A Tragédia Socioambiental e a Necessidade de uma Neoindustrialização Sustentável

*escrito por Adão Villaverde

No contexto local e global que vivemos, ganha enorme valor e originalidade a nova política industrial brasileira, que está sendo redesenhada pelo atual governo, no âmbito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial – CNDI. Ela foi intitulada pelo neologismo “Neoindustrialização”, já que incorpora na sua concepção produtiva a intensividade dos avanços científicos, tecnológicos, inovativos e sustentáveis, resultados da inteligência e do saber, aquilo que é nominado de a disruptiva revolução 5.0 ou  Quinta Onda, que buscará mostrar que é possível crescer e se desenvolver, de forma combinada, com a proteção e a preservação do meio ambiente. O que conhecemos até aqui por “reindustrialização”, diz respeito ao apoio aos setores tradicionais de nossa manufatura nos moldes clássicos, qual seja, de um modelo que coloca o desenvolvimento a qualquer custo, em detrimento às questões sócio ambientais e outras, que trazem muitas vezes contenciosos enormes ao nosso ecossistema, abrindo caminho às tragédias gravíssimas, como esta que foi submetido o solo riograndense recentemente. As novas diretrizes desta política foram desenhadas superando lógicas anteriores, tipo as dos “campeões nacionais”, as das subvenções do tesouro com privilégios de renúncias fiscais a rodo, sem critérios, ou mesmo a das meras tentativas de reservas de mercados, sem suportes e apoios para responder a elas. E são orientadas por uma forte relação empresas-universidades, onde os ativos intangíveis da ciência, da tecnologia, da inovação e do campo ambiental e sustentável, informarão que este é o melhor caminho para transformar tudo isto em valor às organizações e à sociedade, realizando desenvolvimento econômico com inclusão social. Já dizia Einstein “é insanidade continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.  Não basta só recomeçarmos tudo de novo, teremos que fazê-lo de forma diferente, sobretudo como apontam tendências mundiais de países avançados no campo da transformação digital, das energias limpas e do desenvolvimento com sustentabilidade, ainda mais nestes tempos de eventos climáticos extremos. E sem deixar de considerar a importância da formação de pessoal, do preparo e qualificação profissional para os negócios e um olhar no mercado interno e nas exportações. Não é nada diferente disso, que fazem países com USA e China nestas épocas difíceis, com enormes subvenções públicas, sobretudo em setores intensivos em inovação e agregação de valor. Como é caso da indústria de semicondutores, onde o primeiro reserva mais de US$ 280 bilhões até o fim da década para investir, buscando retomar uma posição que hegemonizou outrora; e o segundo, na casa US$ 1,3 trilhão, para aquilo que Chris Miller nomina de a Chips War. Caminho fundamental para superarmos algo arraigado no minset industrial brasileiro, que em momentos de crise sempre opta pelo aprofundamento da lógica da reprimarização da economia e o extrativismo, cujo resultado é o caminho mais fácil, porém submisso e subordinado, de vender commodities agrícolas e importar produtos intensivos em inteligência, tecnologia e inovação. E não estaremos partindo do zero, não podemos deixar ou perder a oportunidade de usufruir das já reconhecidas competências e expertises nacionais que temos, por exemplo, na agroindústria e na intensividade energética limpa, seja ela solar, eólica ou em biomassa, aprofundando a necessidade de descarbonização. Fundamentalmente para alavancar os novos temas voltados aos insumos e equipamentos em técnicas de precisão, a economia circular, o próprio setor de semicondutores, a bioeconomia, a transição energética, a biodiversidade e os fármacos, as demandas por cidades inteligentes, a inteligência artificial, as tecnologias quânticas, a internet das coisas, dentre tantas outras. Este é um desafio que é missão sustentável de Nação, de Estado, não somente de governos, onde nossa sociedade não pode faltar. Substancialmente num momento que tanto necessitamos, como compromisso de soberania e altivez que devemos ter como cidadãos brasileiros, sobretudo com as gerações atuais e as que nos seguirão.

(*) Engenheiro e Professor de Gestão do Conhecimento e da Inovação da Escola Politécnica PUCRS

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