente produz em volume —, a série não só é mais estável como termina o período acima de onde começou, em torno de 20% do PIB real. A manufatura suíça não encolheu. Ela foi diluída nominalmente pelo encarecimento dos serviços.

O caso brasileiro é o oposto e o contraste é brutal.

Brasil: Desindustrialização Que É Real em Qualquer Medida

O gráfico do Brasil (manufatura % PIB: nominal vs. constante) conta uma história sem ambiguidade. Em preços nominais, a participação industrial chegou a superar 32% nos anos 1970 e início dos 1980 — auge do II PND —, para depois desabar para cerca de 10–13% nos anos mais recentes. Mas o dado mais revelador é o da série em preços constantes: ela também cai, consistentemente, de cerca de 18% nos anos 1970 para aproximadamente 10% hoje. Não há ilusão de preços aqui. O Brasil perdeu indústria em termos reais, em volume físico de produção, não apenas como reflexo do barateamento relativo dos manufaturados frente a serviços inflacionados.

A desindustrialização brasileira é, portanto, precoce e genuína. Ocorreu num nível de renda per capita muito inferior ao que historicamente caracteriza esse processo em países desenvolvidos — o que a literatura chama de premature deindustrialization, na linha de Dani Rodrik.

O Dado que Tudo Revela: Manufatura per Capita

Mas a comparação mais poderosa não está nos gráficos de participação percentual. Está na tabela de manufatura per capita em USD correntes (2024): País Manufatura per capita Suíça USD 18.652 Alemanha USD 9.834 Coreia do Sul USD 9.652 EUA USD 8.449 Japão USD 6.653 China USD 3.326 BrasilUSD 1.231

A Suíça produz USD 18.652 per capita em manufatura. O Brasil produz USD 1.231. A razão é de 15 para 1 — e se ajustarmos pelo fato de que os serviços suíços inflam o denominador do PIB (tornando a participação % menor do que seria em termos reais), a distância em volume físico de produção industrial é ainda maior. Considerando paridade de poder de compra, falamos de uma diferença que pode facilmente superar 20 vezes.

Isso significa: cada suíço carrega sobre seus ombros uma base industrial que produz o equivalente a 15–20 brasileiros. Não é que a Suíça tenha “trocado” indústria por serviços de alto valor. É que ela construiu uma indústria de altíssima complexidade e manteve-a — Nestlé, Roche, Novartis, ABB, Schindler, Sulzer, Rieter — enquanto turbinou os serviços financeiros e de consultoria em cima dessa base produtiva real.

Suíça tem 20% manufaturas e 80% serviços no PIB. Agora vamos imaginar que os serviços na Suíça em dólar custam o dobro dos serviços no Brasil. Vamos dividir 80% /2 e teremos o setor de serviços representando 40% do PIB suíço e as manufaturas 60%! (*assumindo preços tradables na manufatura e non tradable nos serviços).

Complexidade Econômica e a Posição do Brasil

O scatter do PDF (Manufatura per Capita × ECI — 100 países, 2024) fecha o argumento com precisão analítica. O eixo horizontal é o Índice de Complexidade Econômica (Harvard Growth Lab, 2021); o eixo vertical é manufatura per capita em escala logarítmica. A correlação é forte (R²=0,415 na tendência log-lin) e a mensagem é clara: países mais complexos produzem mais manufatura por habitante.

A Suíça aparece no canto superior direito — máxima complexidade, máxima manufatura per capita. O Brasil aparece no meio do gráfico: complexidade levemente positiva, mas manufatura per capita ao redor de USD 1.000, muito abaixo da linha de tendência esperada para seu nível de ECI. O Brasil está abaixo da curva — dado seu grau de diversificação produtiva, deveria ter mais indústria do que tem.

Argentina e Bangladesh aparecem no scatter como comparativos interessantes. Bangladesh, com complexidade negativa, produz manufatura per capita comparável ao Brasil — o que ilustra o dilema: o Brasil tem estrutura produtiva razoavelmente diversificada mas não consegue traduzir isso em volume industrial por habitante. A desindustrialização prematura corrói exatamente esse elo.

O Que Está em Jogo

O debate sobre desindustrialização no Brasil frequentemente se perde em discussões sobre participação percentual no PIB, que são conceitualmente problemáticas pelas razões acima expostas. O dado que importa — o que cada cidadão efetivamente produz em bens industriais — coloca o Brasil numa posição de enorme atraso em relação não apenas a países ricos, mas também a emergentes como China (USD 3.326) e Coreia do Sul (USD 9.652).

