Bracell: da Indonésia ao Brasil — uma trajetória construída com apoio do Estado

*escrito por Gustavo Pauro

Toda grande multinacional de recursos naturais carrega, em sua origem, uma combinação de capital privado, terra, infraestrutura e algum tipo de arranjo com o Estado. Poucas trajetórias corporativas tornam essa combinação tão visível quanto a da Bracell — hoje uma das maiores produtoras mundiais de celulose solúvel e especial, presente no Brasil desde 2003. É uma história que atravessa dois mundos institucionais radicalmente diferentes: a Indonésia sob o regime autoritário de Suharto, onde o grupo nasceu, e o Brasil democrático contemporâneo, onde se tornou um dos maiores investidores privados do setor florestal.

As origens, na Indonésia

A história começa com o empresário indonésio Sukanto Tanoto. Em 1967, ainda adolescente, ele assumiu o pequeno negócio de peças e materiais de construção do pai, em Medan, no norte de Sumatra. Um de seus primeiros grandes clientes foi a Pertamina, a estatal indonésia de petróleo — relação que, segundo o próprio histórico institucional da RGE (Royal Golden Eagle, hoje controladora da Bracell) e reportagem do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) baseada nos Paradise Papers, deu a Tanoto os primeiros contratos relevantes de sua carreira.

Em 1973 nasceu formalmente o grupo, então batizado Raja Garuda Mas, como fabricante de compensados de madeira. O ICIJ documenta que a primeira grande fábrica de celulose do futuro conglomerado foi inaugurada com uma cerimônia que contou com a presença do próprio Suharto e de seu gabinete — sinal do grau de proximidade entre o empresário e o regime. A mesma reportagem, citando a Comissão de Erradicação da Corrupção da Indonésia e pesquisadores do setor florestal, mostra que as empresas de Tanoto se beneficiaram, ao longo das décadas seguintes, de royalties florestais mantidos artificialmente baixos pelo governo — num contexto em que Suharto havia declarado estatal cerca de três quartos do território florestal do país e distribuía concessões de exploração a empresários e grupos próximos ao poder.

Não há prova documental de que Tanoto tenha obtido licenças específicas por meio de pagamento a generais — essa é uma caracterização mais ampla do funcionamento do sistema de concessões florestais da era Suharto como um todo. O que está bem estabelecido é o padrão estrutural: o grupo cresceu dentro de um sistema em que o acesso a grandes concessões dependia de proximidade política, com apoio estatal explícito na forma de subsídios setoriais e endosso simbólico do próprio chefe de Estado.

A mudança para Cingapura

A crise financeira asiática de 1997-98, que atingiu duramente a Indonésia e culminou na queda de Suharto, forçou uma reestruturação profunda no grupo: sua divisão de papel e celulose, então listada na Bolsa de Nova York, foi deslistada em 2001 sob mais de US$ 1,3 bilhão em dívidas, renegociadas com apoio de agências estatais indonésias de reestruturação bancária. Foi nesse período que a RGE transferiu sua sede corporativa para Cingapura, onde permanece até hoje.

Diferentemente da Indonésia, não há registro de que Cingapura tenha oferecido subsídios diretos de instalação ao grupo. O que a cidade-estado ofereceu foi estabilidade macroeconômica e jurídica e um sistema financeiro sofisticado — fatores que a própria família Tanoto cita como decisivos para ali consolidar o centro financeiro do grupo.

A chegada ao Brasil

A Bracell iniciou operações no país em 2003, com a aquisição da Bahia Specialty Cellulose, em Camaçari, e da Copener Florestal, ambas na Bahia. Foi o começo de duas décadas de expansão contínua. Em 2018, o grupo comprou a Lwarcel Celulose e entrou em São Paulo, com uma unidade em Lençóis Paulista. No mesmo ano foi lançado o “Projeto Star”: em 2019, o governo paulista anunciou um investimento de R$ 7 bilhões para expandir a fábrica, elevando sua capacidade para até 3 milhões de toneladas anuais de celulose kraft. A nova unidade — descrita pela própria companhia como a maior e mais sustentável do gênero no mundo — entrou em operação em 2021.

Em 2023, a empresa deu um passo além da celulose ao adquirir a OL Papéis, tradicional fabricante baiana de papel higiênico e fraldas, com aprovação do Cade — movimento que marcou sua entrada no mercado de papel tissue sob a nova divisão Bracell Papéis, e que a companhia descreveu, na ocasião, como parte de um plano para se tornar líder desse mercado no médio prazo. Hoje a Bracell emprega cerca de 10 mil pessoas, entre diretos e terceirizados, em operações industriais e florestais espalhadas por três estados brasileiros.

