O Bitcoin não é Moeda de verdade: é uma “anti-moeda”

Na Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda, Keynes desenvolve a idéia de preferência pela liquidez. Procura demonstrar os motivos para se demandar moeda e liquidez em determinadas situações econômicas. Aqui entra seu conceito de incerteza. Na presença de uma ignorância muito forte em relação ao futuro, um ativo ultra líquido (moeda) é capaz de oferecer proteção aos portfólios dos investidores. Ou como diz Keynes: ‘our desire to hold money as a store of wealth is a barometer of the degree of our distrust of our calculations and conventions concerning the future … The possession of actual money lulls our disquietude; and the premium which we require to make us part with money is the measure of the degree of our disquietude’. Nesse sentido a moeda entra na economia de modo não neutro pois se constitui num dos principais ativos do jogo capitalista. A quebra da estabilidade da velocidade V  na equação quantitativa da moeda faz com que os efeitos da moeda em preços, produto e inflação passem a ser muito mais imprevisíveis. Numa situação de desespero, de incerteza em relação ao futuro, os agentes econômicos trocam ativos menos líquidos por ativos mais líquidos, sendo a moeda o caso extremo. Na crise, a demanda por liquidez explode pois surge uma suspeita generalizada em relação ao valor dos ativos de risco. Se as autoridades monetárias não respondem imprimindo moeda, as taxas de juros (que são o preço da liquidez) explodem.

Uma das maneiras de explicar a diferença entre uma economia monetária ou empresarial de uma economia de trocas passa pela análise da principal “força motriz” (força motriz querendo aqui dizer impulso por trás das ações dos indivíduos) de cada economia e por conseqüência do papel da moeda em cada uma. Como o próprio nome diz, uma economia monetária difere principalmente de um sistema de escambo por conta do funcionamento da moeda na mesma. Numa economia de escambo, a moeda, que pode ser até mesmo algum bem passível de ser produzido, tem um único papel, o de facilitador de trocas de bens entre os agentes econômicos. Esta funciona como um simplificador para contas e um meio simples de reserva de valor para uso futuro. A economia de escambo tem como marca registrada a idéia de que bens compram bens e é esse o principal motivo presente na cabeça das pessoas que convivem nessa economia, ou seja seu “motor”. Numa economia monetária, o motivo “bens que compram bens” deve ser substituído por um onde os agentes querem maximizar suas riquezas sob a forma de moeda. Assim, o motor dessa economia deixa de ser a compra de bens e passa a ser a busca de maximização de riquezas. Nesse sentido, o papel exercido pela moeda numa economia como essa passa a ser totalmente diferente do papel da mesma numa economia de trocas. Os agentes passam agora a demandar moeda como um fim em si mesmo, já que esta também é vista como uma forma de riqueza. A partir do momento em que a moeda passa a ser um fim em si mesmo, temos caracterizada a economia monetária, que diferentemente de uma economia de escambo precisará de todo um novo tratamento para explicar seu funcionamento.

No capítulo 17 da teoria geral Keynes apresenta seu “modelo de alocacao de portfolio”. O conceito principal contido no modelo é o de taxa de juros própria dos ativos. Essa taxa seria medida com base em quatro atributos principais que cada ativo possui ou poderia possuir, são esses : i) quasi-rent ou q, representando o fluxo de renda que um determinado ativo trará ao seu possuidor no futuro, por exemplo uma máquina que produzirá bens para venda ou um título que rende juros; ii) carrying cost ou c , como o próprio nome diz são os custos de reter o ativo, por exemplo armazenagem. iii) liquidity premium ou l, mede o grau de facilidade de conversão do ativo em outros, ou mais simplificadamente em moeda, sem perda no valor de aquisição do mesmo; iv) apreciação ou depreciação do ativo devido a ação de forças de mercado. Esses quatros atributos, segundo Keynes, descrevem as principais características dos ativos encontrados na economia e logo sinalizam para os detentores de riqueza onde alocar seu portfolio de maneira ótima. Deve-se acrescentar aqui que essa alocação terá um forte componente de expectativas por parte desses agentes, expectativas essas que serão abordadas mais detalhadamente no tópico abaixo.

