O desafio para o desenvolvimento econômico não está na produção de commodities per se, a questão chave é se o pais é capaz de caminhar downstream ou upstream na cadeia das commodities para aprender a fazer produtos mais sofisticados. O desenvolvimento econômico e nível de renda per capita dependem fortemente das capacidades produtivas locais e da habilidade de se produzir bens complexos. Países ricos em commodities que tiveram sucesso nessa tarefa: EUA, Noruega, Finlândia, Malásia, Tailândia, Austrália, nova Zelândia e Canadá. (ver slide 31, Daron Acemolgu: https://economics.mit.edu/files/966) abaixo)
A indústria do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia representa exemplos importantes de como países ricos em recursos naturais podem enfrentar o desafio de transformar suas economias baseadas em commodities em estruturas produtivas mais diversificadas e complexas. Esses casos ilustram que o desenvolvimento econômico não depende apenas da riqueza em commodities, mas da capacidade de avançar downstream (processamento e agregação de valor) ou upstream (desenvolvimento de tecnologias e inovações associadas) nas cadeias produtivas para produzir bens mais sofisticados.
Canadá
O Canadá é um exemplo notável de sucesso na evolução industrial e manufatureira. Apesar de sua base econômica rica em recursos naturais, como petróleo, minerais e produtos agrícolas, o país conseguiu desenvolver capacidades produtivas complexas e diversificadas. Empresas como a Bombardier demonstram essa evolução, competindo em mercados globais como aviação regional, executiva, e veículos recreacionais. A Bombardier Recreational Vehicles, separada da matriz, continua explorando com sucesso mercados como jet-skis (Sea-Doo) e snowmobiles (Ski-Doo).
Outras empresas, como a BlackBerry, também destacaram o Canadá como um centro de inovação tecnológica, embora tenham enfrentado desafios no setor de smartphones. Além disso, a Massey-Ferguson, pioneira na produção de maquinários agrícolas, representa uma conexão histórica com países em desenvolvimento, como o Brasil, onde sua marca foi fundamental para a modernização agrícola.
Os indicadores de complexidade econômica colocam o Canadá em uma posição privilegiada entre os países ricos em recursos naturais. Suas exportações de veículos, maquinário e materiais eletrônicos indicam uma economia que conseguiu combinar riqueza em commodities com sofisticação produtiva. No entanto, o recente boom das commodities impulsionado pela demanda chinesa resultou em uma leve perda de complexidade econômica, destacando os desafios de manter o equilíbrio entre produção de commodities e diversificação.
Austrália
A Austrália, assim como o Canadá, é rica em recursos naturais e apresenta uma trajetória interessante de industrialização. Durante os anos 1960, a indústria australiana alcançou seu auge, representando cerca de 25% do PIB. Esse período foi marcado por uma relativa sofisticação produtiva, como demonstrado pelos indicadores de complexidade econômica da época.
Embora o foco atual da economia australiana esteja principalmente em setores como mineração e agricultura, que respondem a grande parte de suas exportações, o país atingiu níveis notáveis de industrialização e diversificação em décadas anteriores. No entanto, diferentemente do Canadá, a Austrália não conseguiu sustentar esse nível de complexidade industrial em longo prazo. Ainda assim, a experiência australiana ilustra como um país pode combinar exploração de recursos naturais com esforços de industrialização, mesmo que enfrente desafios de competitividade e adaptação tecnológica.
Nova Zelândia
A Nova Zelândia, com uma economia significativamente menor, exemplifica como a valorização de commodities pode ser usada para criar cadeias produtivas sofisticadas, especialmente em setores como agricultura e laticínios. O país é amplamente reconhecido por sua eficiência na produção e exportação de produtos agrícolas de alto valor agregado, como queijos e carnes premium, que chegam a mercados globais exigentes.
Embora o foco principal da Nova Zelândia esteja na agricultura, o país tem mostrado esforços consistentes para diversificar sua base econômica e integrar inovações tecnológicas em suas indústrias. Esse movimento demonstra o compromisso de maximizar o potencial econômico de seus recursos naturais, ao mesmo tempo em que busca avanços tecnológicos e industriais.
Reflexões Finais
Tanto o Canadá quanto a Austrália e a Nova Zelândia mostram que a abundância de recursos naturais não é uma barreira ao desenvolvimento econômico sofisticado. Esses países oferecem lições valiosas para outras economias ricas em commodities, destacando que a verdadeira chave para o desenvolvimento está na construção de capacidades produtivas locais, na diversificação econômica e no foco em bens complexos. O sucesso de economias como os Estados Unidos, Noruega, Finlândia e Malásia reforça esse caminho, oferecendo modelos de como avançar tanto downstream quanto upstream nas cadeias produtivas.

