Há uma narrativa frustrante e comum sobre as mudanças climáticas. Ela diz que os países em desenvolvimento, que já sofrem os “impactos mais brutais” da crise, estão sendo forçados a “sacrificar oportunidades econômicas reais” para pagar por uma transição que não criaram. A injustiça dessa situação, como descreveu o cientista climático de Harvard, Dan Shrag, parece “um pouco absurda”. Afinal, a desigualdade nas emissões per capita é gritante — toda a África mal aparece no gráfico global, enquanto as nações ricas dominam o topo.
Mas e se essa perspectiva estiver completamente errada? E se a transição energética não for um fardo, mas a maior oportunidade de crescimento econômico para essas nações? Essa é a visão radical proposta pelo Harvard Growth Lab, que, com sua nova ferramenta “Greenplexity”, está redefinindo a forma como os países devem encarar o futuro da economia global.
- Mude o Foco: Pare de Perguntar Como Reduzir Suas Emissões e Comece a Perguntar Como Você Pode Descarbonizar o Mundo
A abordagem global tradicional para as mudanças climáticas, desde o Protocolo de Kyoto até o Acordo de Paris, tem se concentrado em cada país anunciar suas “contribuições nacionalmente determinadas” para reduzir suas próprias emissões. A lógica é que, se todos diminuírem sua parte, o problema global será resolvido.
Ricardo Hausmann, do Growth Lab, propõe uma reformulação fundamental dessa ideia. Ele argumenta que, para o mundo reduzir suas emissões, ele precisará de “muitas coisas”: novas tecnologias, minerais críticos, infraestrutura de energia limpa e muito mais. A verdadeira oportunidade para um país em desenvolvimento não é reduzir suas emissões, que muitas vezes já são pequenas, mas sim se tornar um fornecedor dessas “coisas” que o mundo desesperadamente precisará.
Essa mudança de paradigma é capturada em uma poderosa reformulação da famosa frase de John F. Kennedy:
“Não pergunte o que seu país pode fazer para se descarbonizar. Pergunte o que seu país pode fazer para descarbonizar o mundo.”
Essa nova perspectiva transforma uma obrigação em uma estratégia de crescimento. Em vez de ser uma questão de sacrifício, a descarbonização se torna uma questão de oportunidade de mercado, alinhando os interesses econômicos de um país com os objetivos climáticos globais.
- O Desenvolvimento Econômico Funciona Como um Jogo de Scrabble (e Isso Define Seu Futuro Verde)
Mas como um país pode saber quais “coisas” ele está mais bem posicionado para fornecer? A resposta está em uma analogia poderosa que é a base do trabalho do Growth Lab: a “Teoria do Scrabble”.
- Unidades de conhecimento (capacidades produtivas, know-how, tecnologia) são como as letras de Scrabble.
- Produtos e serviços são como as palavras.
- Um país só pode fabricar produtos (“palavras”) para os quais possui as capacidades necessárias (“letras”).
- Países com mais “letras” (conhecimento diversificado) podem fazer mais coisas e, principalmente, coisas mais complexas.
Aplicando essa teoria à transição verde, a pergunta para cada país se torna: quão distantes estão as “palavras verdes” (produtos como turbinas eólicas, baterias de lítio, veículos elétricos) das “letras” (capacidades produtivas) que eu já possuo?
A proximidade é tudo. Como explica a equipe do laboratório, ir de “urso” para “zebra” é relativamente fácil em inglês — basta adicionar a letra ‘Z’. No entanto, ir de “urso” para “leão” é um salto muito maior, exigindo um conjunto de letras completamente diferente. A ferramenta Greenplexity foi projetada para calcular exatamente essa “distância” para cada país, identificando as oportunidades verdes mais viáveis.
- Não Existe Receita de Bolo: Cada País Tem um Caminho Único para o Crescimento Verde
Se o desenvolvimento econômico é como um jogo de Scrabble, então cada país está jogando com um conjunto único de letras. Segue-se, então, que não pode haver uma estratégia universal para o crescimento verde. O caminho ideal é altamente específico para a estrutura produtiva de cada nação, um fato que o trabalho do Growth Lab com governos ao redor do mundo comprova.
- África do Sul: Com vastos recursos de platina, o país tem uma oportunidade única em “células de combustível” e “eletrolisadores”. Mais do que isso, seu domínio da “tecnologia Fischer-Tropsch” pode ser crucial para a produção de combustíveis verdes, transformando ativos existentes em vantagens para o futuro.
- Marrocos: O país subiu rapidamente no ranking Greenplexity graças ao desenvolvimento de seu cluster automotivo. Agora, ele não só está bem posicionado para entrar nas cadeias de valor de veículos elétricos, mas também tem uma ambição específica de “esverdear a amônia” para sua enorme indústria de exportação de fertilizantes.
