Bancos, Foguetes e Soja: o Raio-X da Sofisticação Produtiva Brasileira

Existe uma pergunta simples que a economia do desenvolvimento ainda não cansou de fazer: por que alguns países ficam ricos e outros não? Nas últimas duas décadas, a resposta mais influente veio da teoria da complexidade econômica, desenvolvida por Ricardo Hausmann e César Hidalgo. A ideia central é que riqueza não vem de exportar muito, mas de saber fazer coisas difíceis — coisas que exigem uma combinação rara de conhecimentos tácitos, redes de fornecedores, mão de obra especializada e instituições que poucos lugares no mundo conseguem reunir ao mesmo tempo.

Usando dados da RAIS 2023 e adaptando a metodologia original (que mede a complexidade de produtos exportados) para o mercado de trabalho formal brasileiro, construí um ranking nacional de complexidade para as 670 subclasses de atividade da CNAE — a Classificação Nacional de Atividades Econômicas. O índice usado, o ICA-R (Índice de Complexidade da Atividade Regional), funciona como o equivalente ao PCI (Product Complexity Index) de Hausmann-Hidalgo: quanto mais rara e mais difícil de replicar é uma atividade dentro do conjunto da economia brasileira, maior o seu índice.

O resultado é um mapa nítido — e desconfortável — de o que o Brasil sabe fazer bem e o que ainda faz de forma simples demais.

Quem está no topo: conhecimento disperso, não commodity

No topo do ranking, empatadas no valor máximo de complexidade (ICA-R de 2,546), aparecem 18 atividades que, à primeira vista, não têm nada em comum — mas que compartilham uma característica estrutural: dependem de conhecimento disperso, difícil de copiar, construído ao longo de décadas.

Estão ali bancos de investimento, arrendamento mercantil, holdings de instituições financeiras, bolsas de valores, seguros e planos de saúde — todo o núcleo dos serviços financeiros sofisticados. Ao lado deles, fabricação de aeronaves, motores e turbinas, veículos militares de combate e transporte espacial — a assinatura clássica da indústria aeroespacial e de defesa, setores em que o Brasil tem uma trajetória rara graças à Embraer. Completam o grupo atividades de comunicação e tecnologia (provedores de conteúdo de internet, edição de revistas), química fina (aditivos industriais, medicamentos veterinários) e serviços especializados (agências de publicidade, investigação particular, atacado de equipamentos médico-hospitalares e de componentes eletrônicos).

Não é coincidência que finanças e aeroespacial dividam o topo. Ambos exigem redes de especialistas que não se formam da noite para o dia, regulação sofisticada, capital de risco paciente e — no caso da aeroespacial — decênios de aprendizado tecnológico acumulado. É exatamente o tipo de capacidade que a teoria de Hausmann e Hidalgo chama de “conhecimento não codificável”: não dá para comprar um manual e replicar.

Quem está na base: o Brasil que exportamos, mas não sofisticamos

Na outra ponta do ranking está um retrato quase didático da pauta exportadora brasileira. Cultivo de soja ocupa a última posição entre as 670 atividades (ICA-R de -1,888), seguido por cultivo de algodão herbáceo, produção de sementes certificadas, produção florestal nativa, extração de minério de estanho e criação de bovinos. Mineração de metais preciosos e de outros minerais metálicos não-ferrosos também aparecem no grupo de menor complexidade, ao lado de atividades de apoio administrativo e educacional de baixa especialização.

O padrão é claro: as atividades primárias que sustentam boa parte do superávit comercial brasileiro — grão, boi, minério — estão, quase sem exceção, no andar de baixo da sofisticação produtiva. Não é que sejam atividades sem importância econômica; pelo contrário, movem cifras bilionárias. Mas são atividades que qualquer país com terra, clima e capital consegue fazer — não exigem o tipo de capacidade rara que sustenta salários altos e crescimento de longo prazo.

O contraste fica ainda mais nítido quando se olha para o emprego. As 18 atividades empatadas no topo do ranking somam pouco mais de 215 mil vínculos formais em todo o país. Só a criação de bovinos emprega quase o dobro disso sozinha — 395 mil pessoas —, e o cultivo de soja mais 196 mil. A economia mais complexa gera menos empregos, mas remunera muito mais por posto de trabalho; a economia primária emprega em massa, mas com produtividade e salários mais baixos. É a mesma tensão distributiva que já identifiquei em outros mapeamentos regionais: complexidade e volume de emprego caminham, na maior parte das vezes, em direções opostas.

O que os grandes setores da economia revelam

Quando agregamos as 670 subclasses em seções — os grandes capítulos da CNAE —, o retrato setorial confirma a mesma hierarquia: Seção ICA-R médio K — Atividades financeiras e de seguros +1,05 J — Informação e comunicação +0,62 C — Indústria de transformação +0,31 L — Atividades imobiliárias +0,23 M — Atividades profissionais, científicas e técnicas +0,18 … P — Educação -0,52 O — Administração pública -0,84 A — Agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura -1,00 B — Indústrias extrativas -1,06

O setor financeiro lidera com folga, seguido por informação e comunicação e pela indústria de transformação — esta última muito mais heterogênea internamente, com atividades que vão do topo absoluto (aeronaves) até perto da base (commodities agroindustriais processadas de forma simples). Agropecuária e indústrias extrativas fecham a lista, exatamente os dois setores que respondem pela maior parte da nossa pauta de exportação.

Por que isso importa

Esse ranking não é só uma curiosidade estatística. Ele é o retrato quantitativo de um argumento que venho repetindo em diferentes formatos — no Brasil, uma economia que não aprende, nos mapeamentos regionais que tenho feito para Espírito Santo, Alagoas e Rio Grande do Norte, e nas análises setoriais deste blog: o Brasil tem um problema de especialização regressiva. Crescemos historicamente puxados por commodities de baixa complexidade — o que Furtado já descrevia como um padrão de “desenvolvimento associado” e dependente — em vez de subir a escada de sofisticação produtiva que caracteriza as economias ricas.

A lição de política pública é direta, e ecoa tanto a tradição estruturalista brasileira (Furtado, Bresser-Pereira) quanto a economia da inovação de Mariana Mazzucato: não basta exportar mais do que já sabemos fazer. É preciso usar instrumentos de política industrial — crédito direcionado, compras públicas, parcerias de pesquisa — para empurrar a estrutura produtiva na direção das atividades de maior densidade de conhecimento, aproveitando exatamente as capacidades que já existem no espaço de proximidade de cada cadeia. Foi essa a lógica, aliás, por trás da Embraer: um caso raro e bem-sucedido de o Brasil ter subido, deliberadamente, ao topo do ranking de complexidade em pleno século XX.

A pergunta que fica é: por que não conseguimos repetir o modelo Embraer em mais setores?

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