Os incentivos no Brasil

O padrão de proximidade entre a expansão do grupo e o apoio público — que na Indonésia assumiu a forma de concessões florestais sob um regime autoritário — reaparece no Brasil sob uma arquitetura bem diferente: a de incentivos fiscais formais, negociados publicamente sob governos eleitos.

Na Bahia, o estado mantém programas de desoneração de ICMS voltados à instalação e expansão de indústrias, e a Bracell tem sido tratada publicamente pelo governo estadual como parte da estratégia de atração de investimentos da região — inclusive por ocasião da compra da OL Papéis, formalizada junto à Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado. Em São Paulo, a usina termelétrica que abastece a fábrica de Lençóis Paulista foi enquadrada, em 2020, num regime federal que suspende PIS/Cofins sobre a aquisição de bens de infraestrutura, associado a um investimento então estimado em R$ 1,6 bilhão. E, em Mato Grosso do Sul, o governo estadual assinou em 2025 um termo de incentivos fiscais que viabilizou juridicamente um investimento de R$ 16 bilhões para a primeira fábrica de celulose solúvel do estado, em Bataguassu — complementado por isenção municipal de dez anos concedida pela prefeitura local.

Em nenhum dos três casos o incentivo foi uma concessão discricionária de bastidores: são instrumentos previstos em lei, negociados abertamente, anunciados por governadores e prefeitos em eventos públicos, e, ao menos formalmente, sujeitos a controle de tribunais de contas e órgãos de transparência. É esse desenho — replicado estado após estado, à medida que a empresa expande sua fronteira produtiva — que sustenta, no Brasil, um modelo de crescimento tão dependente do apoio público quanto o foi, décadas antes, na Indonésia, ainda que por vias completamente diferentes.

Continuidade e ruptura

Colocando a trajetória lado a lado, o que se vê não são “dois modelos da mesma família”, mas duas coisas distintas acontecendo ao mesmo tempo. Há uma continuidade na importância econômica do Estado: em nenhum momento da história da Bracell — da concessão florestal na Sumatra dos anos 1970 à fábrica bilionária no Mato Grosso do Sul meio século depois — o crescimento do grupo se deu apenas com capital privado. Sempre houve terra, infraestrutura, energia, crédito e algum tipo de decisão pública abrindo caminho.

Mas há também uma ruptura fundamental na forma institucional dessa relação. Na Indonésia de Suharto, o acesso a recursos dependia de proximidade pessoal com um regime autoritário, sem imprensa livre, oposição relevante ou controle externo consistente. No Brasil contemporâneo, os incentivos passam por leis aprovadas em assembleias eleitas, decretos publicados e, pelo menos em tese, escrutínio de tribunais de contas e portais de transparência. Isso não torna o sistema brasileiro imune a falhas — auditorias já apontaram fragilidades no acompanhamento de programas de incentivo fiscal em diferentes estados —, mas é uma diferença de natureza, não de grau.

A questão de fundo

O caso da Bracell/RGE serve como uma boa ilustração de como se constroem, na prática, grandes conglomerados de base em recursos naturais: não com capital privado isolado, mas com a combinação de capital, terra, infraestrutura pública, energia, crédito, segurança jurídica e — em praticamente todos os momentos decisivos dessa história — algum grau de incentivo estatal. Da fábrica de compensados inaugurada por um presidente indonésio em plena ditadura militar até o termo de incentivos fiscais assinado por um governador eleito em Mato Grosso do Sul meio século depois, o fio condutor é o mesmo: nenhuma dessas fábricas existiria exatamente como existe sem alguma forma de decisão pública abrindo caminho.

O que essa trajetória evidencia, portanto, não é o que teria acontecido sem o Estado — essa é uma pergunta contrafactual que a história, por definição, não permite responder com segurança. O que ela evidencia é o quanto o Estado, em suas diferentes formas institucionais, foi parte constitutiva das condições que permitiram essa expansão. E que a pergunta relevante sobre grandes investimentos privados talvez não seja “o mercado ou o Estado”, mas sob que regras, com que grau de transparência e sob qual tipo de controle essa relação se organiza.


Principais fontes: ICIJ/Paradise Papers; site institucional da RGE e da Bracell; Ministério de Minas e Energia; Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia; Semadesc-MS; Prefeitura de Bataguassu; Forbes Brasil; CanalEnergia; Correio (BA). Lista completa de links disponível mediante solicitação.

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