Um primeiro ativo a merecer destaque nesta análise seria o bem de capital ou bens de capital. Esse ativo tem a característica de gerar rendas futuras potenciais, ou seja, pode ter, dependendo do nível de demanda agregada, um q ou quasi-rent muito elevado. Um exemplo mais concreto seria o de um empresário que, ao possuir uma quantia monetária disponível, resolva aplicá-la na construção de uma fábrica. Se a fábrica for bem sucedida, o empresário certamente terá um grande fluxo de lucros que no modelo acima seria considerado como q. Em contrapartida, se a fábrica fosse mal sucedida, devido a insuficiência de demanda agregada,  o agente ora descrito passaria por grandes dificuldades para se livrar do mesmo, na medida em que, sendo um mau negócio, poucas pessoas estariam interessadas em adquiri-lo (mesmo que outras pessoas o adquirissem, a nível macro seria impossível se desfazer desse bem) ; segundo o modelo acima, esse ativo seria ilíquido ou teria uma baixo “liquidity premium”. Pode-se então concluir, como quis mostrar o exemplo acima,  que em geral bens de capital terão q ou quasi-rents altos porém l ou prêmio por liquidez baixo.

Um segundo ativo a ser destacado, tomando por base o modelo de alocação de portfolio, seria a moeda como “asset itself”. Nesse caso, um agente possuidor e maximizador de riqueza demandaria moeda como forma de proteção e especulação, ou mais especificamente como demandante de liquidez ou l. (O próximo tópico dedicar-se-á mais detalhadamente a explicação da demanda de moeda per se.) No nosso exemplo acima,  se o empresário tivesse retido sua riqueza em forma de moeda, este não teria perdas como no caso em que tivesse construído uma fábrica mal-sucedida; é bem verdade que também não teria nenhuma renda, q ou quasi-rent, proveniente da moeda que este reteve. Logo, como procura mostrar o exemplo, apesar de não gerar nenhuma renda, a moeda oferece uma grande recompensa ao agente maximizador de riqueza através do seu prêmio pela liquidez ou l, que é o maior.

Mas afinal de contas o que e’ a moeda? Num sistema fiduciário ou “de confiança”, ou seja sem lastro, o que da’ valor a moeda e’ uma lei nacional que obriga a liquidação de contratos e transações numa determinada “moeda domestica”. Ou seja, o sistema contratual e institucional e’ que da’ valor a moeda. Claro que a inflação corrói o valor da moeda nesse sentido. E ha também uma hierarquia internacional em termos de quais moedas valem mais e quais valem menos. Os mercados “trocam moedas” todos os dias; também conhecido como mercado de cambio. E o bitcoin, o que é? Uma moeda gerada por algoritmos, uma criptomoeda. Como inovação para transações monetárias eletrônicas foi uma inovação incrível! Mas como reserva de valor não se qualifica. Não há nenhum governo que obrigue as pessoas a liquidar contratos em bitcoins, logo, o valor do bitcoin como moeda e reserva de valor é zero. Nao há uma economia, um sistema produtivo e um sistema contratual por trás do bitcoin. Nesse sentido o bitcoin é uma anti-moeda. Claro que o bitcoin pode ser objeto de especulação como foram as tulipas no século XVII. Se muitas pessoas compram bitcoin, seu valor aumenta. Se muitas pessoas vendem, seu valor cai, para uma dada “oferta algorítmica exógena”. Da até para fazer transações pagando em bitcoin, mas a garantia disso é nula, como bem mostram alguns casos recentes. Eu é que não coloco um centavo nesse bitcoin! Quem tratou muito bem dessa discussão sobre o que é moeda foi o economista americano Paul Davidson, vale a pena ler o livro dele abaixo.

Neutralidade da moeda

A moeda não é neutra, nem o câmbio!

Emissão monetária e deficit publico não geram necessariamente inflação

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