A Coreia do Sul, frequentemente citada como modelo de catching-up industrial, produz 8 vezes mais manufatura per capita do que o Brasil. A China, que ainda é um país de renda média baixa em termos per capita, produz quase 3 vezes mais.

A Suíça não é um exemplo de que indústria não importa para países ricos. É exatamente o contrário: é a prova de que os países que chegaram ao topo construíram e mantiveram bases industriais de altíssima complexidade. A aparente queda da participação percentual da manufatura suíça no PIB é uma ilusão estatística gerada pelo encarecimento dos serviços numa economia de alta renda. Em termos reais e per capita, a Suíça é a nação mais industrializada do mundo.

O Brasil precisa dessa leitura com clareza. Não para romantizar o passado industrial do II PND, mas para entender que o caminho para a renda alta passa inevitavelmente por reconquistar densidade industrial — e que países que abriram mão disso prematuramente pagam o preço em décadas de estagnação relativa.


Fontes: UNSD/SNAAMA (manufatura nominal em moeda local, 2024); BCE (câmbio médio anual 2024); UN WPP 2024 (população); Harvard Growth Lab / World Population Review (ECI 2021); Banco Mundial (séries de manufatura % PIB nominal e constante).

Diferença entre participação da indústria nominal e real no PIB para 100 países em 1970:

Global haircut índex:

Segue a lista dos preços de corte de cabelo que aparecem no mapa. Um verdadeiro estudo geopolítico da tesoura. A humanidade inventou computadores quânticos mas continua cobrando US$ 64 por um degradê em Oslo. Fascinante.

País

Preço médio

Noruega

US$ 64,50

Suíça

US$ 42,63

Dinamarca

US$ 48,21

Islândia

US$ 51,09

Finlândia

US$ 46,13

Suécia

US$ 24,19

Alemanha

US$ 35,38

França

US$ 23,27

Reino Unido

US$ 35,34

Irlanda

US$ 16,69

Holanda

US$ 31,43

Bélgica

US$ 37,01

Luxemburgo

US$ 41,23

Espanha

US$ 21,08

Portugal

US$ 23,40

Itália

US$ 12,39

Grécia

US$ 14,79

Áustria

US$ 35,06

Polônia

US$ 23,34

República Tcheca

US$ 26,99

Hungria

US$ 14,52

Ucrânia

US$ 11,10

Rússia

US$ 16,66

Turquia

US$ 16,35

EUA

US$ 44,00

Canadá

US$ 24,28

México

US$ 9,60

Guatemala

US$ 13,51

Costa Rica

US$ 5,02

Panamá

US$ 12,00

Bahamas

US$ 15,00

Barbados

US$ 20,00

Trinidad e Tobago

US$ 11,00

Colômbia

US$ 10,65

Peru

US$ 9,78

Brasil

US$ 8,67

Paraguai

US$ 11,50

Argentina

US$ 3,15

Chile

US$ 16,41

Austrália

US$ 46,00

Nova Zelândia

US$ 20,34

Japão

US$ 20,34

Coreia do Sul

US$ 36,00

China

US$ 5,55

Índia

US$ 4,41

Paquistão

US$ 3,12

Bangladesh

US$ 1,43

Nepal

US$ 1,64

Sri Lanka

US$ 1,80

Vietnã

US$ 8,89

Filipinas

US$ 3,90

Indonésia

US$ 9,95

Tailândia

US$ 8,32

Malásia

US$ 7,43

Singapura

US$ 52,00

Emirados Árabes

US$ 20,34

Arábia Saudita

US$ 12,70

Israel

US$ 21,21

Egito

US$ 1,30

Nigéria

US$ 6,03

Gana

US$ 10,65

Congo

US$ 15,00

África do Sul

US$ 18,27

Quênia

US$ 4,54

Tanzânia

US$ 2,37

Moçambique

US$ 6,82

Zâmbia

US$ 1,63

Zimbábue

US$ 11,00

O mapa basicamente mostra uma correlação brutal entre renda per capita e serviços não tradables. Corte de cabelo não dá pra importar da China num container. Ainda. Então o preço reflete salário local, produtividade geral da economia e custo de vida. Em Oslo o barbeiro provavelmente cobra mais que muito engenheiro brasileiro. O capitalismo tem dessas pequenas humilhações estatísticas.

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