André Singer lançou *Impasse: o Brasil diante da onda reacionária* (Companhia das Letras, 2026). O livro foi escrito entre janeiro e outubro de 2025, com atualizações pontuais até abril deste ano, e chega no meio da campanha. Vale a leitura mesmo para quem não compartilha das premissas do autor, porque ele formula com clareza um problema que a análise econômica costuma tratar como ruído.
A tese cabe em duas frases. Diante do avanço reacionário, tornou-se obrigatório construir a frente mais ampla possível para preservar o regime democrático. Mas as contradições de classe dentro dessa coalizão paralisam o próprio artefato frentista, impedindo o salto de qualidade que formaria uma maioria sólida. Esse é o impasse.
## O diagnóstico da onda
Singer data o início da onda reacionária em 2015 e enfileira Lava Jato, impeachment de Dilma e Bolsonaro como uma sequência única. Seu argumento mais incômodo é que a condenação de Bolsonaro não desarma o processo, porque o reacionarismo não desce das instituições, sobe da sociedade. A extrema direita detém a maior bancada unipartidária da Câmara, tem aliados em executivos estaduais, influencia indicações no Supremo, nas Forças Armadas e nas polícias, fundiu-se a confissões evangélicas, criou raízes no interior e soldou-se a correntes juvenis metropolitanas. Nas municipais de 2024, Bolsonaro percorreu 147 cidades e ajudou a eleger 517 prefeitos, contra 252 do PT.
Daí vem a formulação mais citável do livro: um “semipresidencialismo de tocaia”, com a direita controlando ao menos 60% da Câmara e do Senado pelo cálculo de Carlos Ranulfo de Melo. O Planalto está em mãos democráticas, a Constituição de 1988 segue de pé, e ainda assim a agenda é decidida em outro lugar.
## O aparato conceitual
Singer retoma a tríade que propôs em *O lulismo em crise*: partido popular, partido de classe média e partido do interior, entendidos como lugares sociológicos que diferentes siglas ocupam ao longo do tempo. O PSDB encarnou o segundo até 2018; desde então há disputa pelo espólio. Sobre isso ele monta a noção de esfera pública de baixa intensidade, ligada ao populismo latino-americano na acepção do primeiro Laclau, em que classes assumem forma de multidão pouco organizada e se conectam à liderança de modo direto.
A definição de democracia mistura procedimento e conteúdo. Do lado procedimental, os critérios de Dahl e Przeworski: eleições livres e periódicas, voto universal, liberdade de expressão e organização, fontes alternativas de informação, governantes submetidos ao Estado de direito, mais de um partido competitivo que aceita a derrota. Do lado normativo, Marcuse: os procedimentos são indispensáveis e insuficientes. Singer usa isso para responder à objeção óbvia — de que serve um regime democrático num dos países mais desiguais do mundo — argumentando que o sentido histórico da democracia é o aumento da igualdade com preservação da liberdade, e que as experiências socialistas reais mostraram o que acontece quando se tenta a igualdade sem ela.
## O contínuo Getúlio-Lula
A parte historicamente mais interessante é a releitura de 1930. Vargas comandou oligarquias gaúchas e mineiras contra a burguesia agroexportadora paulista, e, seguindo Francisco de Oliveira, aquilo virou revolução de verdade porque se articulou a uma mudança na divisão internacional do trabalho: o crack de 1929 abriu a janela para o Brasil produzir o que antes importava. O primeiro campo popular modernizou o país de forma atípica, associado ao atraso do partido do interior.
O PT, nascido para unificar uma esquerda não populista, teria se tornado herdeiro involuntário dessa tradição. O lulismo substituiu o getulismo, e a autonomia de classe prometida no manifesto de 1980 nunca chegou. A pergunta que Singer deixa em aberto é direta: estaria Lula fadado a liderar uma modernização análoga à do primeiro campo popular?
## Onde isso encontra a economia
Aqui entra o ponto que me interessa. Singer descreve em linguagem política exatamente o beco em que a macroeconomia brasileira está metida.
Na sua narrativa da conjuntura, depois das municipais de 2024 o terceiro mandato viveu meses agônicos porque o capital cobrava preço alto demais pela unidade contra o bolsonarismo: austeridade, juros e liberdade de preços questionavam o caráter popular do governo, e a base da pirâmide social, esteio do lulismo, começou a ceder. Traduzindo para o vocabulário que uso aqui: a frente precisa do apoio do capital para existir, o capital cobra contração, a contração corrói a base popular que dá sustentação eleitoral à frente, e o ciclo se fecha.
O que Singer chama de paralisia frentista é, do meu ponto de vista, a manifestação política do esgotamento do modelo puxado por consumo. Enquanto o crescimento vier de transferência de renda com investimento parado em 16,5% do PIB, a oferta é rígida, a transferência vira inflação, o juro fica alto e o governo é obrigado a escolher entre a base e o capital a cada semestre. A coalizão não consegue virar maioria sólida porque não tem o que oferecer aos dois lados ao mesmo tempo.
É por isso que a saída do impasse político passa, na minha leitura, pelo mesmo lugar que a saída do impasse econômico: um modelo liderado por investimento, com taxa na faixa de 20% a 25% do PIB e ganho de produtividade. Um projeto de investimento é a única coisa que dá alguma coisa material ao campo popular sem depender de apertar o gasto de um lado ou inflacionar do outro. Sem isso, a frente continua sendo um arranjo defensivo — o que, aliás, é exatamente o que o livro conclui.
Fica, claro, a discordância de fundo. Singer trata o capital como restrição externa à coalizão popular; eu tendo a ver a taxa de investimento como problema estrutural que antecede o arranjo político e sobrevive a qualquer governo — nem Temer-Bolsonaro nem Lula 3 mexeram nela. Mas isso não invalida o diagnóstico. Invalida, no máximo, a esperança de que a solução seja de composição política.

