As etapas seguidas pela China para desenvolver seu caça de guerra, o Chengdu J-20

*escrito por Henrique Fernandes Alvarez Vilas Porto para o BLOG

A China, durante os anos 1960, iniciou uma importante empreitada de busca da autonomia no desenvolvimento de aeronaves de combate a jato. A partir de cooperação com a URSS, a Chengdu Aircraft Industry Corporation (CAC) e, posteriormente, a Shenyang Aircraft Corporation (SAC), subsidiárias da Aviation Industry Corporation of China (AVIC), iniciaram a construção do famoso caça soviético MIG-21 em território chinês, sob licença, que ali foi chamado de J-7 Chengdu (F-7 no ocidente).

Chengdu J-7/F-7 operado pelo Paquistão

Apesar de diversos problemas, os chineses conseguiram desenvolver sua capacidade industrial para replicar a aeronave, que tinha a maior parte de seus componentes importados da URSS, durante a década de 1960 e conseguiram iniciar sua produção em série nos anos de 1970. A partir de então, com uma série de melhorias incrementadas ao projeto original, o país produziu diversas variantes da aeronave (algumas dessas incluindo componentes importados de países ocidentais, como os Estados Unidos), que resultaram em grande número de exportações. Países como Sudão, Iraque, Bangladesh, Egito, Paquistão, Nigéria, Coréia do Norte, entre outros, importaram a aeronave, cujo baixo custo chegou a atrair até mesmo atenção da Força Aérea Brasileira, que ficou próxima de adquirir algumas unidades nos anos 80. A capacidade de montar uma aeronave e incrementar modernizações ao projeto foi plenamente dominada pelos chineses (não apenas no caso do J-7, mas também em outras aeronaves como o J-11, baseado no SU-27 russo, também produzido sob licença) e novos passos foram dados no desenvolvimento de uma aeronave de combate de maneira autônoma. No final da década de 1980, a China começou a desenvolver o substituto do J-7 na Força Aérea do Exército Popular de Libertação (PLAAF, na sigla em inglês), o caça multipropósito Chengdu J-10. Ao contrário da maioria das aeronaves de ataque produzidas na China, o J-10 não se baseou em aeronaves russas, embora utilize uma série de componentes originados desse país. A base para a criação do J-10 vem de uma controversa parceria com Israel, a partir do projeto Lavi, programa de desenvolvimento de um caça nacional por parte da estatal Israel Aerospace Industries (IAI), que substituísse as aeronaves de origem norte americana, os A-4 Skyhawk, e os Kfir, caça israelense baseado no Mirage III francês.

Com seu desenvolvimento iniciado nos anos 70, o Lavi seria uma aeronave similar ao F-16 americano, tanto em sua estrutura física quanto em suas capacidades. No entanto, seria quase todo desenvolvido e produzido em Israel, com alguma cooperação tecnológica dos Estados Unidos, que também apoiaria financeiramente o projeto. O programa chegou a produzir protótipos, mas foi cancelado devido ao conflito de interesses visto por parte de entes da política norte-americana, que resistiam ao compartilhamento de tecnologias com Israel e no apoio ao desenvolvimento de um possível rival para os F-16 no mercado internacional. Com o fim desse apoio tecnológico e financeiro, o programa ficou insustentavelmente caro para os israelenses, que acabaram adquirindo o F-16 dos Estados Unidos. Israel teria, no entanto, negociado com a China a utilização das tecnologias desenvolvidas para o Lavi, no desenvolvimento do J-10. Tal ação teria gerado forte desconfiança entre membros do governo norte-americano e Israel, que denunciavam que o país estaria transferindo tecnologia dos EUA para a China. A IAI negava a transferência de tecnologia norte-americana, embora se evadisse de responder se estava cooperando ou não com os chineses. Fato é que as aeronaves possuem notáveis semelhanças.

 

Lavi (à esquerda) e J-10 (à direita)

Hoje a China é um dos poucos países do mundo que produzem seus próprios caças de quinta geração, com capacidades Stealth. O J-20 e o J-31, embora possuam alguma similaridade com aeronaves outros modelos ocidentais e russos, nada incomum no meio da aviação militar, se tratam de desenvolvimentos autônomos, fruto de décadas de aprendizado nas etapas anteriormente descritas. Entretanto, também existem diversos indícios de que essa nova geração de aeronaves também contou diretamente com engenharia reversa e importação de cérebros. Com um programa mais fechado e com reduzida quantidade de informações disponíveis, a China trabalhou em silêncio até divulgar em janeiro de 2011 imagens do primeiro voo do Chengdu J-20, seu primeiro caça de quinta geração. O projeto possui grande semelhança com o protótipo da aeronave MIG 1.42 russa, que não chegou a ser produzido, mas que aponta para a possibilidade de cooperação entre os países para a produção do J-20 (imagem do post). Outra suspeita seria a de utilização da carcaça do F-117 americano, abatido na Sérvia durante a guerra do Kosovo, devido aos boatos sobre agentes do governo chinês terem adquirido partes da aeronave de fazendeiros locais; além da prisão e condenação do engenheiro Noshir Gowadia, considerado um dos pais da tecnologia Stealth, participante do projeto do bombardeio B-2 Spirit, em 2011, por colaboração com os chineses. A aeronave já se encontra operacional na Força Aérea Chinesa, desde 2017.

 

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