Arrecadação Recorde em 2025: Economia Aquecida, Mais IOF e o Verdadeiro Problema nos Juros

A Receita fechou 2025 em R$ 2,886 trilhões, um recorde histórico, com alta real de 3,65% em relação a 2024. Esse resultado reflete, de um lado, a atividade econômica mais forte; de outro, mudanças tributárias e elevação de alíquotas em alguns itens.

Dentro do detalhamento, um destaque importante é o IOF: foram R$ 86,5 bilhões, com alta real de 20,54% frente a 2024. Isso conversa diretamente com a majoração de alíquotas que entrou no fim de 2024. Para dar dimensão: eu me lembro de períodos em que o IOF arrecadava algo como R$ 10–15 bilhões; houve um momento em que se dizia que o IOF praticamente “pagava” o Bolsa Família, numa comparação simplificada entre valores da época. Hoje, o Brasil é outro: temos políticas sociais muito maiores e, do lado da arrecadação, um IOF em outro patamar.

Isso ajuda a ilustrar um mecanismo bem conhecido: transferência de renda eleva consumo, o consumo ativa a economia, e a economia mais aquecida gera arrecadação. É um ciclo real, observável. Agora, é importante frisar: não existe mágica e nenhum país fica rico apenas transferindo renda. Riqueza sustentável vem de investimento, produtividade, inovação, criação de tecnologia, empresas fortes, patentes e capacidade produtiva. Mas, no curto prazo, essa escala de transferência de renda de fato sustenta demanda e ajuda a explicar uma economia rodando melhor.

Aliás, a força do mercado de trabalho aparece com clareza na arrecadação previdenciária: a Receita da Previdência somou R$ 737 bilhões em 2025, também recorde, muito associada a emprego formal e massa salarial mais alta. O CAGED tem mostrado isso: mais gente com carteira assinada implica mais recolhimento de INSS, o que é uma boa notícia do ponto de vista de fluxo de receita.

Ao mesmo tempo, o desafio estrutural permanece enorme: de mais de 100 milhões de pessoas ocupadas, apenas algo como 45 milhões têm carteira assinada, e um contingente maior (algo em torno de 50 e poucos milhões) contribui efetivamente para o INSS. O restante está na informalidade e não contribui de forma regular. Isso pressiona o futuro do sistema, porque muitas dessas pessoas tendem a envelhecer sem histórico contributivo suficiente e podem acabar recorrendo ao BPC, que paga um salário mínimo a idosos em situação de vulnerabilidade. Ou seja: o tema previdenciário segue no radar, por razões demográficas e de desenho institucional.

Claro: ninguém gosta de pagar imposto. Notícia de aumento de arrecadação quase sempre vem acompanhada de percepção de maior carga ou de mudanças tributárias. Mas, olhando o quadro fiscal, o ponto relevante é que as contas caminham para um resultado primário muito próximo de zero, em linha com a meta anunciada pelo ministro Haddad para 2025.

O problema central continua sendo outro: a conta de juros. Ela deve superar R$ 900 bilhões e pode se aproximar de R$ 1 trilhão. Com uma dívida pública acima de R$ 8 trilhões e juros médios elevados (na casa de 12% a 13%), essa conta fica enorme — e esse é, na prática, o verdadeiro calcanhar de Aquiles das finanças públicas brasileiras hoje.

E há um segundo tema crítico que precisa ser enfrentado adiante: as contradições entre regras fiscais e indexações. Você tem despesas previdenciárias influenciadas por reajustes do salário mínimo (que combinam inflação e crescimento), saúde e educação vinculadas a regras próprias (como percentuais da receita), além de uma série de amarras constitucionais com dinâmicas diferentes. Em algum momento, essas engrenagens podem colidir: não porque o governo “não possa pagar” — ele sempre pode emitir dívida —, mas porque você entra numa zona em que as regras passam a disputar o mesmo espaço orçamentário, criando risco de travamento operacional e disputas políticas permanentes. Esse é um tema que tende a ganhar peso em 2026/2027, independentemente de quem vença as eleições.

Por fim, vale registrar: a alta nominal da arrecadação foi próxima de 10%, dezembro veio forte, e em termos reais o ganho ficou perto de 4%, coerente com o número consolidado do ano. Eu vou encaminhar os gráficos para vocês verem com mais detalhe.

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