*escrito com Felipe Augusto
Há um argumento recorrente no debate econômico brasileiro segundo o qual a industrialização conduzida pelo Estado entre 1930 e 1980 teria produzido pouco em termos de desenvolvimento social. A crítica costuma olhar para as ineficiências do modelo, para a proteção tarifária, para empresas pouco competitivas e para os desequilíbrios macroeconômicos acumulados no fim do período.
O problema é que esse argumento frequentemente começa a história no meio.
Antes de julgar os resultados da industrialização brasileira, é preciso responder uma pergunta bastante elementar: como era o Brasil antes dela?
Felizmente, hoje temos evidências históricas muito melhores para fazer essa comparação.
Em um trabalho de 2013, o historiador econômico Leandro Prados de la Escosura reconstruiu uma série de desenvolvimento humano para dezenas de países desde o século XIX. A tarefa é importante porque a base oficial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento começa apenas em 1990. Para períodos anteriores, portanto, é necessário reconstruir indicadores de renda, educação e expectativa de vida.
O resultado para o Brasil é revelador.
Em 1929, o índice histórico de desenvolvimento humano brasileiro era de apenas 0,107. Naquele mesmo ano, a média mundial era 0,157. Em outras palavras, o Brasil tinha um nível de desenvolvimento humano equivalente a apenas 68% da média mundial. Estávamos muito próximos de países como Bolívia e Honduras na parte inferior da distribuição latino-americana.
Esse é o ponto de partida da grande transformação brasileira do século XX.
Entre aproximadamente 1930 e 1980, o Brasil realizou uma das mais intensas transformações estruturais de sua história. De uma economia predominantemente agrária e exportadora de produtos primários, tornou-se uma economia urbana, industrial e muito mais complexa. Surgiram siderurgia, petroquímica, indústria automobilística, bens de capital, aeronáutica, telecomunicações e uma extensa infraestrutura energética e de transportes.
Essa transformação produtiva ocorreu simultaneamente a uma extraordinária expansão do desenvolvimento humano.
O próprio trabalho posterior de Prados de la Escosura, dedicado especificamente à América Latina, identifica 1938–1980 como uma fase de avanço mais rápido do desenvolvimento humano da região. O autor destaca particularmente os ganhos em expectativa de vida e educação e mostra que o ritmo de melhora sofre forte desaceleração a partir dos anos 1980. (European Historical Economics Society)
Esse ponto é importante porque desmonta outra tentativa comum de relativização. Pode-se argumentar que a melhora do desenvolvimento humano foi apenas consequência mecânica do crescimento da renda per capita.
Os dados não sustentam essa interpretação.
Na decomposição apresentada por Prados de la Escosura para a América Latina entre 1938 e 1980, o crescimento anual do índice histórico de desenvolvimento humano foi de aproximadamente 2,1%. Desse avanço, cerca de 1 ponto percentual veio da expectativa de vida, 0,8 ponto da educação e apenas 0,3 ponto da renda ajustada. Portanto, aproximadamente 86% da melhora veio das dimensões sociais de saúde e educação, e somente cerca de 14% diretamente da dimensão de renda utilizada no índice. (European Historical Economics Society)
O próprio autor é explícito: as dimensões sociais foram os principais motores do avanço do desenvolvimento humano latino-americano. A expectativa de vida dominou principalmente na primeira metade do século XX; a educação tornou-se particularmente importante na segunda metade. (European Historical Economics Society)
Isso muda bastante a interpretação histórica.
A industrialização brasileira não significou apenas construir fábricas. Ela ocorreu junto com urbanização, expansão das redes de água e saneamento, eletrificação, vacinação, saúde pública, crescimento da escolarização, criação de universidades, formação técnica e expansão da capacidade administrativa do Estado.
A transformação produtiva e a transformação social estavam profundamente conectadas.
É claro que correlação histórica não significa que cada avanço social tenha sido causado diretamente por uma fábrica ou por uma tarifa de importação. Seria uma caricatura afirmar isso. Avanços da medicina, difusão internacional de tecnologias sanitárias e políticas públicas específicas tiveram papel enorme. O próprio Prados destaca a importância da disseminação de vacinas, antibióticos, conhecimento médico e provisão pública de saúde. (European Historical Economics Society)
Mas é igualmente simplista imaginar que todo esse processo aconteceu independentemente da transformação econômica e institucional do país.
Uma sociedade predominantemente rural, pobre, fragmentada territorialmente e com baixa capacidade fiscal possuía enorme dificuldade para financiar educação de massa, infraestrutura urbana, saúde pública e políticas sociais. Industrialização, urbanização, aumento da produtividade e construção do Estado moderno ampliaram drasticamente essa capacidade.
Por isso, comparar apenas taxas de crescimento ou eficiência industrial sem olhar para o ponto de partida produz uma interpretação profundamente a-histórica.
O contraste com o período posterior é especialmente provocador.
A partir dos anos 1980, o Brasil entra em crise da dívida, perde dinamismo industrial e posteriormente passa por um processo muito intenso de desindustrialização precoce. Ao mesmo tempo, sua convergência relativa em desenvolvimento humano perde força.
O dado mais relevante não é que o Brasil tenha parado de melhorar em termos absolutos. Evidentemente não parou. Expectativa de vida aumentou, escolaridade cresceu e o próprio IDH continuou avançando.
O problema é comparativo.
Quando um país melhora mais devagar que seus pares, ele pode avançar em números absolutos e simultaneamente ficar parado em posição relativa.
É justamente aí que a comparação internacional se torna poderosa.
Em 1929, o Brasil estava profundamente abaixo da média mundial de desenvolvimento humano. Durante as décadas de industrialização, recuperou uma parcela enorme dessa distância. O estudo de Prados identifica para a América Latina uma convergência moderada em relação aos países desenvolvidos até aproximadamente 1980, com avanços especialmente importantes em educação e longevidade. Depois disso, esse catching-up perde intensidade. (European Historical Economics Society)
A grande pergunta histórica, portanto, não deveria ser simplesmente:
“A industrialização brasileira teve problemas?”
Claro que teve.
A pergunta relevante é:
“O que aconteceu com o Brasil durante o período em que ele se industrializou, urbanizou e construiu capacidade estatal?”
A resposta é difícil de ignorar.
O país deixou de ocupar uma posição próxima ao piso da distribuição mundial de desenvolvimento humano e se aproximou rapidamente da média internacional.
Depois, justamente quando nossa estrutura produtiva começou a perder complexidade relativa, a convergência tornou-se muito mais lenta.
Isso não prova que qualquer política industrial seja boa. Não prova que proteção indefinida funcione. Não absolve erros do Estado brasileiro, tampouco elimina a necessidade de produtividade, competição e disciplina macroeconômica.
Mas torna intelectualmente difícil sustentar a ideia de que o ciclo de industrialização de 1930–1980 tenha sido simplesmente um grande fracasso.
Para avaliar uma estratégia de desenvolvimento é preciso olhar não apenas para onde o país terminou.
É preciso lembrar de onde ele partiu.
E o Brasil que começou a se industrializar nos anos 1930 era um país pobre, pouco educado, de baixa expectativa de vida e situado muito abaixo da média mundial.
Cinquenta anos depois, era uma sociedade radicalmente diferente.
Chamar essa transformação de fracasso exige uma definição bastante peculiar da palavra.

