*escrito com Felipe Augusto
O debate sobre comércio e desenvolvimento econômico no Brasil não pode se limitar a receitas simplistas de abertura irrestrita. A experiência histórica e a literatura econômica mais recente demonstram que o sucesso das nações que conseguiram dar saltos industriais esteve sempre vinculado à seletividade estratégica na liberalização comercial e ao uso ativo de políticas industriais e tecnológicas.
Evidências Empíricas e Críticas à Abertura Irrestrita
Estudos clássicos como os de Wacziarg e Welch (2003) buscaram associar liberalização a crescimento econômico, mas foram duramente criticados por Rodríguez (2007) pela fragilidade dos indicadores e inconsistências metodológicas. Mais recentemente, trabalhos como o de Estevadeordal (2021) replicaram os dados e mostraram que não há evidência robusta de que abertura indiscriminada aumente o crescimento. O problema identificado: seleção inadequada de anos de abertura, inconsistência nos dados de tarifas e presença de outliers.
Ou seja, a literatura mostra que a tese de que “abrir sempre gera crescimento” não se sustenta empiricamente.
O Caso da Coreia do Sul
O exemplo coreano é ilustrativo. Até os anos 1970, a política comercial foi seletiva e vinculada aos objetivos da política industrial (Connolly e Yi, 2015). A Coreia reduziu tarifas apenas em insumos e máquinas para exportação de bens industriais simples, mantendo proteção em setores estratégicos. Como parte da estratégia, o país desvalorizou sua moeda, garantindo competitividade.
Nos anos 1970, a Coreia implementou a Heavy and Chemical Industry Policy, uma das mais transformadoras de sua história, voltada para aço, eletrônicos, construção naval e máquinas. Esse movimento não foi liberalização irrestrita, mas sim abertura seletiva combinada a forte intervenção estatal — exatamente o que gerou o salto tecnológico e industrial.
A Especificidade Brasileira
O Brasil possui características próprias que tornam inadequada a defesa de abertura ampla:
Tarifa nominal com múltiplas exceções, sobretudo para bens de capital; Valorização cambial e liberalização financeira já realizadas, que fragilizaram a indústria;
Mais Instrumentos, Não Menos
No atual contexto geopolítico, os países buscam mais instrumentos de política industrial e tecnológica para assegurar soberania — não menos. Evidências recentes mostram que o número de intervenções industriais (subsídios, exigências de conteúdo local, crédito direcionado) cresceu fortemente em todo o mundo na última década.
Portanto, o Brasil precisa conservar e expandir seus instrumentos de política comercial, industrial e tecnológica, para usá-los estrategicamente em prol de sua soberania. O caminho não é abrir indiscriminadamente, mas escolher onde e como abrir, articulando tarifas, câmbio, crédito e inovação com uma visão de desenvolvimento de longo prazo.
Referência:
https://link.springer.com/article/10.1007/s00181-021-02139-8?utm_source=chatgpt.com


