Biden recoloca o quadro de Roosevelt no salão oval

*escrito com Gabriel Galípolo

Por mais de uma década os principais bancos centrais do mundo sustentam os preços dos ativos financeiros sobre os ombros da política monetária. Os ganhos de produtividade decorrentes da exitosa inserção da Ásia no mercado global, somados às mudanças estruturais no mercado de trabalho que comprimiram significativamente o custo de mão de obra, permitiram um longo período de taxas de juros excepcionalmente baixas e abundante liquidez em escala global. A ociosidade das economias sugere aos bancos centrais a flexibilização da política monetária, reduzindo juros e ampliando a liquidez, o que se reverteu em inflação dos ativos financeiros, sem a desejada dinamização da economia, pela ruptura no circuito da demanda efetiva. Pelo mesmo canal, este cenário empurra as autoridades monetárias a aumentarem a aposta, até esgotarem o alcance da eficácia desse instrumento para promover a recuperação econômica. Assim é possível compreender a desagradável dissonância entre a valorização dos ativos financeiros e o não tão exuberante crescimento da renda. A pandemia exacerbou tanto o enfraquecimento da demanda efetiva quanto o quantitative easing.

O recém-eleito presidente dos Estados Unidos apresentou um programa de estímulo econômico de U$4 trilhões, finalmente atendendo o clamor de instituições como FMI e BIS para os governos centrais se engajarem na recuperação de suas economias. A subsequente elevação das taxas de juros de longo prazo, ao anúncio do estímulo fiscal de Joe Biden, revela a aposta do mercado financeiro no sucesso do programa em acelerar o crescimento econômico, comprometendo a viabilidade da manutenção de uma política monetária tão frouxa ou expansionista no futuro. Os últimos dados dos EUA mostram que a recuperação começa a ganhar tração. Em março foram criados mais de 900 mil empregos. O desemprego nos EUA cedeu a 6%, o S&P atingiu nova máxima de 4.000 pontos. Os indicadores de confiança seguem se recuperando. O rally dos preços de commodities continua. Começam a surgir temores de inflação nos EUA graças a escalada dos preços de commodities agro, metálicas, combustíveis e bens industriais, mesmo na presença de desemprego ainda elevado. Continua, portanto, o boom de compra de ativos de risco desde a eleição de Biden graças a monumentais estímulos monetários, creditícios e fiscais. A precificação do ativo está diretamente relacionada às expectativas do fluxo de dinheiro diferido no tempo que sua aquisição dá acesso, descontada a valor presente por taxa determinada pelos juros futuros.

O contágio às variáveis identificadas com o risco país, como câmbio e juros, ocorre por meio da arbitragem. A elevação dos juros pagos pelos títulos públicos norte-americanos de longo prazo move na mesma direção os ativos menos líquidos e de maior risco. O deságio dos ativos domésticos promove a elevação do prêmio dos títulos públicos brasileiros e desvaloriza o real frente ao dólar. O movimento compromete os nexos causais de mão única que habitam as narrativas econômicas bem-comportadas. O que parece ser uma equação está mais próximo de uma identidade. Seja porque a desvalorização do real se refletiu na elevação de preços, pelo aumento na inclinação da curva de juros ou pela própria alta no risco país, cresceu a pressão para o Copom subir também a taxa básica de juros (Selic). A alta da SELIC vai cobrar seu preço em termos de atividade econômica ainda pior no Brasil. O consumo e investimento agregados seguirão deprimidos. Existe enorme capacidade ociosa na indústria, no setor imobiliário, no varejo em geral e no mercado de trabalho. Os juros extremamente baixos em 2020 deram algum fôlego de retomada ao setor de construção civil via crédito, mas sem aumento consistente de emprego e renda, esse movimento não será sustentado. O setor de serviços está ainda abaixo do nível pré crise. O varejo físico tem situação dramática. Nosso PIB deve crescer em 2021 abaixo do necessário para recuperar a queda de 2020. O agravamento da pandemia no Brasil tornará tudo ainda mais difícil. O Brasil caminha para ser o pior caso da Pandemia no mundo em 2021. O cenário para preços de ativos no Brasil continua complicado. Enquanto EUA se recuperam, o Brasil volta a afundar.

artigo publicado no jornal Valor:

https://valor.globo.com/financas/coluna/biden-recoloca-o-quadro-de-roosevelt-no-salao-oval.ghtml

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