Aço, chips e energia, o novo canal inflacionário da inteligência artificial — e o estresse dos juros longos

Saiu a ata da reunião de julho do Federal Reserve. Já vem com atraso, como sempre, mas traz uma mensagem importante: o comitê está claramente mais preocupado com inflação do que o mercado supunha. É uma ata dura, hawkish, e o mercado leu assim.

A novidade mais interessante do documento é o tratamento dado à inteligência artificial como fonte de pressão de preços. O ponto é sutil e merece atenção. A IA é, sem dúvida, uma inovação que aumenta produtividade — esse é o efeito de médio e longo prazo, e ele é desinflacionário. Só que, no curto prazo, a corrida para construir a infraestrutura que sustenta essa tecnologia produz o efeito oposto. A demanda de energia associada aos data centers, somada ao próprio esforço de construção civil e de equipamentos, gera uma pressão enorme de custos. Existe, portanto, um canal inflacionário de curto prazo embutido no boom de IA, e é isso que a ata destaca: um choque de demanda concentrado em energia e insumos que pode elevar a inflação antes que os ganhos de produtividade apareçam.

O índice de referência que o Fed acompanha segue rodando em 4,1%. A queda recente do petróleo chegou a dar algum alívio, mas entre aspas: hoje o barril voltou a passar dos US$ 90 por conta do conflito no Oriente Médio. São, no fim das contas, duas fontes de inflação operando ao mesmo tempo — a geopolítica no Oriente Médio e a demanda de construção da infraestrutura de IA. A combinação é ruim. Configura um risco claramente assimétrico, para cima.

Do lado do emprego, a ata trabalhava com desemprego em 4,2%; a última leitura já veio em 4,1%. O salário nominal cresce a 3,5%, com alguma desaceleração na margem, e o crescimento da atividade roda perto de 2%. Não é um quadro de superaquecimento, mas também não é um mercado de trabalho que ajude a derrubar inflação. O fato é que há pressões inflacionárias que incomodam bastante o Fed.

Por isso o mercado voltou a colocar na mesa uma alta de juros até o final do ano. Eu acho bastante provável: o Fed levando o juro para 4%. O mercado precifica esse movimento mais para o fim do ano, e a ata de hoje reforça essa leitura.

O estresse nas curvas longas

Há um segundo tema, talvez ainda mais relevante, e ele é global: o estresse nas curvas de juros mundo afora. Os juros longos batem máximas em praticamente todos os grandes mercados — Japão, Estados Unidos, países europeus. No Reino Unido houve mais uma onda de pressão nos gilts, com dificuldade evidente de financiamento do governo. A treasury de 30 anos americana foi a 5,30%, máxima de duas décadas.

Esse estresse chega ao Brasil, naturalmente. O juro longo doméstico tocou 14,70%, 14,80%, quase 15%. Não é um fenômeno local; é o prêmio de prazo subindo em toda parte, num mundo de déficits fiscais elevados e emissão pesada.

O movimento de ontem foi muito forte. Hoje pela manhã houve alívio, e por um motivo específico: o Tesouro americano anunciou aumento do programa de recompra de títulos. O Tesouro entra comprando dívida longa, sustenta preço e derruba um pouco a taxa. Muita gente já está chamando isso de uma espécie de Operação Twist — vende curto, compra longo. E, de fato, não deixa de ser uma intervenção deliberada no formato da curva de juros, só que executada pelo Tesouro e não pelo banco central.

Esse foi o grande destaque da manhã, o que aliviou as taxas. À tarde, com a divulgação da ata, o quadro piorou de novo.

O tema do momento, portanto, é esse: juro longo muito pressionado nos Estados Unidos e no resto do mundo, com transmissão direta para o Brasil. E, no pano de fundo, um banco central americano que já não descarta voltar a subir juros.

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