*escrito com Felipe Augusto
Há um mito persistente no debate econômico brasileiro: a ideia de que as políticas industriais do Leste Asiático deram certo porque foram “liberais”, “não intervencionistas” e pouco “protetoras”. A narrativa é sedutora — afinal, parece oferecer uma rota simples para o sucesso: basta abrir, deixar competir e esperar o milagre acontecer.
Mas a história real da Coreia do Sul desmonta esse mito com uma força quase constrangedora.
Desde os anos 1960, quando ainda engatinhava industrialmente, a Coreia adotou uma postura que combinava ousadia estratégica e fechamento deliberado do mercado. A Hyundai precisou de 19 anos para exportar seu primeiro carro aos EUA e 41 anos para se tornar uma das cinco maiores montadoras do mundo. Nada disso aconteceu num ambiente “sem proteções”. A indústria local cresceu atrás de muralhas tarifárias, barreiras não tarifárias, manipulação regulatória e auditorias fiscais intimidatórias.
Nos anos 1980, os EUA — já irritados com o avanço coreano em setores de prestígio como carros (Hyundai) e eletrônicos de consumo (Samsung) — acusavam a Coreia de manter “uma das economias mais protegidas do mundo”. O New York Times relatava, em março de 1988, que Washington havia perdido a paciência diante das restrições generalizadas às importações e ameaçava medidas duríssimas: desde forçar a valorização do won até retirar o acesso preferencial da Coreia ao mercado americano.
Mesmo quando a proibição de importações terminou (1989 para carros americanos, 1999 para japoneses), tarifas de 50%, impostos internos discriminatórios e barreiras regulatórias bizarras continuaram a sufocar os concorrentes estrangeiros. O resultado? Em meados dos anos 2000, carros importados representavam apenas 3,6% das vendas no país — pior desempenho entre todos os membros industrializados da OCDE.
Quando, em 2007 e 2018, os EUA tentaram renegociar o acordo comercial (KORUS), voltaram a reclamar das barreiras coreanas: padrões técnicos, exigências ambientais, seguros e placas, inspeções, configuração de para-choque, frequência de abertura de portas, e por aí vai. Parecia um labirinto regulatório feito sob medida para atrasar ou inviabilizar a entrada de importados.
E mesmo assim — ou exatamente por causa disso — a Coreia se transformou em potência global. Quando finalmente abriu, abriu forte: com empresas gigantes, competitivas, capazes de enfrentar e vencer montadoras japonesas, americanas e europeias em pé de igualdade.
A história mostra o que alguns preferem ignorar:
não existe industrialização acelerada sem proteção, coordenação estatal e pressão competitiva interna e externa cuidadosamente administrada.
A Coreia não cresceu “apesar do protecionismo”. Cresceu por causa dele, inserido numa estratégia coerente:
protegia o mercado doméstico; selecionava setores estratégicos; cobrava desempenho exportador das empresas; abria só quando estava forte — nunca antes.
Talvez o ponto mais desconfortável seja este:
Os EUA sempre souberam disso. E reclamaram disso por quatro décadas seguidas.
Mas no Brasil, muita gente ainda repete que “a Coreia venceu porque não protegeu nada”.
É difícil encontrar um mito econômico tão persistente — e tão distante dos fatos históricos.




