Balmaceda no Chile e a Doença Holandesa: Como um Boom Exportador Pode Financiar o Desenvolvimento

O caso de José Manuel Balmaceda no Chile (1886–1891) é paradigmático para compreender como é possível evitar — ou ao menos mitigar de forma consistente — a Doença Holandesa, mesmo em economias com um setor exportador em forte expansão. No final do século XIX, o Chile vivia um boom extraordinário do salitre, responsável pela maior parte das exportações e das receitas fiscais do país. Em muitos contextos históricos, uma bonança dessa magnitude teria levado à apreciação cambial, à reprimarização produtiva e à consolidação de um padrão rentista. Balmaceda, contudo, enxergou essa conjuntura como uma oportunidade estratégica para promover mudança estrutural, e não como uma renda permanente a ser consumida.

Um primeiro exemplo concreto dessa estratégia foi o uso ativo e deliberado da renda do salitre para investimento público em larga escala. Entre 1887 e 1891, o Estado chileno ampliou significativamente os gastos em infraestrutura física: expansão da malha ferroviária, modernização de portos, construção de estradas, obras urbanas e melhoria dos serviços públicos. Essas políticas tinham um efeito macroeconômico crucial: em vez de simplesmente reforçar importações e consumo, elas aumentavam a produtividade sistêmica da economia, reduzindo custos de transporte, integrando mercados regionais e ampliando o mercado interno. Trata-se de um mecanismo clássico de neutralização da Doença Holandesa via aumento da oferta e da eficiência produtiva.

Um segundo exemplo fundamental foi o investimento pesado em educação, ciência e formação de capital humano. Balmaceda expandiu o ensino público, fortaleceu a Universidade do Chile, criou escolas técnicas e promoveu a formação de profissionais qualificados para a administração pública e para atividades produtivas modernas. Ao transformar renda primária em capacidades produtivas duráveis, o Estado chileno atuava diretamente contra o caráter transitório e volátil do boom do salitre. Essa estratégia antecipava, de forma intuitiva, a ideia de que desenvolvimento não é apenas acumulação de capital físico, mas também aprendizado econômico e construção institucional.

Há ainda um terceiro exemplo central: a tentativa de reduzir a dependência estrutural do setor exportador primário, mesmo sem uma industrialização plena no sentido contemporâneo. O projeto de Balmaceda buscava criar condições para que setores não diretamente ligados ao salitre se expandissem, por meio da infraestrutura, do crédito público e da ampliação do mercado interno. Em linguagem atual, tratava-se de uma política de encadeamentos produtivos e diversificação gradual, nos termos de Hirschman, ainda que formulada décadas antes da consolidação teórica do estruturalismo latino-americano.

Essas escolhas, contudo, geraram conflitos políticos profundos. A estratégia de subordinar a renda do setor exportador aos objetivos de desenvolvimento nacional entrou em choque com elites comerciais, financeiras e proprietárias do salitre, muitas delas associadas ao capital estrangeiro. Para esses grupos, a renda do boom deveria ser apropriada privadamente, sem mediação estatal. A Guerra Civil de 1891, que culminou na derrota e no suicídio de Balmaceda, ilustra de forma dramática que evitar a Doença Holandesa é um problema eminentemente político, pois implica disputar quem controla a renda dos recursos naturais e com que finalidade ela será utilizada.

Nesse sentido, o caso Balmaceda antecipa lições que mais tarde apareceriam em experiências bem-sucedidas do século XX. A Noruega, ao criar um fundo soberano para transformar renda do petróleo em poupança e investimento de longo prazo; a Finlândia, ao usar a renda do setor florestal para investir em educação e tecnologia; e a Coreia do Sul, ao canalizar divisas externas para construir capacidades industriais complexas, todos seguiram, em contextos distintos, a mesma lógica fundamental: a renda do boom exportador precisa ser politicamente capturada e estrategicamente transformada.

Por isso, Balmaceda permanece uma referência central para o debate contemporâneo sobre desenvolvimento. Seu fracasso político não invalida a potência de sua estratégia econômica. Ao contrário, ele evidencia que a Doença Holandesa não é uma fatalidade econômica, mas o resultado de escolhas institucionais e correlações de força. Economias com setores exportadores em boom podem, sim, escapar da armadilha rentista — desde que disponham de um Estado desenvolvimentista, capaz de transformar renda extraordinária em infraestrutura, capital humano, diversificação produtiva e valor público de longo prazo.

Referências:

Palma, J.G. (2000), ‘Trying to “tax and spend” oneself out of the Dutch Disease. The Chilean economy from the War of the Pacific to the Great Depression’, in E Cárdenas, JA Ocampo and R Thorp (eds.) An Economic History of Latin America, Vol. 1, The Export Age. The Latin American Economies in the Late Nineteenth and Early Twentieth Centuries, Palgrave.

Palma, J.G. (2023), ‘La economía chilena desde la Guerra del Pacífico a la Gran Depresión: cómo evitar el “Síndrome Holandés” vía “gravar, transferir y gastar”, in E Cárdenas, JA Ocampo and R Thorp (eds.), La Era de las Exportaciones Latinoamericanas. De fines del siglo XIX a principios del XX, Fondo de Cultura Económica, Serie Lecturas 93, pp. 316-354.


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