estrutura de empregos na Australia:

paper aqui sobre o tema:
http://www.abde.org.br/uploads/docs/MIOLO%20PREMIO%20ABDE%202017_WEB.pdf
Grafico de Daron Acemoglu:
Nova Zelândia: https://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/nzl/
Canada: https://atlas.media.mit.edu/pt/profile/country/can/
Australia: https://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/aus/
The Industrial Revolution in Australia
nas palavras de Erik Reinert: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:http://www.othercanon.org/uploads/SUM%2520paper%2520diminishing%2520returns.doc
“We can divide all economic activities in the world in two broad categories: a) Activities where the supply of one factor of production is limited in quantity and/or quality by nature. These are resource-based activities which are all subject to Diminishing Returns. Nations dependent on Diminishing Return activities – and where little alternative employment exists – may find that they are locked into a dependence upon these raw materials, that the barriers to exitfrom this dependency are enormous. Under these circumstances the nation may , in effect, be locked into a situation where the only possible livelihood for a large part of its inhabitants is to carve out a living destroying the environment (burning rain forests, polluting rivers with chemicals needed for washing gold, etc.) In manufacturing industries their skills lag so far behind those of the advanced countries, and their markets for such good are so small, that they are effectively locked out of manufacturing in a free-trade regime. b) Activities where the supply of all factors of production is expandable at the same or lower unit costs (with the exception of temporary bottlenecks). Nations who have a large part of their economy within such activities – including a manufacturing sector – will find that, even though Diminishing Return activities may account for the bulk of their exports, the insustainable pressure on their national resources is of a much less serious nature, and – due to a lack of absolute poverty – much more easily controlled by legislative measures.”
The Australian and Canadian strategies to escape the ‘resource curse’ carry with them many elements for the ‘disequilibrium economists’ who are shown in Chart 1. The basic element in the strategy is the following reasoning, taking the example of Australia: According to Ricardian trade theory, Australia should have specialised completely in the production of wool, where the nation not only has a comparative advantage, but also an absolute cost advantage in the world. Yet, in spite of this clear recommendation, the two main government reports on economic policy in Australia this Century – the Brigden Report[35]and the Vernon Report[36] – both see the dangers of specialising according to their comparative advantage, which today is the standard solution for all resource-based Third World nations. The Australian argument is very similar to the arguments forwarded by the influential Canadian economist Harold Innes (1894-1952)[37], and indeed the industrial and trade policies of Australia and Canada have been remarkably similar. Both these countries, however, went completely against the recommendations which the First World today gives to Third World countries in the situation where Australia and Canada once were.
The Australian (and Canadian) argument, starting in the late 19th Century, is, in practice, a copy of the strategy previously employed by the United States to get out of its dependence on raw cotton. The Australian and Canadian arguments for embarking on the strategy are slightly different than the US arguments, however, based as they are more on the danger of the ‘inferiority’ of raw material production, than on the ‘superiority’ of manufacturing, the key argument used in the United States. This is the essence of the Australian argument: If our nation specialises completely in one resource-based product, e.g. wool, two things will happen which will for ever prevent us from getting into the club of wealthy nations. First, the price of wool will fall, because we shall be producing so much of it. Second, and more important, having no other alternative source of mass employment, we shall be taking our wool production into areas of Diminishing Returns, to places where productivity will be much lower than in our best areas. There will be no natural checks – no deterrents – to this process of taking the whole nation into producing massively under Diminishing Returns. An automatic consequence of this process will be that wages will have to fall as population increases. In short: An exclusive dependence on natural resources will lead us into a poverty trap.”
As grandes indústrias da Austrália
Construindo complexidade: uma nova maneira de encarar o processo de desenvolvimento econômico


Produção manufatureira no mundo por país:
https://www.indexmundi.com/facts/indicators/NV.IND.MANF.CD/rankings
Ótimo trabalho sobre o tema https://www.researchgate.net/publication/323918171_Estrutura_produtiva_e_crescimento_Uma_analise_comparativa_de_Brasil_Australia_e_Canada







Relatório Brigden (http://press-files.anu.edu.au/downloads/press/p55501/mobile/ch04s02.html)
Relatório Vernon (https://www.smh.com.au/public-service/the-vernon-report-hits-misses-and-menzies-reaction-half-a-century-on-20151003-gk0gvg.html)
ref:
https://www.statista.com/statistics/375558/australia-gdp-distribution-across-economic-sectors/
Composição do emprego na Áustralia:
http://lmip.gov.au/default.aspx?LMIP/EmploymentData_EmploymentbyIndustry
















E a Inglaterra? De onde vem a riqueza da Inglaterra, nos dias de hoje, com uma moeda tao valorizada? Seria a Inglaterra um Paraiso Fiscal?
Serviços financeiros bastante e ainda tem muita complexidade industrial
http://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/gbr/
Qto a Nova Zelandia, a questao de ser um suposto paraiso fiscal tem algum peso?
Paulo Gala
A Larissa Resende e o João Prates fizeram um trabalho interessante sobre esse assunto que foi publicado pela ABDE e ganhou o prêmio. http://www.abde.org.br/uploads/docs/MIOLO%20PREMIO%20ABDE%202017_WEB.pdf
Eles mostram praticamente a mesma coisa que Canadá e Austrália na realidade tem estruturas complexas e parecidas.
Thanks!
Gostei do seu sítio. Serei frequentador…
Resumindo, são todos anglófonos.