- Romênia: Sendo uma economia industrial com uma base ampla, a Romênia possui muitas opções diversificadas. A ferramenta aponta para grandes oportunidades em equipamentos de geração de energia, como turbinas para energia eólica e hidrelétrica.
- Namíbia e Chile: O trabalho do laboratório revela estratégias únicas em outros lugares. A Namíbia, por exemplo, está explorando o aço e o hidrogênio verdes. O Chile está aproveitando seu sol abundante no norte e ventos fortes no sul. Cada nação tem um roteiro diferente, provando que a chave é identificar oportunidades que sejam ao mesmo tempo atraentes (com um mercado global em crescimento) e viáveis (próximas das capacidades que o país já domina).
O alcance dessa abordagem é global. O próprio desenvolvimento da ferramenta Greenplexity, por exemplo, foi financiado pelo governo do Azerbaijão, mostrando um interesse mundial em mapear esses novos caminhos para o crescimento.
- A Inteligência Artificial Pode Ser a Aliada Inesperada da Energia Limpa
Enquanto o apoio político à transição energética pode flutuar, um novo catalisador poderoso e inesperado surgiu: a Inteligência Artificial (IA). A enorme demanda por eletricidade impulsionada pela IA está criando um motor de mercado para o crescimento das cadeias de valor verdes.
O argumento é direto:
- A IA consome uma quantidade massiva de eletricidade para alimentar data centers.
- As grandes empresas de tecnologia (Big Techs) que lideram a revolução da IA têm compromissos firmes com o uso de energia limpa.
- Portanto, ao construir novos data centers, elas impulsionam a demanda por fontes renováveis. Nos EUA, por exemplo, 80% da nova geração de eletricidade nos últimos três anos veio de fontes solar e eólica.
Mas a visão mais sofisticada vai além. Como aponta Dan Shrag, a maior oportunidade do boom da IA não é apenas a demanda direta, mas o fato de que ela irá “desencadear um enorme investimento na rede elétrica”. Essa modernização da rede é um pilar fundamental e muitas vezes subestimado para viabilizar toda a transição energética em larga escala. Assim, o boom da IA pode estar superando a hesitação política, acelerando a transição por razões puramente de mercado.
- Política Industrial Inteligente Não é Apenas Sobre Gastar Dinheiro Público
A ideia de “política industrial” é controversa. Críticos apontam para fracassos caros, como a tentativa da Alemanha de dominar a produção de painéis solares, apenas para ser superada pela China. Como Shrag observou durante o debate, “a política industrial não é simples… quando ela falha, os líderes políticos ficam em apuros”.
É exatamente para mitigar esse risco que a abordagem do Growth Lab é diferente. Ricardo Hausmann a descreve como “mesquinha com o orçamento” (stingy on the budget). O foco não é em subsídios governamentais massivos para escolher vencedores. Em vez disso, o papel crucial do governo é mais leve fiscalmente, mas estrategicamente vital:
- Atrair investimento estrangeiro e privado: O dinheiro para os grandes projetos verdes virá principalmente de investidores que veem uma oportunidade de mercado, não de cofres públicos.
- Coordenar e facilitar: O papel do governo é remover barreiras burocráticas, agilizar licenças, promover o país como um destino atraente e articular as necessidades da indústria.
- Prover bens públicos: Garantir que a infraestrutura de apoio, como redes elétricas e portos, e os serviços necessários estejam disponíveis para que o setor privado possa prosperar.
Em suma, a política industrial eficaz neste contexto é menos sobre o governo financiar projetos e mais sobre criar um ecossistema onde o setor privado possa identificar e capitalizar as oportunidades de crescimento verde.
Conclusão
A transição energética global não precisa ser vista como um fardo imposto aos países em desenvolvimento. Pelo contrário, se abordada com a estratégia correta, ela representa uma oportunidade de crescimento sem precedentes. Ao focar em se tornar um fornecedor para um mundo em descarbonização, em vez de apenas cortar as próprias emissões, qualquer país pode transformar um desafio global em um motor para seu próprio desenvolvimento econômico.
É claro que, embora ferramentas como a Greenplexity iluminem o quê (a oportunidade) e o porquê (o imperativo do crescimento), o como (a implementação política específica) continua sendo o trabalho complexo que se segue. A lição central é que o papel do governo não é comandar e controlar, mas atuar como um facilitador ágil para o investimento privado e estrangeiro, liberando o potencial de mercado.
Isso nos deixa com uma pergunta final. Em vez de nos perguntarmos quanto custará a transição verde, talvez a verdadeira questão para os líderes seja: que oportunidades meu país está perdendo por não participar ativamente da reimaginação da economia global?

