BC brasileiro vai subir juros

Tivemos um forte rally nas bolsas americanas na semana passada, o maior em nove meses. Isso mostra que o estresse no Japão foi superado. Impressionante como as bolsas americanas conseguiram se recuperar. A ideia é que os Estados Unidos estão desacelerando, mas de maneira suave, com a inflação convergindo. Isso cria um cenário muito propício para os mercados, o famoso “soft landing”. Os dados de atividade nos Estados Unidos mostram crescimento, não robusto, mas longe de uma recessão. Não há indícios de que os Estados Unidos estejam em recessão ou entrando em recessão. Aumenta assim a chance de corte de juros por lá. Hoje, o mercado coloca 75% de chance de um corte de 0,25% em setembro, o que traria a taxa para 5,25%. Até o final do ano, possivelmente mais um corte, trazendo a taxa para 5%, com mais alguns cortes talvez no próximo ano. É um cenário bastante benigno para ativos de risco. No Brasil, destaque para a atividade econômica muito forte. Na sexta-feira, o IBCBR registrou 1,37% de alta. O IBCBR mede a atividade econômica e o monitor do PIB da FGV também mostrou 1,1% de alta no segundo trimestre, dados de junho. O IBCBR de junho foi 1,37%. Já tínhamos visto o desempenho dos serviços com uma alta de 1,7% em junho, produção industrial com alta de 4% em junho, parte disso relacionado à recuperação do Rio Grande do Sul. O varejo ampliado subiu 0,4%, enquanto o restrito caiu um pouco. O ampliado inclui material de construção e veículos. Esses dados sugerem um PIB crescendo até 3% este ano. Mesmo com a tragédia no Rio Grande do Sul, o Brasil deve crescer de novo perto de 3% pelo terceiro ano consecutivo. Desde a recuperação da pandemia, o Brasil cresceu em 2021, 2022 e 2023, acumulando um crescimento de 13% desde o vale da pandemia. O desemprego caiu de 14,5% para 6,9%, e os salários continuam subindo, com escassez de mão de obra em vários setores. O estímulo permanente de demanda e gastos públicos, com a regra do salário mínimo que cresce com a inflação mais o crescimento do PIB, aumenta o salário mínimo em termos reais. Com uma inflação de 4% e um crescimento do PIB de 3%, o salário mínimo aumenta 7% ao ano, injetando muita renda e demanda na economia. É difícil controlar a inflação com essa indexação. Essa regra de salário mínimo antes tinha um prazo, mas agora é indefinida. No contexto de polarização política, dificilmente essa regra será alterada. Isso significa que o Brasil tem um mecanismo de gerar crescimento, mas que também pressiona a inflação e a capacidade instalada. Se o investimento não acompanhar, enfrentaremos inflação. A inflação corrente está em 4%, com expectativa de 4,2% este ano e 4% no próximo ano, segundo o Focus, e 3,6% em 2026. O mercado não acredita ainda que o Banco Central vá controlar a inflação. Esse cenário aponta para um ciclo de alta de juros. Acho que será um mini ciclo, começando possivelmente em setembro com uma alta de 0,25% na Selic, eventualmente subindo até 12,5%. É difícil o Banco Central manter a Selic parada com toda essa pressão inflacionária. A surpresa na atividade econômica é grande, com crescimento perto de 3% quando todos esperavam 1% no início do ano. Isso pressiona a capacidade produtiva da economia brasileira. A agenda de dados econômicos esta semana está mais fraca, mas teremos a ata do FOMC na quarta-feira e o encontro de Jackson Hole na sexta-feira, onde esperamos alguma dica do Powell sobre os próximos passos de taxa de juros. Possivelmente, teremos um cenário de queda de juros nos EUA e alta no Brasil, o que deve fortalecer o Real. A bolsa pode ter dificuldade com o ciclo de alta de juros, mas se o Banco Central mostrar que vai subir os juros, o juro longo deve cair, o que pode não agravar muito a atividade econômica.

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